             A CHAVE
       DO  TAMANHO
    Monteiro Lobato

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       LIVROS INFANTIS DE
       
    MONTEIRO LOBATO
        
           A CHAVE DO TAMANHO
           A REFORMA DA NATUREZA
           ARITMTICA DA EMLIA
           CAADAS DE PEDRINHO
           DOM QUIXOTE DAS CRIANAS
           EMLIA NO PAS DA GRAMTICA
           FBULAS GEOGRAFIA DE DONA BENTA
           HANS STADEN
           HISTRIA DAS INVENES
           HISTRIAS DE TIA NASTCIA
           HISTRIAS DIVERSAS
           HISTRIA DO MUNDO PARA AS CRIANAS MEMRIAS DA EMLIA
           O MINOTAURO O PICAPAU AMARELO O POO DO VISCONDE
           O SACI PETER PAN
           REINAES DE NARIZINHO
           SERES DE DONA BENTA
           TRABALHOS DE HRCULES
           VIAGEM AO CU
        
        
 
 
   Monteiro Lobato
        
  
  A Chave
  do Tamanho
  
        
  
     editora brasiliense
     
        
        
A Chave do Tamanho, by Monteiro Lobato



ISBN 85-11-19001-5


42." edio, 1995  


4a reimpresso, dezembro de 1997



Lay-out de capa: Jacob Levitinas

 Ilustraes de capa e miolo: Manoel Victor Filho


Copyright (c) by herdeiros de Monteiro Lobato
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Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
 (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Lobato, Monteiro, 1882-1948.
A chave do tamanho / Monteiro Lobato , llustraes de capa e miolo Manoel Victor Filho.
 - 42. ed. - So Paulo : Brasiliense, 1997.

ISBN 85-11-19001-5     
                         
1. Literatura infanto-juvenil I. Victor Filho,
 Manoel. II. Ttulo.                         
97-5432 CDD-028.5



ndices para catlogo sistemtico:
1. Literatura infantil       028.5
2. Literatura infanto-juvenil       028.5


editora brasiliense s.a.          
    
    
    
    
    
    NDICE
        
        
           PR-DO-SOL DE TROMBETA............     7
           A CHAVE DO TAMANHO ................        9
           POR CAUSA DO PINTO SURA............    13
           A VIAGEM PELO JARDIM  ...............     15
           AVENTURAS  ...........................             17
           A FAMLIA DO MAJOR APOLINARIO..... 22
           JUQUINHA CONTA A SUA HISTRIA ....26
           A TRAVESSIA DAS SALAS ...............     28
           A ESTANTE DOS REMDIOS   ............  31
           O FORD ESCANGALHADO..............      32
           O NINHO DO BEIJA-FLOR ...............    36
           O GIGANTE DE CARTOLA...............      41
           REVELAES..........................             43
           A CAMINHO DO PICAPAU AMARELO ...46
           O CORONEL TEODORICO...............     49
           "O TERROR DO LAGO".................        54
           RABIC, O CANIBAL....................        58
           O FILSOFO CHINS....................      62
           VIAGEM PELO MUNDO .................      64
           A CIDADE DO BALDE...................       70
           A ORDEM NOVA........................          74
           NA CASA BRANCA......................         78
           AINDA L ..............................              80
           O PLEBISCITO..........................           83
           A VOLTA DO TAMANHO ................      86
           
           
           
        
   A CHAVE
   DO TAMANHO
     ---------
     Monteiro Lobato
        
     I
     Pr de sol de trombeta
     
        O        pr do sol de hoje  de trombeta - disse Emlia, com as mos na cintura, depezinha sobre o batente da porteira onde, naquela tarde, depois do passeio 
pela floresta, o pessoal de Dona Benta havia parado. Eles nunca perdiam ensejo de aproveitar os espetculos da natureza. Nas chuvas fortes, Narizinho ficava de nariz 
colado  janela, vendo chover. Se ventava, Pedrinho corria  varanda com o binculo para espiar a dana das folhas secas - "quero ver se tem saci dentro". E o Visconde 
dava as explicaes cientficas de todas as coisas.
        O pr do sol daquele dia estava realmente lindo. Era um pr de sol de trombeta. Por qu? Porque Emlia tinha inventado que em certos dias o Sol "tocava trombeta 
a fim de reunir todos os vermelhos e ouros do mundo para a festa do acaso". Diante dum pr de sol de trombeta ningum tinha nimo de falar, porque tudo quanto dissessem 
saa bobagem. Mas Dona Benta no se conteve.
        - Que maravilhoso fenmeno  o pr do sol! - disse ela.                            
        Emlia deu um pisco para o Visconde por causa daquele "fenmeno", e resolveu encrencar.
        -  Por que  que se diz "pr do sol", Dona Benta? - perguntou com o seu clebre ar de anjo de inocncia. - Que  que o Sol pe? Algum ovo?
        Dona Benta percebeu que aquilo era uma pergunta-armadilha, das que foravam certa resposta e preparavam o terreno para o famoso "ento" da Emlia.
        -  O Sol no pe nada, bobinha. O sol pe-se a si mesmo.
        -  Ento ele  o ovo de si mesmo. Que graa!
        Dona Benta teve a pachorra de explicar.
        -  Pr do sol"  um modo de dizer. Voc bem sabe que o Sol no se pe nunca; a Terra e os outros planetas  que se movem em redor dele. Mas a impresso nossa 
 de que o Sol se move em redor da Terra - e portanto nasce pela manh e pe-se  tarde.
        -  Estou cansada de saber disso - declarou Emlia. - A minha implicncia  com o tal de pr. "Pr" sempre foi botar uma coisa em certo lugar. A galinha pe 
o ovo no ninho. O Visconde pe a cartola na cabea. Pedrinho pe o dedo no nariz.
        -  Mentira! - gritou Pedrinho desapontado,   tirando   depressa   o   dedo   do nariz.
        -  Mas o Sol - continuou Emlia - no pe cartola na cabea, nem tem o pssimo costume de tirar ouro do nariz.
        -   um modo de dizer, j expliquei
        - repetiu Dona Benta.
        -  Estou vendo que tudo que a gente grande diz so modos  de dizer, continuou a pestinha.  Isto , so pequenas mentiras - e depois vivem dizendo s crianas 
que no mintam! Ah! Ah! Ah!... Os tais poetas, por exemplo. Que  que fazem seno mentir? Ontem  noite a senhora nos leu aquela poesia de Castro Alves que termina 
assim:
         Andrada! Arranca esse pendo dos ares1
         Colombo! Fecha a porta dos teus mares!
        Tudo mentira. Como  que esse poeta manda o Andrada, que j morreu, arrancar uma bandeira dos ares, quando no h nenhuma bandeira nos ares, e ainda que 
houvesse, bandeira no  dente que se arranque? Bandeira desce-se do pau pela cordinha. E como  que esse poeta, um soldado raso, se atreve a dar ordens a Colombo, 
um almirante? E como  que manda Colombo fechar a "porta" dos "teus" mares, se o mar no tem porta e Colombo nunca teve mares
        -  quem tem mares  a Terra? Dona Benta suspirou.
        -  Modos de dizer, Emlia. Sem esses modos   de   dizer,   aos   quais   chamamos "imagens   poticas",   Castro   Alves   no podia fazer versos.
        -  Mas  ou no  mentira?
        Dona Benta ia abrindo a boca para a resposta, quando um homem a cavalo apontou na curva da estrada. Era o estafeta que, um dia sim, um dia no, portava ali 
para entregar a correspondncia. Todos tiraram os olhos do pr do sol para p-los no estafeta.
        O homem chegou. Deu boa tarde. Apeou com ar de eterno descadeirado e abriu o encardido   saco   de   lona   para tirar os jornais de Dona Benta.
        -  H tambm uma carta para o Sr. Visconde de Sabugosa - disse ele entregando o pacote.
        Emlia atirou-se para cima da carta como um gato se atira a uma cabea de sardinha, e arrancou-a das mos de Dona Benta, como o poeta queria que o Andrada 
arrancasse a bandeira dos ares.
        -  Deve ser resposta a uma consulta que fiz sobre as vitaminas do p de pirlimpimpim - explicou modestamente o Visconde, enquanto Emlia se preparava para 
rasgar o envelope e Pedrinho suspirava pelo bodoque,
        -  No abra, Emlia! - gritou Narizinho. - Vov j disse que o sigilo da correspondncia      inviolvel.   Carta    uma   coisa   sagrada.   S   o   
destinatrio pode abri-la.
        Emlia fez um muxoxo de pouco caso e enfiou a carta no nariz do Visconde, dizendo:
        -  Coma, beba o seu sigilo. Enquanto  isso,  Pedrinho  desdobrava o jornal e lia os enormes ttulos e subttulos da guerra.
        -  Novo bombardeio de Londres, vov. Centenas de avies voaram sobre a cidade. Um colosso de bombas. Quarteires inteiros destrudos. Inmeros incndios. 
Mortos  beca.
        O rosto de Dona Benta sombreou. Sempre que punha o pensamento na guerra ficava to triste que Narizinho corria a sentar-se em seu colo para anim-la.
        -  No fique assim, vov. A coisa foi em Londres, muito longe daqui.
        -  No h tal, minha filha. A humanidade forma um corpo s. Cada pas  um   membro   desse   corpo,   como   cada dedo, cada unha, cada mo, cada brao 
ou perna faz parte do nosso corpo. Uma bomba que cai numa casa de Londres e mata uma vov de l, como eu, e fere uma netinha como voc ou deixa aleijado  um  Pedrinho 
de l,  me di  tanto como se casse aqui.  uma perversidade to monstruosa, isso de bombardear inocentes, que tenho medo de no suportar por muito tempo o horror 
desta guerra. Vem-me vontade de morrer. Desde que a imensa desgraa comeou no fao outra coisa seno pensar no sofrimento de tantos milhes de inocentes. Meu corao 
anda cheio da dor de todas as avs e mes distantes, que choram a matana de seus pobres filhos e netinhos.
        Aquela tristeza de Dona Benta andava a anoitecer o Stio do Picapau, outrora to alegre e feliz. E foi justamente essa tristeza que levou Emlia a planejar 
e realizar a mais tremenda aventura que ainda houve no mundo. Emlia jurara consigo mesma que daria cabo da guerra e cumpriu o juramento - mas por um triz no acabou 
tambm com a humanidade inteira.
        Na noite daquele dia, em sua caminha de paina, ela perdeu o sono. Quem entrasse em sua cabea leria um pensamento assim: "Esta guerra j est durando demais, 
e se eu no fizer qualquer coisa os famosos bombardeios areos continuam, e vo passando de cidade em cidade, e acabam chegando at aqui. Algum abriu a chave da 
guerra.  preciso que outro algum a feche. Mas onde fica a chave da guerra? Pessoa nenhuma sabe. Mas se eu tornar uma pitada do superp que o Visconde est fabricando, 
poderei voar at o fim do mundo e descobrir a Casa das Chaves. Porque h de haver uma Casa das Chaves, com chaves que regulem todas as coisas deste mundo, como as 
chaves da eletricidade no corredor regulam todas as lmpadas duma casa."
        O Visconde, de fato, andava estudando um misterioso superp, capaz de maravilhas ainda maiores que o velho p de pirlimpimpim; por isso passava as noites 
em claro e at recebia cartas cientficas do estrangeiro. Mas naquela noite Emlia ouviu uns ronquinhos. "Ser o Visconde?" - disse ela - e foi ver. Era o Visconde, 
sim, que, depois de noites e noites  passadas  em  claro,  dormia  um sono de Rabic. "Se ele est ferrado no sono a ponto de roncar" - pensou Emlia, " que j 
resolveu o problema do superp. Ronco de sbio quer dizer cabea fresca, inveno j inventada."
        Pensando assim, Emlia foi p ante p ao laboratorinho do Visconde e remexeu tudo at encontrar numa pequena caixa de fsforos uma substncia parecida com 
cinza. Cheirou-a. Lembrava o cheiro do p de pirlimpimpim. "Deve ser isto mesmo" - disse ela - e corajosamente tomou uma pitada.
        
        
     II
     A Chave do Tamanho
     
         Fiunnn!!!
        Quando Emlia abriu os olhos e foi lentamente voltando da tonteira, deu consigo num lugar nebuloso, assim com ar de madrugada. No enxergou rvores, nem 
montanhas nem coisa nenhuma - s havia l longe um misterioso casaro.
        -  Isto deve ser o Fim do Mundo, e aquela casa s pode ser a Casa das Chaves. Que p certeiro o do Visconde!
        Ergueu-se, ainda tonta, e aproximou-se do casaro. Certinho! Um grande le-treiro na fachada dizia simplesmente isto: "CASA DAS CHAVES." Emlia esteve algum 
tempo de nariz para o ar, com os olhos naquelas estranhas letras de luz. Viu uma porta aberta. Enchendo-se de coragem, entrou. No havia coisas l dentro, objeto 
nenhum, nem mquinas. S aquele mesmo nevoeiro de l fora mas numa espcie de parede distinguiu um correr de chaves como as da eletricidade, todas erguidas para 
cima.
        -  Ho de ser as chaves que regulam e graduam todas as coisas do mundo - pensou Emlia. - Uma delas, portanto,  a chave que abre e fecha as guerras Mas 
qual?
        Emlia segurou o queixo,  a refletir Pensou com toda a fora. No havia diferena entre as chaves. Todas iguaizinhas. Nada de letreiros ou nmeros. Como 
saber qual a chave da guerra?
        - A nica soluo  aplicar o mtodo experimental que o Visconde usa em seu laboratrio.  ir mexendo nas chaves, uma a uma, at dar com a da guerra.
        Mas as chaves ficavam numa fileira a oito palmos do cho, fora, pois, do alcance duma criaturinha de apenas dois palmos de altura. Como alcanar as chaves?
        Emlia correu os olhos em redor. No viu nenhuma escada nem cadeira, nem caixo em que pudesse trepar. No havia sequer uma vara. O remdio seria recorrer 
novamente ao superp. "Se eu cheirar a metade do menor dos grozinhos trazidos nesta caixa, subo at l e agarro-me a qualquer das chaves."
        E assim fez. Escolheu o grozinho de p menor de todos, partiu-o ao meio e aspirou metade. Deu certo. Bastou o cheiro daquela isca de superp para ergu-la 
at s chaves, permitindo-lhe pendurar-se numa. Nem precisou fazer fora. Bastou o seu peso para que a chave descesse quase at o fim.
        Mas o que aconteceu foi a coisa mais imprevista do mundo. Tudo se transformou diante de seus olhos, e um pano enorme, como o toldo dum circo de cavalinhos, 
desabou sobre ela. Emlia sentiu-se rodeada de pano; o cho era de pano; por cima s havia pano; dos lados, pano, pano e mais pano. E com o peso de tanto pano ela 
nem podia conservar-se de p. Ficou deitadinha, como achatada. Mas era preciso sair dali ou pelo menos fazer esforos para sair, porque j estava sentindo falta 
de ar. E comeou a engatinhar debaixo da panaria, numa cega tentativa de fuga. As dobras eram muitas, de modo que a cada momento, tinha de fazer rodeios para poder 
avanar. E foi engatinhando, flanqueando as dobras atrapalhadoras; s vezes at ficava de p, quando uma dobra maior lhe dava espao. Emlia lembrou-se do Labirinto 
de Creta, onde morava o Minotauro.  escuro ali dentro. Nem ao menos aquela penumbra de madrugada de l fora. Emlia teve a impresso de haver passado um sculo 
naquele engatinhamento labirntico. Por fim divisou em certa direo uma claridade. "Deve ser ali a bainha ou fim deste maldito pano", pensou ela, e para l se arrastou. 
Era de fato a bainha - e Emlia j quase sem flego, lavada em suor, saiu do labirinto e caiu exausta no cho, com um Uf!
        Ficou algum tempo deitada de costas, os braos estendidos, sem pensar em coisa nenhuma. Primeiro descansar; depois o resto. Ergueu os olhos para as chaves 
da parede. No viu na parede chave nenhuma. "Que histria  esta? Ser que as chaves se evaporaram?" Firmando a vista, verificou que no. As chaves l estavam, mas 
em ponto muitssimo mais alto. A parede crescera tremendamente. Parecia no ter fim. Tudo aumentara dum modo prodigioso. E no cho viu uma coisa nova, que no existia 
antes; um pedestal atapetado de papel amarelo.
        Emlia achava-se deitada justamente sobre esse pedestal. Depois, olhando para o seu corpinho, verificou que estava nua.
        - Que histria  esta? Eu, nua que nem minhoca, em cima deste pedestal amarelo cheio de riscos pretos, ao lado duma montanha de pano - e as chaves l em 
cima - e tudo enormssimo... Ser que estou sonhando?
        Ps-se a pensar com toda a fora. Examinou o tapete do pedestal. Percebeu que os riscos eram letras e teve de ficar de p para l-las uma por uma. A primeira 
era um F; a segunda, um O; a terceira um S. Chegando  ltima, viu que formava a palavra FSFOROS. Em seguida vinha um D e um E, formando a palavra DE. E as ltimas 
letras formavam a palavra SEGURANA. Tudo reunido dava a expresso FSFOROS DE SEGURANA.
        -  Ser possvel? - exclamou Emlia consigo mesma.  - Ser que estou em cima da maior caixa de fsforos que jamais houve no mundo? Mas se  assim, ento 
cada pau de fsforo deve ser uma verdadeira vigota de pinho - e como a caixa estivesse aberta, espiou. No viu l dentro vigota nenhuma, sim uma espcie de areia 
grossa, da cor exata do superp do Visconde.
        Nesse momento um raio de luz iluminou-lhe o crebro.
        -  Hum! J sei. Isto  a caixa de fsforos que eu trouxe e est do tamanho que sempre foi. Eu  que diminu. Fiquei pequenssima; e, como estou pequenssima, 
todas as coisas me parecem tremendamente  grandes.   Aconteceu-me  o que s vezes acontecia a Alice no Pas das   Maravilhas.   Ora  ficava   enorme   a ponto de 
no caber em casas, ora ficava do tamanho dum mosquito.  Eu  fiquei pequenininha. Por qu?
        E ps-se a pensar mais forte ainda.
        -  S pode ser por uma coisa: por causa da descida  da  chave.   Logo,  aquela chave  a que regula o meu tamanho. Regula s o meu tamanho, ou regula o tamanho 
de todas as criaturas vivas? Regula o tamanho de todas as criaturas vivas, ou s o das criaturas humanas? Quantos problemas, meu Deus!
        Pensou, pensou.
        -  Se todas as criaturas ficaram pequeninas como eu fiquei, ento o mundo inteiro deve estar na maior atrapalhao e com as cabeas to transtornadas quanto 
a minha. Mas a guerra acabou! Ah, isso acabou! Pequeninos como eu, os homens no podem mais matar-se uns aos outros, nem lidar com aquelas terrveis armas de ao. 
O mais que podero fazer  cutucar-se com alfinetes ou espinhos. J  uma grande coisa...
        Pensou, pensou, pensou.
        -  Sim, eu mexi na Chave do Tamanho e todas as criaturas vivas ficaram pequenas porque seria absurdo haver uma chave s para minha pessoa. Se houvesse uma 
chave para cada pessoa, nesta sala deviam existir trs bilhes  e meio de chaves, porque a populao do mundo  de trs bilhes e meio de pessoas. Logo, a mesma 
chave serve para todas as pessoas. Logo, toda a humanidade est "reduzida" - e impedida de fazer guerra. Uf! Acabei com a guerra! Viva! Viva!... Pensou, pensou,
pensou.
        -  A prova de que essa chave s regula o tamanho das criaturas vivas, est aqui nesta caixa de fsforos. Se esta caixa de fsforos tambm tivesse diminudo, 
estaria proporcional ao meu corpo, e no imensa como est.
        A situao era to nova que as suas velhas idias no serviam mais. Emlia compreendeu um ponto que Dona Benta havia explicado, isto , que nossas idias 
so filhas de nossa experincia. Ora, a mudana do tamanho da humanidade vinha tornar as idias to inteis como um tosto furado. A idia duma caixa de fsforos, 
por exemplo, era a idia duma coisinha que os homens carregavam no bolso. Mas com as criaturas diminudas a ponto duma caixa de fsforos ficar do tamanho dum pedestal 
de esttua, a "idia-de-caixa-de-fsforos" j no vale coisa nenhuma. A "idia-de-leo" era a dum terrvel e perigosssimo animal, comedor de gente; e a "idia-de-pinto" 
era a dum bichinho inofensivo. Agora  o contrrio. O perigoso  o pinto.
        Emlia sentiu um friozinho no corao. Comeou a desconfiar que havia feito uma coisa tremenda, a coisa mais tremenda jamais acontecida no mundo.
        Pensou, pensou, pensou. Depois resolveu calcular que tamanho teria.
        -  Posso calcular o meu tamanho por comparao   com   as   letras   da   palavra FSFOROS. Essas letras tinham um tero de centmetro no tempo em que eu 
tinha 40. Ora, se eu tinha 40 centmetros, era 120 vezes maior que um tero de centmetro. E agora? Qual o meu tamanho em relao a essas letras?
        Para fazer a medio, Emlia deitou-se sobre o F, e viu que aquele F tinha um tero da sua altura. Logo, ela estava reduzida a justamente um centmetro de 
altura.
        -  Que coisa - exclamou. Reduzida a um centmetro apenas, eu que tinha 40! Diminui 40 vezes. Nesse caso, Pedrinho, que tinha l,40m. - e contava tanta prosa 
- deve estar reduzido a 3 centmetros e meio. E o coronel Teodorico, que tanto se gabava de ter l,80m est reduzido a 4 centmetros e meio - do tamanho dum simples 
gafanhotinho...
        Emlia pensava, pensava.
        - Que fazer agora? Tenho vrias solues a escolher. Uma,  largar tudo como est. Outra,  levantar novamente a chave e deixar as coisas como eram. Isto 
me parece o melhor, porque se eu voltar para o stio deste tamanho  provvel que nem possa atravessar o terreiro.  O pinto  sura  no  sai  de  l.   Devora-me, 
como se eu fosse uma formiga.
        Olhou para cima. A chave baixada parecia muito no alto - quarenta vezes mais alta que antes. Mas isso no tinha importncia para quem ainda dispunha de tanto 
superp. E, enfiando a mo dentro da abertura da caixa, Emlia apanhou um gro e aspirou-o. O p levou-a at  altura da chave, mas a sua forcinha, diminuda quarenta 
vezes, j no dava para mais nada. Nem jeito de segurar na chave teve, a qual lhe pareceu como enorme maaneta, de dimetro igual  altura do seu corpo - o mesmo 
que a tora de um grande jequitib para um homem dos antigos.
        Dos antigos, sim, porque, se todos os homens estavam agora to reduzidos de tamanho quanto ela, quem quisesse referir-se aos homens da vspera tinha de dizer 
"os homens antigos".
        Emlia sentou-se em cima daquela enorme tora de jequitib, sem saber como descer.
        -  E agora?
        Pensou, pensou, pensou.
        - Vou atirar-me - resolveu. - Meu peso deve estar igual ao peso duma formiga sava e portanto, se me atirar, devo cair com a leveza de um cisquinho - alm 
de que h l embaixo aquela montanha de pano.
        E assim fez. Atirou-se em cima da montanha de pano.
        E foi ento que descobriu uma grande coisa: o pano daquela montanha era uma fazenda de enormes ramos de rosas vermelhas - iguais aos ramos de rosinhas do 
seu vestido evaporado - e compreendeu tudo. A enorme montanha de pano no era mais que o seu prprio vestido largado no cho. Quando baixou a chave e sofreu o instantneo 
apequena-mento, achou-se no meio do vestido o qual, sem o apoio do corpo que o sustinha, desabou, dando  minscula dona l dentro aquela impresso de circo que 
vinha abaixo.
        - Que coisa! -- exclamou Emlia. - Aquele imenso pano que formou o labirinto em redor de mim era o meu vestido. Felizmente a caixa do superp estava na minha 
mo e no no bolso. Se tivesse no bolso, como poderia eu tir-la agora do seio desta enorme montanha? Que coisa formidvel!...
        Emlia pensou por mais uns instantes. Tinha de abandonar ali todo aquele precioso p, apesar de ser o nico que havia l no stio. Pois como levar de volta 
a caixa-pedestal? Se estivesse vestida, em seus bolsos ainda caberiam algumas pitadinhas. Mas daquele modo, nua que nem minhoca, o mais que poderia levar era o
        
        
        que coubesse em suas mos - um grozinho apenas em cada uma. Mas antes isso do que nada - e Emlia tomou um gro de p em cada mo. Depois aspirou um terceiro 
grozinho e - fiun!... l se foi pelos ares, de volta ao stio de Dona Benta.
        
        
        
     III
     
     Por causa do pinto sura
     
        As viagens com o superp eram instantneas. Um fechar e abrir de olhos. Emlia fechou os olhos l no pedestal e abriu-os na porteira do stio. Que colossal 
porteira, Santo Deus! Duzentas vezes a altura dela. L longe viu um enormssimo animal pastando: a vaca Mocha. E mais adiante, uma colossal montanha dormindo: Quindim. 
E a casa? Oh, a casa, no fim do extensssimo terreiro, tinha para ela a mesma altura do Po de Acar para um homem antigo. O telhado parecia  esbarrar nas  nuvens.
        Como atravessar a p os cem metros do terreiro? Cem metros antigamente pouco significavam para a Emlia "grande", mas agora, ah, exigiam 33.353 passos, visto 
como o seu passo se reduzira a 3 milmetros.
        Estava pensando nisso, quando um horrendo monstro surgiu no terreiro: o pinto sura. "Parece incrvel!" - murmurou ela. "Aquele pinto que no passava de simples 
pinto como todos os pintos do mundo, desses que a gente chama com um "Quit! Quit!" ou toca com um "Chispa!" virou um verdadeiro Pssaro Roca." Emlia calculou que 
o pinto devia ter umas vinte vezes a sua altura, isto , o tamanho dum avestruz de 70 metros para um homem como o Coronel Teodorico.
        - Ser possvel que um monstro desse vulto me enxergue? - disse ela sem nimo de atravessar o terreiro.
        Mas o pinto sura era um danado para enxergar. Tinha olhos de microscpio.
        Assim que Emlia, p ante p, ps-se a andar, ele a viu e veio de bico aberto para devor-la. Emlia mal teve tempo de recorrer ao superp que havia trazido. 
Precipitadamente levou ao nariz os dois grozinhos e aspirou-os.      
          Fiunn...
        Despertou muito longe dali, sobre uma rvore enorme, a cuja galharada se agarrou. As folhas eram azuis como o cu e formavam morros redondos. "Folhas? No. 
Isto nunca foi folha. Isto  flor. E os tais morros no passam de cachos de flores. Mas que rvore d flores azuis assim?"
        Emlia lembrou-se logo das hortnsias, e com algum esforo viu que realmente havia cado em cima dum enormssimo cacho de hortnsias. Era-lhe difcil manter-se 
ali, porque as criaturas humanas, dotadas de s dois ps, tm necessidade de superfcies planas para se equilibrarem, e naquele cacho de hortnsias s uma ou outra 
ptala estava em posio horizontal. Emlia tratou de descer. "Para uma criatura-gente, no h como a terra plana", pensou. Antes de descer, porm, correu os olhos 
em redor.
        -  O  que me pareceu  uma floresta, no passa dum jardim. Um imenso jardim, o maior jardim do mundo, com roseiras da altura de rvores e aquele p de jasmim 
com flores do tamanho de Vitrias-rgias,   e  na  beirada   dos  canteiros uma grama que lembra os bananais do Cubato. Como tudo ficou imenso, meu Deus!
        E l adiante? Emlia firmou os olhos. Um verdor elevava-se a grande altura e em cima espalhava-se sobre caibros horizontais. Mas rapidamente Emlia ia aprendendo 
a "interpretar" as imensas coisas vistas.
        -  Sim, estou entendendo. Aquele verdor  a trepadeira duma varanda, e o que me parece caibros so os arames em que ela   se   apoia.   Varanda?   Ento 
aquela imensidade  branca  que  me  parece  erguer-se at s nuvens  a fachada dum palacete.
        Emlia firmou a vista. Quadrados enormes l em cima: as janelas! A platibanda ficava to alta que ela mal podia v-la.
        -  Um palacete, sim, muito maior que a casa de Dona Benta. Vai ser difcil acostumar-me ao novo tamanho das coisas; para as  formiguinhas,  no  entanto, 
esse tamanho das coisas  o natural, pois foi como sempre elas o tiveram. As formigas ruivas nem podem compreender o que  uma casa. Ho de ver as casas como partes 
do mundo, ou coisas que sempre foram, como os morros, as pedreiras,  os rios, as rvores; e por isso passeiam sem medo pelas casas, sobem e descem pelas paredes, 
chegam at a fazer seus buraquinhos rente s caladas. Quando vem sair l de dentro uma pessoa, com certeza nem compreendem o que  uma pessoa; acham que  apenas 
uma imensidade mvel, corno os rios ou o mar. Para as formigas o mundo deve estar dividido em imensidades paradas e imensidades mveis. Uma casa ou um morro  uma 
imensidade parada; de dentro das casas saem imensidades mveis: gente, cachorro, gatos. E nos campos h imensidades com chifres, que ns chamamos vacas ou bois. 
Mas apesar de ter eu agora o tamanho duma sava, possuo a mesma inteligncia de antes - e sei. Sei que estas imensidades que estou vendo no passam de verdadeiras 
pulgas perto de outras coisas ainda maiores, como as montanhas; e as montanhas no passam de pulgas perto de outra coisa maior, como a Terra; e a Terra  uma pulga 
perto do Sol; e o Sol  um espirro de pulga  perto do  Infinito.   Como sei coisas, meu Deus!
        Emlia ps-se a filosofar, a pensar nos estranhos bichos que andavam em redor dela, uns de asas, outros sem asas, uns pretos, outros verdes, outros moles 
- mas todos cheios de pernas.
        -  Como h pernas neste mundo que antigamente eu chamava "mundo dos bichinhos" e que para mim agora virou o meu mundo!  Pois tambm virei bichinho. E vejo 
colegas de todos os tamanhos, uns menores que eu, outros maiores. Aquele mede-palmo que ali vem vindo, por exemplo. Para mim  um verdadeiro monstro, pois tem de 
comprimento cinco vezes a
        
        minha altura - equivalente a uma sucuri de 8 metros para um homem antigo. E no entanto  a mesma lagartinha que outrora eu punha na palma da mo.
     
     
     IV
     
     A viagem pelo jardim
     
        O mede-palmo vinha descendo pela haste dum ramo de hortnsia. Era dos peludinhos. Emlia, ansiosa por se ver no cho, teve uma idia.
        -  E se eu montasse nele e ficasse bem agarrada aos plos? Os mede-palmos no mordem.
        Emlia aproximou-se e zs! cavalgou-o. O mede-palmo deteve-se, estranhando aquilo; ergueu a cabecinha e ficou uns instantes a vir-la dum lado para outro. 
Por fim continuou a descer.
        -    Primeira    descoberta!    -    gritou Emlia. - A escada rolante viva!
        Em seu passeio a Nova Iorque, contado na Geografia de Dona Benta, Emlia tivera oportunidade de conhecer as escadas rolantes das grandes lojas, escadas que 
em vez de serem subidas pela gente, subiam a gente. Os fregueses ficavam de p nos degraus, imveis e aqueles degraus os iam subindo de um andar para outro; e ao 
lado de cada escada em perptua subida, ficava outra em perptua descida.
        -  Meu   mede-palmo   agora   -   disse Emlia -  a escada que desce.
        Ao chegar ao cho, debaixo da moita de hortnsia, estranhou o escuro. Como viesse de cima da flor, onde a luz era intensa, custou-lhe acostumar os olhinhos 
a tanta sombra.
        Que frescura ali! At demais. E mido. Se ficasse muito tempo naquela sombra, apanharia um resfriado. A primeira coisa que a impressionou foi a aspereza 
do cho. Era irregularssimo!
        -  Como h pedras no mundo! - exclamou, tropicando e machucando os delicados pezinhos. - Isso que ns chamvamos terra ou cho, no  terra nada,  pedra, 
pedra e mais pedra. A crosta do planeta  uma pedreira sem fim. Hum! Por isso  que os bichinhos do meu tamanho usam tantos ps. Cada inseto tem seis.  Os mede-palmos 
tm muito mais. De dois ps no h nenhum. Agora compreendo o motivo -  que s com dois ps no poderiam caminhar pelas infinitas pedreiras destes chos. A gente 
d um passo e cai, porque, se um p escorrega, o outro  pouco para manter o equilbrio. Mas com seis ps o andar  fcil, porque, se um escorrega, sobram cinco 
para a escora. Alm disso - estou vendo - todas as patas dos meus colegas possuem garrinhas, com as quais eles vo se agarrando s asperezas do cho ou da casca 
das rvores.
        Emlia compreendeu por que os insetos sobem to bem pelas paredes. Para uma formiga uma parede  uma verdadeira escada, com degraus irregulares a que as 
garras das patinhas vo se agarrando.
        -  Mas em parede de vidro, formiga no sobe, porque o vidro no  escada, no tem degraus. O vidro  liso de verdade.
        Aquela dificuldade de andar comeou a aborrec-la. Para ir daqui at ali era um custo - e quantos tombos! Experimentou andar de quatro. Muito melhor, mas 
cansava,
        -  O remdio  montar num dos meus colegas.
        Nesse momento avistou um enorme caramujo da altura dela. Compreendeu que era um daqueles caramujinhos to abundantes na horta de Dona Benta. Trepou sem medo 
em cima da casca e ficou de ccoras. O caramujo parece que
        nem deu pela coisa. Foi andando, andando, mas vagaroso demais. Emlia cochilou e caiu.
        -  Este cavalo no serve. D sono na gente. Tenho de arranjar outro.
        Seu pensamento era explorar o jardim e aproximar-se da casa para ver se havia gente grande l dentro. Ainda no obtivera a prova provada de que o "apequenamento" 
das criaturas humanas havia sido geral.
        O palacete, porm, ficava longe dali, a uns dez metros de distncia, e uma viagem de dez metros por um terreno to horrivelmente pedregoso (uma rua apedregulhada 
de jardim) era proeza que seus pezinhos descalos no agentavam.
        -  Assim no chego l nunca e arrebento as unhas. S de caminhar meio metro j fiquei com os ps em brasa. A soluo  mesmo um cavalinho.
        Olhou em redor. Alm de lerdos caramujos havia muitos bichos-de-conta, ou "tatuzinhos" como ela dizia. Eram conhecidos velhos. Gostava de brincar com eles 
l no stio. "So uns bobos. Basta que a gente bula neles para que se finjam de mortos." Emlia experimentou. Montou num dos maiores. O bichinho, apavorado, imediatamente 
virou bola - ou conta, como as de rosrio.
        -  No  serve.   Estes   tatus-bolas   tambm no nasceram para cavalos.
        Um gafanhoto verde estava a espi-la de dentro das folhas do "bananal." Tinha cinco vezes a sua altura. Emlia foi-se aproximando sem que ele fizesse caso. 
Chegou bem perto e, sbito, zs! montou. Mas o gafanhoto deu um formidvel pulo, lanando-a de ponta cabea sobre as "pedras" da areia.
        -  Tambm no serve - disse ela, erguendo-se muito desapontada. - Preciso dum bicho que no durma a gente, nem se finja de morto, nem pule.
        A certa distncia estava uma "vaquinha" pastando, Era o nome que no stio Pedrinho dava a certo besouro de pintas amarelas e que o Visconde dizia ser um 
"coleptero".
        O Visconde vivia estudando a vida daqueles animaizinhos. Explicou que se chamavam coleopteros por causa do sistema das asas dobrveis e guardveis dentro 
dum estojo. Essas asas so membranosas, fininhas como papel de seda, mas no andam  mostra, como as das borboletas, aves e outros bichos menos aperfeioados. S 
aparecem quando o coleptero vai voar. O estojo  formado de dois litros cascudos, duros como unha. So dois verdadeiros moldes cncavos ajustados  forma do corpo. 
Eles abrem aquilo de jeito a no atrapalhar as asas de dentro. Abrem o estojo e vo desdobrando as asas - e voam. Quando pousam, dobram de novo as asas, muito bem 
dobradinhas e cobrem-nas outra vez com as tampas do estojo.
        O Visconde achava muita graa no sistema, que era o mais aperfeioado de todos, dizia ele; e vivia fazendo experincias com besouros de todos os tamanhos. 
Era um sistema to bom, que o mundo j andava um besoural imenso. Cento e cinqenta mil espcies de besouros j haviam sido estudadas pelos sbios, imaginem! Se 
o sistema no fosse to bom, a ordem dos coleopteros no se multiplicaria em tantas espcies. Quando um sistema no  aperfeioado, os bichos que o usam levam a 
breca, como aconteceu com aqueles grandes surios que o Walt Disney mostrou na Fantasia. Por que desapareceram tais monstros? Justamente porque o "sistema surio" 
no prestava. E por que os "besouros aumentaram? Porque o "sistema besouro"  aqui da pontinha - e Emlia, que estava conversando consigo mesma, pegou na pontinha 
da orelha. O Visconde tambm achava que o futuro Rei da Criao ia ser o besouro, depois que o rei atual, o Homem, totalmente se destrusse na horrenda guerra que 
andava guerreando.
        Emlia aproximou-se da "vaquinha" e montou. O coleptero quis reagir - abrir os litros para desenrolar as asas e voar, mas Emlia no deixou. Manteve o 
estojo fechado. A "vaquinha", ento, ps-se a andar com ela s costas, e justamente na direo da casa. Sbito, porm, mudou de rumo. Emlia danou. Viu que tinha 
de descobrir a "dirigibilidade dos besouros" como Santos Dumont havia descoberto a "dirigibilidade dos bales". Os bales no comeo eram como os besouros; iam para 
onde queriam e no para onde os homens queriam. Veio Santos Dumont e inventou o meio de govern-los. J a "dirigibilidade dos animais" era coisa velha. A dirigibilidade 
do cavalo, por exemplo, surgiu com a inveno do freio. E se ela pusesse um freio naquele coleptero?
        Emlia apeou para estudar a situao. Mas assim que se viu sem cavaleiro, o "cavalinho pampa" abriu os litros, desenrolou as asas e l se foi pelos ares 
- zunn...
        - Maada! - exclamou Emlia cocando a cabea e olhando em torno.
        Havia se aproximado apenas dois metros do seu objetivo, que era a casa. Faltavam ainda sete metros e meio.
        
     V
     Aventuras
     
        A "vaquinha" havia largado Emlia no meio duma das ruas do jardim. Como o sol estivesse esquentando as pedras, ela percebeu que se no fosse para a sombra 
morreria torrada. E como no viesse em redor nenhum cavalinho ao seu alcance teve de vencer a p o espao que ia dali at o canteiro prximo. Como padeceu para vencer 
aquela enorme extenso de um metro, por cima da horrvel pedranceira do pedregulho! O sol queimava-lhe a pele e por duas vezes o vento a derrubou.
        Outro grande inimigo da nova humanidade vai ser o vento, ia pensando Emlia.  O  maldito vento j me  derrubou duas vezes e, no entanto, devia ser um ventinho 
de nada, pois pouco boliu com as folhas deste jardim. O sistema de andar de p, prprio dos bpedes, s d resultado com as criaturas que possuem tamanho, como os 
antigos homens e as aves. Para um serzinho sem tamanho como eu  o maior dos desastres. Por isso no h bichinho nenhum dotado de dois ps e que ande de p. So 
todos horizontais e cheios de perninhas. Estou agora compreendendo: defesa contra o vento! Se um ventinho -toa me derrubou duas vezes, isso quer dizer que um vento 
de verdade me joga para os confins do Judas e, no entanto, no h formiguinha que no resista aos ventos. Por qu? Porque no  bpede nem anda de p, como eu. Aprenda 
mais essa, Senhora Dona Emlia.
        E assim filosofando alcanou a sombra dos periquitos em redor do canteiro, onde se sentou sobre um pauzinho seco, para descanar e pensar na vida.
        - Que mundo este, santo Deusl - murmurou, muito atenta a tudo quanto se passava em redor.  o tal "mundo biolgico" de que tanto o Visconde falava, bem diferente 
do "mundo humano". Diz ele que aqui quem governa no  nenhum governo com soldados, juizes e cadeias. Quem governa  uma invisvel Lei Natural. E que Lei Natural 
 essa? Simplesmente a Lei De Quem Pode Mais. Ningum neste mundinho procura saber se o outro tem ou no tem razo. No existe a palavra justia. A Natureza s quer 
saber duma coisa: quem pode mais. O que pode mais tem o que quer, at o momento em que aparea outro que possa ainda mais e lhe tome tudo. E por que essa maldade? 
O Visconde diz que  por causa duma tal Seleo Natural, a coisa mais sem corao do mundo, mas que sempre acerta, pois obriga todas as criaturas a irem se aperfeioando. 
"Ah, voc est parado, no se aperfeioa, no ?" diz a Seleo para um bichinho bobo. "Pois ento leve a breca." E para no levar a breca, o bichinho trata de inventar 
toda sorte de defesa e astcias.
        O tatuzinho inventou aquela defesa de virar bola e fingir-se morto. Os gafanhotinhos inventaram um verde que os confunde com a grama. As aranhas inventaram 
a teia para caar as moscas e os ferres e o veneno para se defenderem. Inmeros inventaram asas. Outros inventaram as cascas grossas. A pulga inventou o pulo.
        Eu sempre achei graa na "prosa" dos homens com as invenes l deles. Que so as invenes dos homens perto dos milhes de inventos destes bichinhos? No 
h pulgo que no tenha vrios inventos para a defesa, para conseguir alimento, para morar - ou como diz o Visconde, para "sobreviver" num mundo onde a tal Seleo 
s tem duas palavras na boca: "Isca! Pega!"
        Emlia olhava em redor e ia compreendendo o mundo novo em que tinha de viver.  esquerda viu uma aranha sugando um mosquito preso em sua teia invisvel. 
 direita um bando de formigas atracadas a uma pobre minhoca, que se debatia como um "S" vivo. Um filhote de louva-a-deus estava fingindo que rezava, de mos postas, 
mas na realidade aquilo no era reza e sim um bote armado contra uma presa qualquer.
        -  A vida  uma caada contnua - filosofou Emlia. - Estes meus colegas parece que s no caam quando esto dormindo.
        Os ps de periquito abrigavam inmeros moradores permanentes, alm de hspedes alados que chegavam, ficavam por ali alguns instantes e l se iam. Emlia 
calculou que para cada bichinho de terra, dos sem asas, havia muitos do ar, com asas, e que levam a maior parte do tempo voando.
        -  Chega de caadas - disse ela por fim. - Preciso descobrir outro cavalinho para continuar a minha viagem.
        Nesse momento uma mutuca sentou-se perto dela. Emlia pensou: "Montar nessa mutuca no vai dar certo porque h os tais tombos; mas se eu agarrar-me s suas 
patinhas traseiras? Isso no a atrapalhar em nada no vo, e pode ser que ela me aproxime do palacete."
        Decidida a fazer a experincia, aproximou-se da mutuca por trs, como fazem certas aranhas de parede, das que no usam teias e sim botes, e fez como essas 
aranhas: deu um bote nas perninhas traseiras da mutuca, segurando-se com toda a fora.
        Assustada com aquilo, a mutuca voou - um vo pesado de quem est levando uma carga excessiva e desceu logo adiante. Emlia largou-a, muito contente com a 
idia que tivera.
        - Bravos! Vou chegando, vou chegando. Estou s a trs metros da calada.
        Que lugar era aquele? Um simples canteiro de violetas, dentro do qual Emlia teve a sensao do caador em plena mata virgem. A sua reduo de tamanho permitia-lhe 
ver a "abundncia do pequenino". Quantas vidinhas na sombra daquela mata, sobretudo sob forma de vermes! Bichos cabeludos de todos os jeitos, e lagartas no cabeludas, 
uma delas com chifres no nariz - como o Quindim. E mede-palmos cor de esmeralda, translcidos, gulosamente devorando folhas ou tecendo casulos. E caramujos, e tatuzinhos. 
E uma infinidade de formas de vida que s os sbios sabem.
        Por uma fresta Emlia viu l pelas alturas vrias borboletas borboleteando pelas flores, to leves e lindas. Mas uma vespinha jiti a furtar o plen duma 
violeta a distraiu - e por causa dessa vespinha a pobre Emlia quase levou a breca. Enquanto observava a linda vespa naquele trabalho uma horrenda sarassar se aproximou, 
de ferro arreganhado.
        Emlia tinha dio a essas formigonas pretas desde o dia em que Pedrinho encontrou, no pomar l do stio, um ninho de beija-flor com dois filhotes j meio 
devorados por elas. As canibais, foi o nome que o Visconde 
        
        
        lhes deu. Ser que ela iria ter a mesma sorte dos beija-flores implumes?
        Na maior aflio, Emlia olhou em redor, em procura de abrigo. Deu com uma velha casca de caramujo: lanou-se dentro, ficando bem escondidinha l no fundo. 
A canibal plantou-se  porta,  espera de que aquele "inseto descascado" sasse. Por fim, desanimada, foi-se embora. Quando Emlia teve coragem de espiar, a horrenda 
canibal j ia longe.
        -  Que susto! - exclamou ela saindo de dentro do caramujinho e enxugando com uma isca de musgo o suor gelado da testa. - Tenho que arranjar uma arma qualquer. 
H feras muito perigosas nesta mata.
        Achou fcil e agradvel caminhar dentro do "violetal", porque o cho estava coberto de folhas secas e midas, macias para seus pezinhos. Foi andando at 
chegar  beira da "floresta", onde deu com um gigantesco p de cactos, dos chamados palmatrias-do-diabo. As enormes folhas chatas, recobertas de espinhos pareciam 
almofadas de alfinetes.
        -  E se me armasse dum espinho?
        Mas como arrancar um espinho daqueles? Nem com a fora de cem Emlias, quanto mais com a de uma s. E ficou de nariz para o ar, namorando aquele tremendo 
arsenal de lanas, at que lhe veio uma idia. "Impossvel que aqui pelo cho no haja algum espinho velho de alguma folha cada", e ps-se a procurar. Foi feliz. 
Encontrou uma palmatria j desfeita pelo apodrecimento, mas com os espinhos em muito bom estado. Escolheu o menor e pronto.
        -  Estou um D. Quixote, com esta tremenda lana - disse, pondo a arma debaixo do brao, tal qual fazia D. Quixote.
        Logo adiante estava uma aranha quase do seu tamanho, encorujada na leia,  espera de bichinhos incautos. Vendo aproximar-se aquele inseto desconhecido a 
aranha armou o bote; mas Emlia de lana em riste, no lhe deu importncia
        - foi chegando. Ao atirar-se contra ela, a aranha cravou o ventre no espinho. Esperneou, berrou, mas no teve remdio seno  ir  encolhendo as  pernas  e 
morrendo.
        A primeira vitria de Emlia em pleno "mundo biolgico" encheu-a de orgulho. Estava demonstrando aos seus colegas o valor da inteligncia. J se utilizara 
de vrios como cavalinhos e agora vencera uma aranha em combate.
        Uma coisa a assustava mais que tudo: as aves. Percebeu logo que estavam ali os piores inimigos da nova gente pequenina. O Visconde havia contado que grande 
nmero de passarinhos eram onvoros, isto , comem de tudo - e portanto comeriam a ela tambm e a quantos homens-bichinhos encontrassem. Felizmente batera meio-dia, 
hora em que os pssaros, j de papo cheio, descansam  sombra das rvores. As horas mais perigosas deviam ser as da manh, enquanto eles almoavam.
        Pouco antes de chegar ao "violetal", Emlia tinha assistido a uma tragdia dolorosa. Um gafanhoto verde, ainda crianola e bobo, cara na asneira de afastar-se 
da grama, com cujo verdor ele to bem se confundia. Dera-lhe na cabea brincar de pula-pula na areia branca. Mas a areia branca tornava-o visibilssimo. Uma corrura 
avistou-o, veio e zs! - papo.
        -  Que coisa horrvel o papo das aves!
        - filosofou Emlia. - Verdadeiros barris sem fundo. Elas passam a vida inteira a botar bichinhos ali dentro e no os enchem nunca.
        A lembrana do almoo da corrura f-la lembrar-se do estmago. Ainda no tinha comido coisa nenhuma. Que poderia comer naquele jardim? Se fosse ave, nada 
mais simples, porque no faltavam insetos; mas era gente e gente no come insetos - isto , s come i torrado e gafanhotos. Dona Benta havia dito que So Joo 
no deserto se alimentava de gafanhotos e mel.
        -  Mel, mel, mel - murmurou Emlia lembrando-se das borboletas e abelhas que vivem s de mel. E as flores dali deviam ter mel, j que eram tantas as borboletas. 
Sim, mas as flores andam l pelos altos, boas s para os insetos de asas. Esperem! H tambm flores baixas - as violetas do "violetal". E Emlia voltou para aquela 
mata virgem em procura das violetas baixinhas. Encontrou trs com os cachos pendidos e as ptalas encostadas no cho.
        Foi ali que fez o seu primeiro lanche na vida nova, com o mel tirado das trs violetas pendidas - mas o perfume deu-lhe dor de cabea. Muito forte para ela.
        - E gua?
        Mel causa sede; e gua nos jardins, s de manh, antes que o sol evapore as gotas de orvalho. Mas no h jardim sem torneira de irrigao. Emlia tratou 
de descobrir a torneira daquele. Se tivesse a sorte de a encontrar pingando, o problema da gua no era problema.
        Para descobrir a torneira tinha de trepar a uma "rvore", do alto da qual pudesse "devassar os horizontes". Emlia ps-se a escolher uma rvore 
        
        
        "trepvel", isto , que tivesse os galhos bem pertinhos uns dos outros.
        O melhor que achou foi um p de samambaia, e por uma folha trepou at  pontinha. Com facilidade pde ver a dois metros de distncia a calada, e na parede 
do palacete uma enormssima torneira com um tremendo regador em baixo.
        -  Que regador colossal, meu Deus! - exclamou Emlia fazendo clculos. - Devia ter 40 vezes a sua altura, equivalente a qualquer coisa de 72 metros de altura 
para o Coronel Teodorico.  Em suas comparaes ela se lembrava sempre desse homem famoso no bairro de Dona Benta por causa do tamanho.
        
        
        
        
     VI
     
     A famlia do Major Apolinrio
     
        A torneira ficava a cinco palmos do cho, isto , a cem alturas da Emlia. Pareceu-lhe a maior torneira do mundo.
        -  Em   geral  as  torneiras  de  jardim no ficam bem fechadas, pensou ela, de modo que de vez em quando cai um pingo.. L, portanto,  provvel que eu 
encontre gua.
        Emlia desceu da folha de samambaia e avanou na direo da calada. Teve a sorte de ver no cho uma folha de ica mexicana, que o jardineiro podara na vspera 
e deixara cada por ali (talvez o "apequenamento" o tivesse colhido durante o trabalho.) Onde andaria o pobre jardineiro? No papo de algum passarinho, com certeza. 
Emlia caminhou muito bem por cima da folha de ica e assim chegou  beira da calada sem judiar dos pezinhos na dureza das pedras.
        A altura da calada seria duns 20 centmetros, o que representava 20 alturas da Emlia, de modo que ela ficou a olhar para semelhante barreira como se fosse 
a muralha da China. Que colosso! Como galgar tamanha escarpa? Se fosse formiga, dotada de seis patinhas, nada mais simples; naquele momento duas formigas ruivas 
subiam pela pedra com a -mesma facilidade com que andavam no plano. Mas para cm bpede de um centmetro de altura, obstculos de um palmo so muralhas intransponveis.
        Emlia seguiu pela beira inferior da calada, na esperana de encontrar um "subidor" qualquer.
        Logo adiante deu com uma imensa "cobra vermelha", que descia da calada, atravessava o pedregulho e afundava a "cabea amarela" na grama do canteiro prximo. 
Emlia aproximou-se cautelosamente. Viu que era o cano de borracha do jardim. Parou diante dele. Mediu-o com os olhos. Dimetro igual a trs vezes a sua altura. 
Se pudesse trepar e caminhar por sobre esse cano, ser-lhe-ia fcil transpor a escarpa e descer no cimento.
        Por felicidade, a "cabea-da-cobra", isto , o esguicho de metal amarelo, afundava na grama do canteiro. Emlia foi para l, agarrou-se s folhinhas de grama 
e depois de vrias manobras conseguiu trepar sobre a borracha. O resto foi fcil. Seguiu pelo cano at  escarpa, isto , o ponto em que o cano subia do pedregulho 
 calada. Esse trecho ngreme ela o galgou de gatinhas.
        timo. Estava outra vez no horizontal, em cima da calada. Com as mos na cintura, Emlia contemplou a paisagem. Que calada imensa, Deus do cu! Parecia 
o deserto do Saara.
        Deixando-se escorregar do cano abaixo, encaminhou-se para a torneira. Como era gostoso andar no liso do cimento! At deu uma corridinha.
        Bem debaixo da torneira, olhou para cima. Haveria algum pingo em formao naquelas alturas? Impossvel perceber. Sbito, sem aviso, um pingo, plaft! pingou 
em cima dela e esborrachou-a no cimento.
        Que banho! Emlia ficou atordoada por vrios segundos. Nunca sups que um pingo dgua pesasse tanto.
        Erguendo-se, bebeu,  moda dos animais, numa das pocinhas formadas pelos respingos, e aproveitou a ocasio para um banho.
        -  Que coisa curiosa! - exclamou enquanto se esfregava. - Estou nua e no sinto a menor vergonha. Ser que isso de vergonha depende do tamanho das criaturas? 
Deve ser, porque entre os homens a vergonha era s para os adultos. As criancinhas novas no mostravam vergonha nenhuma nem ningum se ofendia de v-las nuas. Aprendi 
mais essa: vergonha    coisa  que  depende  do   tamanho.
        A torneira ficava perto de uma enorme escadaria de cinco degraus - a escadinha da varanda das trepadeiras. L no quarto degrau Emlia percebeu viventes. 
Firmou a vista. Eram dois insetos cor-de-rosa e um preto - insetos desconhecidos e evidentemente descascados. Chegando mais perto, compreendeu tudo.
        -  Meu    Deus    do    cu!    Aquilo     gente!...
        Era de fato gente - gentinha como ela - os donos da casa com certeza, O inseto preto seria uma tia Nastcia de l - a cozinheira. E Emlia teve assim a primeira 
prova provada de que o apequenamento tambm havia alcanado outras criaturas.
        -  Bom.   Vou   dar   uma   subida   at l   para   conversar   com   aqueles   companheiros.
        Mas havia escada, com cada degrau vinte vezes a sua altura. Ah, se aparecesse por ali a mutuca!
        Emlia viu enorme pau cado sobre a escada e compreendeu que era a vassoura. Com certeza a negra estava passando a vassoura na varanda e no momento em que 
ficou pequenininha a vassoura escorregara escada abaixo e era agora o tal "enorme pau". Felizmente a palha encostava no cho, de modo que Emlia pde subir por ela 
at equilibrar-se em cima do pau - e l se foi engatinhando. Ao chegar ao ponto desejado, pulou.
        Quando a viram engatinhando por cima do cabo da vassoura, as criaturas do quarto degrau supuseram tratar-se dum mede-palmo; mas mede-palmo no pula, de modo 
que o pulinho da Emlia fez que todas recuassem assustadas.
        - No tenham medo! - disse ela aproximando-se. - Tambm sou gente. Sou Emlia, l do stio de Dona Benta, que fiquei pequenininha e ando em explorao pelo 
mundo.
        -   a Emlia mesmo, mame! - gritou um menino que tambm andava por ali e s ento ela viu. - Conheo os livros que falam dela. A cara  a mesma, o jeito 
 o mesmo. S falta a roupinha de xadrez.
        -  E   quem      voc?   -   perguntou Emlia.
        -  Sou o Juquinha. E esta  a Candoca, minha irm - disse o menino apontando para outra criana.
        -  E que aconteceu por aqui?
        -  No sei. Era de manh e estvamos na mesa almoando. De repente, uma panaria sem fim nos enleou e foi um custo para sairmos de dentro. E todas as coisas 
ficaram enormes - enormssimas, como a senhora v. A casa cresceu que no tem mais fim. Nossa roupa evaporou-se, num mistrio.
        Emlia viu que eles no estavam compreendendo a verdadeira situao. Julgavam-se do mesmo tamanho de sempre. As coisas em redor  que haviam crescido.
        -  Esse senhor quem , Juquinha? Seu pai?
        -  Sim, meu pai. E ali est mame. A criada  a tia Febrnia, nossa cozinheira. Papai perdeu a fala coitado, tamanho foi o susto, e mame est muito triste 
com o desaparecimento de vov.
        -  Como desapareceu sua av?
        -  Desapareceu porque no aparece - explicou Juquinha - Depois que conseguimos nos livrar daquela inundao de pano, reunimo-nos todos embaixo da mesa - 
menos vov. At agora, nem sinal.
        Emlia compreendeu o caso. A pobre velha no tinha podido safar-se de dentro de suas prprias roupas, e com certeza havia morrido asfixiada. Se o apequenamento 
foi coisa para a humanidade inteira, ento milhes de criaturas deviam ter perecido como a av daquele menino - pela impossibilidade de sarem de dentro das prprias 
roupas. Nada mais claro.
        -  Como se chama sua me?
        -  Nonoca.
        Emlia dirigiu-se para Dona Nonoca, que estava chorando. Contou-lhe mil coisas, as suas aventuras no jardim, a luta com a aranha, o perigo das aves, o almocinho 
de mel que havia feito. A mulher chorava, chorava.
        -  Chorar no adianta, Dona Nonoca. O que temos de fazer  nos adaptar.
        Dona Nonoca no entendeu essa palavra to cientfica. Emlia explicou-se.
        -  Adaptar-se quer dizer ajeitar-se s situaes. Ou fazemos isso, ou levamos a breca. Estamos em pleno mundo biolgico, onde o que vale  a fora ou a esperteza. 
A senhora at teve muita sorte de que nenhum passarinho ou gato a visse. Como vieram parar neste degrau?
        A pobre mulher contou que depois do desastre eles vieram caminhando at  varanda, para ver como tinha ficado o mundo.
        -  E estvamos olhando para o nosso velho jardim, transformado nesta mata gigantesca e sem fim, quando um horrvel p-de-vento nos jogou aqui.
        Emlia achou graa no "horrvel p-de-vento". Havia de ser aquele mesmo ventinho insignificante que a derrubara duas vezes. Conversou o que pde com a pobre 
criatura e com o inseto preto. Desejava provar que nada havia crescido, eles  que haviam perdido o tamanho - mas no pde convencer ningum.
        -  Como  que sabe? - disse a negra. - Eu estou vendo tudo grande.
        Emlia deu todas as razes imaginveis, sem conseguir coisa nenhuma. E diante da certeza da negra e de Dona Nonoca, tambm ficou na dvida.
        - Ser que tudo ficou grande e as criaturas esto do mesmo tamanho de sempre ou tudo est do mesmo tamanho de sempre e fomos ns que diminumos?
        Pensou, pensou, pensou. O problema era dos mais srios. Tanto podia ser uma coisa como outra - e em ambos os casos a situao das criaturinhas era exatamente 
a mesma.
        Aquele homem era o Major Apolinrio da Silva, prefeito da cidade, cidado muito importante. Estava agora transformado em insetinho descascado e mudo. Emlia 
mediu-lhe a altura. Viu que tinha 4 centmetros. E como fosse muito gordo, dava a idia duma taturana cor-de-rosa em p.
        Juquinha, o mais esperto da famlia, mostrava-se contente com a novidade e, ao contrrio do pai, falava pelos cotovelos.
        Contou que antes da "ventania" ele estivera na varanda espiando a rua pelas grades de ferro do jardim, e muito estranhara no ver movimento nenhum.
        - No    passou    nenhum    automvel nem carroa, nem nada. Tudo paradssimo. Um silncio que nunca vi. Silncio de gente, porque os passarinhos andam 
mais barulhentos do que nunca. Parece que se mudaram todos para a cidade.
        Emlia riu-se. Lembrou-se da queda de is e siriris em outubro, quando milhes de formigas de asas saem dos formigueiros pra a festa anual do banho de 
sol. Nesses dias o assanhamento das galinhas e passarinhos  enorme - e os papos se enchem de arrebentar. O mundo inteiro devia estar agora cheio do assanhamento 
das aves, diante da inesperada apario daquela nova espcie de is.
        Emlia esclareceu como pde o caso e deu os conselhos da sua experincia.
         -   preciso, primeiro - disse ela - o maior cuidado com os ventos. Qualquer ventinho nos derruba. Segundo: cuidado ainda maior com os passarinhos e as 
galinhas. Basta dizer que eu estou aqui, nesta terra desconhecida, justamente por causa dum simples pinto sura, que ainda ontem corria de medo de mim. Terceiro: 
cuidado com os buracos redondos, porque em  geral tm moradores dentro e esses moradores se defendem. Em vez de buraquinhos   redondos,   temos   de   procurar vos, 
fendas e outros abrigos naturais, no feitos por nenhum colega.
        -  Colega?
        -  Sim, nossos colegas so agora os bichinhos do cho e do ar. Quarto conselho: cada um que arranje um espinho de cactos, porque se no fosse este aqui - 
e mostrou a sua lana - eu j estava sugada por uma aranha.                           
        -  Mas onde poderemos arranjar essa arma? - quis saber Juquinha.
        -  Esta encontrei perto do "violetal", no cho. Mas criaturas grandes, como seu pai,  sua me e a tia Febrnia,  podem usar alfinetes. No h alfinetes aqui 
em casa?
        Nesse momento um miado de gato assustou Emlia. O menino, porm, e a negra fizeram cara alegre.
        -   o  Manchinha,  disseram  os  dois ao mesmo tempo.
        -  Que    Manchinha?    -    perguntou Emlia.
        -  O nosso gato amarelo.
        -  Emlia horrorizou-se. Pois ento estavam com um gato ali perto e no se escondiam?
        -  Ele  o que h de manso - disse a boba da Febrnia. - Dormia na minha cama. Fui eu que o criei.
        Oh, estupidez humana! - pensou Emlia. - Ser que esta gente supe que o gato vai reconhec-los e continuar bonzinho como era? Explicou-lhes isso, e aconselhou-os 
a procurarem refgio. Mas quem pode com a burrice de certas criaturas? Ningum acreditou em suas palavras. Riram-se. At o Major Apolinrio riu-se - pela primeira 
vez depois do apequenamento.
        -  Voc diz isso porque no conhece o Manchinha - observou Dona Nonoca. - No h no mundo gato mais meigo.
        -  Mas pega camundongo?
        -  Isso, pega.
        -  E gafanhotos?
        -  Tambm pega. Ainda ontem andou atrs dum gafanhoto a no jardim.
        - E acha ento que ele tem inteligncia bastante para nos distinguir dum gafanhoto ou duma barata?
        O Major riu-se de novo. Ele ainda estava com a "idia de gato" prpria das gentes que possuam tamanho. Emlia tentou esclarec-lo. Explicou aquela histria 
da "idia filha da experincia".
        -  A "idia de gato", Senhor Apolinrio, vinha da nossa antiga experincia de criaturas tamanhudas em relao aos gatos.  Era  a  idia  dum  animal  perigoso 
para ratos, baratas e gafanhotos, mas inofensivo para ns. Agora, porm, temos de  reformar  essa  idia,   como   tambm temos de reformar todas as idias tamanhudas, 
como por exemplo, a "idia de pinto", a "idia de leo" e tantas outras. E quem no fizer assim est perdido.
        O Major no entendeu. Era a burrice era pessoa. Achou aquele sermo com cara de "coisa de livros". Nesse momento o Manchinha miou novamente mais perto.
        Emlia no quis saber de mais nada. Agarrando as duas crianas  correu a esconder-se numa rachadura do cimento.
        Foi a conta. A enorme carantonha dum gato gigantesco surgiu  porta da varanda. Miou vrias vezes, como quem est aflito em procura dos donos. Depois, aproximou-se, 
no perigoso andar de gato que enxerga barata.
        
        
        
        
        
        Que horrvel cena! Apesar de durinha de corao, Emlia arrepiou-se ao ver o meigo Manchinha, to saudoso dos seus donos, comer sossegadamente os trs insetos 
descascados que descobriu ali. Mas teve o cuidado de tapar com as mos os olhos das duas crianas. Juquinha e Candoca nunca vieram a saber do trgico destino de 
seus pais - vtimas da "lerdeza com que s adaptavam s novas condies de vida", conforme Emlia mais tarde explicou ao Visconde.
        
        
     VII
     
     Juquinha conta a sua histria
     
        Depois que o gato se foi embora, talvez em procura de mais insetos gostosos como aqueles, Emlia ps-se a refletir muito a srio. Podia sair da toca, mas 
j estava sem liberdade de ao. De um momento para outro o destino a transformara em me de dois rfos. Juquinha no era nada; at lhe serviria de companheiro 
- menino taludo, de dois centmetros de altura. J a Candoca no passava duma criana de trs anos e meio, completamenta boba. Teria de andar pela mo de algum. 
Que algum? Juquinha ou ela, a "ama seca" Emlia - que graa!
        - Nunca me casei de medo de ter filhos, e afinal me vejo tutora de dois marmanjos - um maior que eu, mas ainda sem juzo, e outro do meu tamanho, mas que 
s sabe chorar. A encrenca vai ser grande...
        Emlia sempre teve fama de no possuir corao. Mentira. Tinha sim. Est claro que no era nenhum corao de banana como o de tanta gente. Era um coraozinho 
srio, que "pensava que nem uma cabea". Podendo deixar ali as duas crianas, j que a situao do mundo era a de um geral "salve-se quem puder", no as deixou. 
Heroicamente resolveu salv-las.
        - Bem. E agora? - pensou l por dentro logo depois de passado o perigo. - Sozinha,   eu   ia   me   arrumando   muito bem. Mas tudo mudou. As duas crianas 
me obrigam  estudar a defesa. Que defesa  devo  adotar?  Evidentemente,   o disfarce. No me resta outro caminho seno essa forma de mentira. Tenho de disfarar-me 
em bicho-folhagem  ou qualquer coisa assim - e tenho tambm de disfarar estas crianas.
        A idia do bicho-folhagem foi sugerida pela lembrana de uma velha histria de tia Nastcia. Para livrar-se da ona, o macaco besuntou-se de mel e rolou 
num monte de folhas secas, desse modo transformando-se em bicho-folhagem e enganando a ona. Emlia tinha de inventar qualquer coisa assim.
        -  Juquinha - disse  ela voltando-se para  menino - saiba que seus pais se mudaram para um pas muito distante e deixaram vocs entregues aos meus cuidados.
        -  Para onde foram?
        Emlia demorou na resposta. Estava pensando. Isso de falar a verdade nem sempre d certo. Muitas vezes a coisa boa  a mentira. "Se a mentira fizer menos 
mal do que a verdade, viva a mentira!" Era uma das idias emilianas. "Os adultos no querem que as crianas mintam, e no entanto passam a vida mentindo de todas 
as maneiras - para o bem. H a mentira para o bem, que  boa; e h a mentira para o mal, que  ruim. Logo, isso de mentira depende. Se  para o bem, viva a mentira! 
Se  para o mal, morra a mentira! E se a verdade  para o bem, viva a verdade! Mas se  para o mal, morra a verdade! Juquinha quer saber para onde os pais foram. 
Se eu disser a verdade, ele se desespera, chora, e fica uma 'inutilidade de olho vermelho e ranho no nariz atrs de mim. Logo no devo contar a verdade. Poderei 
inventar uma mentirinha benfica. Dizer, por exemplo, uma coisa que ele no compreenda bem, mas que o sossegue." E respondeu:
        -  Seus pais, Juquinha, foram obrigados a mudar-se para a Papolndia.
        -  Onde  isso?
        -   uma terra em toda parte, onde s h papapospos.  a terra dos papapupu-dospos que voam, ou andam pelo cho miando como gato. E sabe o que  papapopo? 
-  uma espcie de colo. Antigamente as mes punham os filhinhos no colo; hoje os papapupudospos pem todo mundo no papapopo.
        -  E  bom lugar esse papapopo?
        -  timo.    Quentinho    como   cama. Quem adormece nesse colo  gosta tanto que no acorda mais.
        A explicao deixou Juquinha na mesma, mas o sossegou. Sentia muito que seus pais fossem dormir um sono to comprido numa terra to esquisita; mas se era 
no quente, ento bem. A expresso "quentinho como cama" agradou ao menino, que estava nu e com frio.
        -  No sei o que aconteceu com a nossa roupa, disse ele. - Eu estava com o meu capote vermelho, de bon na cabea, pronto para sair com a tia Febrnia depois 
do almoo. De repente, tudo se sumiu diante de mim. Uma escurido! Fiquei cado no meio de panos. Veio a falta de flego.  Comecei a me debater e engatinhar para 
sair dali.
        - Dali de onde?
        -  Daquela panaria escura.
        -  Sair e ir para onde?
        -  No sei. Eu queria sair, sair - e fui saindo sempre engatinhando.
        -  Por que sempre engatinhando?
        -  Porque no podia ficar de p. O pano no deixava.
        -  E depois?
        -  Fui indo, fui indo, at que rolei
        para um enorme buraco que j no era de pano. Parecia de couro. Escuro como a noite l dentro. Felizmente vi uma luz. Era um buraquinho claro naquele buraco 
escuro. Encaminhei-me para l e sa.
        -  E que viu?
        -  Vi este mundo de agora. Tudo to grande que a gente nem reconhece as coisas. De repente, olhei; mame ia saindo de gatinhas de outro enorme monte de pano. 
E dum terceiro monte de pano, adiante, vi sair papai. Corri para eles. Estavam to assustados que nem podiam falar.   Mame  afinal  falou;   papai  nunca mais. 
Ficou totalmente mudo. Vov, coitada, sumiu. A Zulmira tambm. Vi o cho forrado de plos  enormes;   andar por ali era o mesmo que andar por um capinzal cerrado. 
Plos vermelhos e azuis e pretos.
        Emlia percebeu que Juquinha estava se referindo ao tapete da sala de jantar.
        -  E a Candoca? - perguntou.
        -  A Candoca ia tomar banho naquele momento. A Zulmira j tinha tirado o vestidinho dela...
        Emlia horrorizou-se. Se a pequena j estivesse no banho quando sobreveio a "reduo" teria morrido afogada. E pensou nos milhes de criaturas que pelo mundo 
a fora deviam naquele momento estar no banho e fatalmente morreram afogadas.
        -  Quem era a Zulmira?
        -  A ama de Candoca.
        Um ponto da histria do Juquinha Emlia no compreendeu - o tal buraco escuro em que ele havia cado ao scapar da montanha de pano. Mas desconfiou duma 
coisa.
        -  Voc estava calado, Juquinha?
        -  Estava, sim, com os meus sapatos amarelos. E ia sair com a Febrnia justamente para comprar uns sapatos novos. O do p direito estava furado no dedo.
        Emlia riu-se.
        -  Compreendo  agora,  Juquinha.   O tal buraco enorme em que voc caiu foi o p direito daqueles sapatos velhos, o buraquinho do buraco" era o furo do 
dedo.
        O menino ficou pensativo, de rugas na testa. "Quem sabe se foi mesmo?"
        A Candoca principiou a choramingar de frio. Aquele cimento da escada no era bom bero. O choro da criana fez que Emlia voltasse  idia do bicho-folhagem. 
Tinha de descobrir qualquer coisa com que vestir-se e vestir os rfos. Pano?... Impossvel. Pano at que havia muito, por toda parte montanhas de pano; mas pano 
pede tesoura e agulha, e se acaso ela possusse uma tesoura e uma agulha seriam proporcionais ao seu tamanho e to pequenininhas que no cortaria nem coseria nenhum 
dos grossos panos existentes no mundo.
        Mas h uma coisa que pode substituir o pano: o algodo com que se fazem os panos. Se ela encontrasse um pouco de algodo, estariam resolvidos dois grandes 
problemas: o do vesturio e o da defesa.
        -   isso! Vou disfarar-me em chumao  de  algodo  e  fazer  o mesmo  s crianas. Chumacinhos de algodo valem pela melhor roupa e podem rolar  vontade 
pelo mundo, sem atrair a ateno de gatos, pintos ou passarinhos. Que bicho come  algodo?  Nenhum.  Logo,  o problema agora  descobrir um chumao de algodo.
        E voltando-se para o Juquinha:
        -  L dentro de sua casa no haver algodo?
        -  Algodo?
        -  Sim, desse de botar em cova de dente ou no ouvido, quando h dor de ouvido.
        -  H, sim. Na estante dos remdios do quarto de mame h um pacote azul.
        - timo. Fique sabendo que a grande coisa para ns trs agora  irmos at l e apanharmos um pouco desse algodo.
        -  A senhora est com dor de ouvido? - perguntou o bobinho.
        Emlia riu-se.
        -  No, meu amor. Estou com dor de papapopo   e o remdio  algodo.
        -  Que tanto papapopo a senhora fala? Emlia riu-se de novo.
        -  Juquinha, Juquinha. Papapopo era uma coisa que antigamente no preocupava a ningum. Mas agora o papapopo  tudo. O grande perigo da humanidade nova, 
meu amor,  o Senhor Dom Papapopo. Saiba disso.
        O menino no entendia. Quis explicaes. Ela tapeou.
        -  O Senhor Dom Papapopo, Juquinha, deve ser filho daquele Papo que outrora assustava as crianas. O tal Papo, porm, era mentira. Nunca existiu. Comeou 
a existir desde que algum mexeu na Chave do Tamanho. Est entendendo? Desde esse instante o Papapopo, ou o Senhor Dom Papo - pois tudo  a mesma coisa - apareceu 
no mundo e anda por toda parte nos rondando. Felizmente eu no sou boba.  Percebo as coisas   muito   bem.   Penso   em   tudo   e "adapto-me", como diz o Visconde. 
Por isso estou certa de que o grande remdio contra o Papo  o Algodo. Juquinha amigo toca a procurar o Senhor Dom Algodo por causa do Senhor Dom Papo.
        Juquinha ficou na mesma e Candoca ps-se a berrar.
        -  Vamos!   -  disse  Emlia,  dando  a mo  manhosa e saindo da fresta.
        
        
        
     VIII
     
     A travessia das salas
      
        
        Para chegar  varanda tinham de subir o ltimo degrau da escada. Por onde? Pelo nico caminho existente, o pau da vassoura. Como? Muito bem. Juquinha a ergueria 
nos ombros e a poria l. Depois, l de cima, ela ajudaria Juquinha a subir, dando-lhe a mo. "No! Isso no serve. Posso escorregar e cair. O melhor  eu ir sozinha 
engatinhando pelo pau at a varanda, e ver se l existe alguma corda. Se houver corda, Juquinha subir por ela - e em seguida a Candoca. Est certo."
        Depois de bem planejada a subida, explicou tudo ao menino e deram comeo  realizao da idia. Juquinha, menino forte, ergueu-a facilmente ao ombro e empurrou-a 
para cima do cabo da vassoura.
        -  Muito bem - disse Emlia l do alto. - Agora eu subo at a varanda em procura de corda, e voc me espera a com a Candoca - e ps-se a engatinhar pelo 
cabo da vassoura acima. Chegando ao nvel da varanda, pulou.
        Encontrou l um montinho de lixo da manh. Emlia compreendeu que a criada estava no meio da variao quando ficou reduzida - e a vassoura escorregou pela 
escada. Nesses ciscos de casa de famlia, "corda"  coisa que no falta nunca. Emlia encontrou vrios pedaos de fios de linha, bons para o fim desejado. Arrastou 
um deles at  quina do degrau e gritou para o menino l em baixo:
        -  Achei uma corda tima. Vou jogar a ponta. Faa uma laada e passe-a pela cintura da Candoca.  Depois suba pela corda acima como os marinheiros sobem pelo 
cordame dos navios. Mas antes de jogar a corda tenho de amarrar a outra ponta em alguma coisa aqui. Espere.
        Emlia olhou em torno. Onde amarrar a ponta da "corda"? O cho da varanda era de ladrilhos, sem felpa nenhuma ou prego. Emlia foi examinar a soleira da 
porta, que era de madeira. Descobriu uma excelente lasquinha, ajeitadssima para o caso, mas intil, porque ficava a trs centmetros de altura. Intil? Com um pau 
ela poderia enfiar l uma laada feita na ponta da "corda". S restava achar o pau.
        Emlia voltou para o montinho de cisco. Que riqueza de materiais! Havia tudo ali. "Cordinhas", paus, pedras, fiapos de pano e rolos de "penugem de cisco".
        O pau encontrado foi uma palhinha da vassoura. Emlia enfiou a laada num gancho da palhinha e ergueu-a at  lasca.
        - timo! A laada cerrou e no escapa.
        Depois jogou a ponta da "corda" pelo degrau abaixo.
        -  Pronto, Juquinha. Deixe a Candoca amarrada e suba. Aqui de cima ns dois suspenderemos essa manhosa.
        E assim foi feito. O menino subiu com a maior facilidade, porque era mestre em trepar em rvores. Em seguida os dois juntos suspenderam a Candoca. A  que 
ela chorou de verdade, aos berros, como se fosse o fim do mundo. " natural", pensou Emlia fazendo a conta. "Este degrau tem 15 vezes a alturinha dela; corresponde, 
pois, a uma altura de 27 metros para o Coronel Teodorico. At ele, um homenzarro, era capaz de chorar se algum o suspendesse 27 metros na ponta de uma corda."
        Muito bem. L estavam os trs na varanda, Tinham agora de entrar na casa, o que foi fcil, porque a soleira da porta era apenas de 5 centmetros de altura 
e havia aquele precioso cisco para ajud-los. Emlia e o menino tomaram duas palhinhas de vassoura de igual comprimento, quebraram outra mais fina em pedaos iguais 
e amarraram esses pedaos nas duas palhinhas - e l subiram pela escada feita. A Candoca resistiu. No queria subir. Estava com medo e a chorar que nem um bezerro. 
O remdio foi repetirem a operao anterior. Passaram-lhe a corda sob os braos e suspenderam-na  fora.
        L dentro da casa Emlia admirou a imensido de tudo. No assoalho viu um tapete verde-cana com ramagens cor-de-rosa. Tinha meio centmetro de espessura - 
metade da altura dela!
        -  Este tapete est me parecendo um pasto   de   capim-catingueiro   florescido que os bois ainda no amassaram.
        Como fosse impossvel atravessar a sala por cima do tapete, tiveram de dar volta junto ao rodap. Em certo ponto viram um enorme balde vermelho: o dedal 
de celulide da Zulmira, cado por ali.
        -  timo! - exclamou Emlia. - Vamos deixar a Candoca guardadinha neste "balde",  enquanto  procuramos  o  algodo.   Esta  manhosa  s  serve  para  nos 
atrapalhar.
        A Candoca foi sentada  fora dentro do dedal e l ficou chorando, enquanto Emlia e Juquinha continuavam a viagem pela beira do rodap. Em certo ponto encontraram 
uma pulga dormindo. Que tamanho! Era como um leito para um homem comum. Juquinha pregou-lhe um pontap. A pulga arregalou os olhos, assustada, e deu um pulo gigantesco. 
Logo adiante viram uma traa, dessas que parecem semente de abbora e caminham com a cabecinha de fora, arrastando a "casa". Pararam para ver bem.
        -  Estes bichinhos aprenderam o sistema, com os caramujos - disse Emlia. - Com eles no h isso de "ir para casa" porque a casa anda com eles.
        Notou que a casa da traa era feita de pedacinhos de l, cortados do tapete e ligados entre si dum modo especial. Emlia quis fazer uma experincia.
        -  Ser que se eu trepar em cima ela continua andando? - e trepou.
        A traa, porm, encolheu a cabea, como faz a tartaruga, e ficou imvel. Emlia desceu.
        -  No presta. Isto no d cavalo.
        E contou ao Juquinha as suas proezas com o mede-palmo, com o caramujo, com o besouro de pintas amarelas e a mutua.
        O menino ficou radiante  idia de montar num besouro.
        -  Muito   melhor  que   os   cavalos   - disse ele - porque os besouros voam.
        -  Antigamente   os   cavalos   tambm voavam, disse Emlia.
        -  Quando? Nunca ouvi falar nisso.
        -  Na  Grcia  houve  um  tal  Pgaso que voava  maravilhosamente.   O  Walt Disney pintou o retrato dele, da Pgasa e dos Pegasosinhos, naquela fita a Fantasia. 
No viu?
        -  Eu bem quis ver, mas papai no deixou. Disse que era muito caro.
        -  "Po duro!" Por isso mesmo est "empapado".
        -  Qu?
        -  Est  dormindo   na  Papolndia  - atrapalhou  Emlia.   -   Mas   depois   da Grcia os cavalos perderam as asas, como as is quando enjoam de voar 
e descem. J agora podemos ter quantos Pgasos quisermos. Podemos montar em besouros, em borboletas, e at em libelinhas. Imaginem  que  gosto,  voarmos  montados 
na velocidade incrvel das libelinhas!
        E assim, na prosa, chegaram ao quarto de Dona Nonoca.
        L estava a estante dos remdios, imensa, com caixas de plulas e vidros. Tambm l estava o pacote azul do algodo com um chumao aparecendo. Mas muito 
alto - na segunda prateleira.
        -  O algodo est encimssimo - observou Emlia. - Est como papagaio de papel enganchado no fio telefnico. Como derrubar aquilo?
        O jeito era esse: derrubar. Pacotes de algodo pesam pouco. Se conseguissem alcan-lo com uma vara... Mas que  da vara?
        Emlia espiou entre a estante e a parede.
        -  Achei! Achei! H aqui um vo escuro, cheio de velhas teias de aranha pelas quais podemos subir.
        -  E a aranha? - perguntou o menino.
        
        
        
        -  No vejo nenhuma.  teia velha, e estes fios agentam perfeitamente o meu peso - disse Emlia experimentando. - No h como no ter peso nem tamanho. 
Tudo vira fcil - e foi subindo.
        Juquinha de nariz para o ar, acompanhava a manobra.
        -  A estante tem forro - disse ele. - Quero ver como a senhora passa.
        -  O forro  de pinho - respondeu Emlia. - As tbuas de pinho s vezes tm ns que caem e deixam um buraco. Estou rezando para que este forro seja de tbua 
de pinho com buraco de n. Se no houver passagem, pacincia. Descerei e procurarei outro meio.
        
        
        
     
     
     IX
     
     A estante dos remdios
     
        A estante dos remdios era das pequenas, como em geral as estantes de remdios, de modo que a segunda prateleira ficava a apenas dois palmos do cho. Mesmo 
assim, para criaturinhas daquele tamanho a altura de dois palmos era o mesmo que um sobrado. Emlia, entretanto, foi subindo. Encontrou vrios cadveres secos de 
moscas, borboletinhas, traas e at o de um vaga-lume dos menores.
        -  J sei por que a aranha desta teia no est aqui - disse ela consigo. - Sugou este vaga-lume e morreu envenenada. Aquela luzinha dos vaga-lumes  fsforo 
- um veneno terrvel.
        A sua hiptese do buraco do n de pinho acertou. L estava um e bem na altura da segunda prateleira. Emlia deu jeito, passou-se da teia para o buraco e 
com um pulinho saltou na prateleira. Caiu bem em cima duma roda de carro, branca como leite. Era um comprimido de Fontol.
        -  Chi, meu Deus! Isto por c  uma verdadeira floresta de remdios. Vidres que no acabam mais. E enormes caixas de ungentos.  Gigantescos papeizinhos 
de ps. E at um vidro de iodo.
        Diante do vidro de iodo parou e olhou. A rolha de cortia, devorada pela droga, estava no cho.
        -  Bem boba a gente desta casa - refletiu Emlia. - No sabem duma coisa to -toa - que iodo tem dio s tampas de cortia. Quer tampa de borracha ou vidro, 
como a do vidro de iodo de Dona Benta.
        Foi varando por entre a floresta de remdios at que avistou um pacote de algodo. Enorme! Teria umas dez vezes a sua altura. Fez fora para empurr-lo, 
mas o monstro nem sequer se moveu.
        Chegando  beira da tbua, gritou para o menino l embaixo:
        -  Minha fora no d, Juquinha. Temos de experimentar um jeito. H aqui um fio de gaze. Vou amarrar a ponta no pacote azul para que voc puxe a de baixo.
        E assim fez. Juquinha puxou. O pacote azul foi cedendo, cedendo, at que, plaf! caiu.
        -  Hurra! - exclamou Emlia radiante-e tratou de descer pelo mesmo caminho.
        A teia estava muito velha e empoeirada, de modo que ela se sujou toda e at apanhou um cisquinho no olho.
        -  Assopre - disse logo que desceu, arregalando o olho para o menino.
        Juquinha assoprou - e parece que deu certo, porque Emlia no se lembrou mais do olho. S pensou em ir puxando uma por uma as fibras do algodo para enrol-las 
em redor do corpo. Em poucos minutos transformou-se num verdadeiro casulo. Depois ajudou Juquinha a fazer o mesmo.
        -  Que timo! - exclamou. - Estamos quentinhos aqui dentro, e to bem disfarados em chumao que bicho nenhum ir preocupar-se conosco. Um gato nos v e 
nem liga. " algodo", pensa l com os seus bigodes. Um pinto nos v e passa de largo. Um tico-tico nos v e vai saindo.
        -  Mas o primeiro beija-flor que encontrarmos nos leva no bico - lembrou Juquinha. - J vi l no jardim.  com painas e algodes que eles fazem os ninhos.
        Emlia desfiou mais um chumao de fibras para a Candoca e pronto. Podiam voltar.
        A meio caminho encontraram uma aranha dessas de pernas compridssimas e que no mordem gente - s enrolam moscas no fio. Aquela estava justamente ocupada 
nisso. Uma pobre mosca ficara presa  teia e a aranha estava a enrol-la. Os dois pararam para admirar a perfeio do servio. As longas pernas da aranha tinham 
uma agilidade incrvel no manejo da teia, e com grande rapidez deixaram a mosca sem movimento nenhum, transformada em novelo.
        -  Como estes bichinhos sabem arrumar-se num mundo to grande! - murmurou Emlia - cada qual descobre um jeito. Por isso tenho tanta f na humanidade futura, 
isto , na humanidade de daqui por diante - a humanidade pequenina. Com a nossa inteligncia, poderemos operar maravilhas ainda maiores que as dos insetos.
        -  Mas eles sabem e ns no sabemos - disse Juquinha.
        -  Tambm saberemos. Sabem porque foram aprendendo. Ns tambm aprenderemos, por que no? A professora  uma velha feroz, que no perdoa aos lerdos e preguiosos. 
Chama-se Dona Seleo.
        -  Quem ? - perguntou Juquinha, que no entendia nada de cincia.
        -     a   Papuda-Mor   -   respondeu Emlia rindo-se.
        
        
     X
     
     O Ford Escangalhado
     
        Encontraram a Candoca no chorinho de sempre. Emlia teve uma idia.
        -  Quem sabe se  fome? Ela j havia almoado quando diminuiu?
        Juquinha disse que no.
        -  Foi no comeo do almoo que  a "coisa" veio. Lembro-me bem. Eu tinha fisgado uma batata. Abri a boca. A batata ainda   estava   no   meio   do   caminho 
quando, pronto! No vi mais nada. S aquela escurido dentro da panaria.
        -  Pois h de ser isso. O choro da Candoca  fome - resolveu Emlia. - No cho da sala de jantar deve haver comida. Vamos para l.
        Foram. Que mesa imensa! Ficava a 80 centmetros do cho - 80 vezes a alturinha dela. O mesmo que um arranha-cu de 30 andares para o Coronel Teodorico. L 
em cima devia haver comida para todos os habitantes duma cidade - mas que adianta comida em um "telhado de arranha-cu?" O importante era o que houvesse cado no 
assoalho - algum grozinho de arroz, ou de farinha, ou isca de po.
        Olharam. Perto da mesa viram uma grande bola amarela. Juquinha imediatamente a reconheceu.
        -  A minha batata! Juro que  a minha batata. Mas como ficou enorme! Naquele momento o garfo caiu da minha mo e ela escapou e rolou.  isso.
        Encaminharam-se para l. Era uma batata frita, coisa que outrora qualquer criana mastigaria com a maior facilidade. Para eles, porm, a casquinha exterior, 
endurecida na frigideira, pareceu rija como casca de laranja. Felizmente havia os quatro furos abertos pelo garfo. Juquinha enfiou a mo num deles e agarrou l dentro 
o que pde. Deu um punhado de massa para a Emlia e outro para a Candoca. A menina comeu com voracidade. Coitadinha! Sua manha era de fato fome e frio. Com a quentura 
do algodo e aquele almoo de batata, sossegou.
        -  Muito bem - disse Emlia - temos agora de dar um passeio pela cidade a fim de ver o que aconteceu.
        E depois?
        -  Depois iremos procurar casa, isto , algum buraquinho ou vo de tijolo onde possamos morar.
        -  Toda a vida?
        -  Ento? Nossa vida agora  esta. Eu sempre morei num lugar lindo l no stio de Dona Benta.
        -  Sei. Li as histrias.
        -  Pois . Sempre morei l. Mas estava numa grande viagem quando a "coisa" aconteceu; e virei, mexi e vim parar nesta cidade que no sei qual . Como se 
chama esta cidade?
        -  Isto aqui  Itaoca.
        -  Itaoca? - repetiu Emlia, surpresa. - Ento  aquela vilazinha que ficava a menos de meia lgua do stio de Dona Benta?
        -  Pois .
        -  Ora que graa! Pensei que estivesse no fim do mundo. A vila de Itaoca eu conheo muito  bem.  J andei  por aqui muitas vezes.
        -  Meu pai era o prefeito municipal desta cidade - disse Juquinha. - Tomava conta das  ruas,  mandava  capinar  o mato das caladas. Ele tinha um cavalo 
muito bonito - o Pangar - e s o ano passado comprou automvel - um Ford. Quando ser que papai volta?  longe a papolndia?
        Emlia teve d do Juquinha. Nunca mais iria ver o pai, nem a me, nem a Zulmira, nem a Febrnia, nem o Ford.
        -  Tudo  longe agora, Juquinha. At o stio de Dona Benta, que era pertssimo virou lonjura sem fim. Meia lgua! Meia lgua antigamente era meia lgua. 
Hoje meia  lgua    um  abismo  de  lonjura. Meia lgua tem 3 mil metros. Para caminhar essa distncia os homens davam 5 ou 6 mil passos. Hoje, sabe quantos passos 
eu tenho de dar para fazer meia lgua? - e fez a conta de cabea. Nada menos de 1.200.000 passos!
        -  E se for montada num besouro?
        -  Ah, ento ficar perto. Mas antes disso temos de descobrir a "dirigibilidade dos besouros", seno a gente monta num e vai parar onde ele quer e no onde 
a gente quer.
        E assim, nessa conversa, chegaram  porta da varanda. A menina, j sossegada, ia pela mo da Emlia. L encontraram a escadinha de palha da vassoura e por 
ela desceram. Para descer os cinco degraus da escada de cimento tiveram de recorrer a vrios fios de linha emendados. Quando se viu de novo pendurada naquela corda, 
a Candoca ps a boca no mundo.
        Desceram. Na calada dirigiram-se ao cano de borracha, por cima do qual foram ter ao pedregulho do jardim. Juquinha estranhou o "horror" daquele cho.
        -   incrvel que houvesse tanta pedra aqui e eu nunca percebesse. Quantas vezes no brinquei neste jardim! Corria pelas ruas todas e nunca vi pedras, e 
agora s h pedras e mais pedras.
        Emlia lembrou-se dos sofrimentos de seus pezinhos nas "irregularidades daquele solo" e props que se calassem.
        - Com  sapatinhos de  algodo.  Quer ver? e sentando-se tomou um pouco de algodo do seu chumao e nele enrolou os ps, encastoando-se muito bem. Fez o mesmo 
nos  ps  da  Candoca  e  do Juquinha.
        Foi um regalo. Puderam caminhar muito bem e sem que a todo momento estivessem a dar topadas ou arranhar-se no "corte de vidro" daquelas "pedras de areia". 
E assim chegaram at ao porto de ferro do jardim. Passaram por baixo e pronto. Era a rua.
        Que rua enorme! O outro lado ficava a 20 metros dali, ou 2.000 vezes a alturinha da Emlia. As casas pareciam arranha-cus infinitos, com os telhados nas 
nuvens - e o comprimento da rua tambm no tinha fim. "Perde-se no horizonte" - pensou Emlia.
        Foram andando pela calada. De distncia em distncia viam uma montanha de pano.
        Emlia explicava tudo.
        -  Cada montanha de pano corresponde a um homem, a uma mulher ou a uma criana que estava na rua no momento da "reduo". Os donos das roupas foram soterrados 
por elas; os mais felizes conseguiram sair de dentro, como ns, mas muitssimos no puderam e devem estar mais que mortos. E h ainda os que ao  sarem  tombaram 
nos  buraces  de couro - as botinas. Quem caiu em buraco de sapato raso, ainda pde sair. Mas os que caram em buracos de botas? Esses ainda esto l dentro, como 
sentenciados em calabouos.
        A uma grande distncia do porto viram uma enormssima montanha de ferro escangalhado junto  parede dum "aranha-cu".
        -  Um automvel - explicou Emlia. - Todos os automveis que estavam em movimento na hora da "reduo" foram para o belelu. Perderam o governo, esborracharam-se 
de encontro s casas. O mesmo deve ter acontecido a todos os avies nos ares, e a todos os trens em marcha e a todos os navios no mar. Tudo levou a breca.
        Juquinha achou que aquele automvel podia ser o Ford de seu pai - mas como saber?
        -  Pelo nmero. Que nmero tinha o carro de seu pai?
        - Era o 7.
        Emlia deu volta ao carro para descobrir o nmero. L estava ele, em cima, enorme. Foi preciso afastar-se a boa distncia para l-lo.
        -  Sete, sim, Juquinha. O carro de seu pai era este.
        -  E onde andar o chofer, o Tot?
        -  Com certeza est a dentro. Com as portas fechadas, como poderia ter sado?
        Juquinha quase chorou. Queria salvar o Tot, que era muito seu amigo, mas como?
        - Impossvel   -  resolveu   Emlia.   - Um automvel fechado  a coisa mais fechada que existe no mundo. Nem chuva entra. O Tot, se ainda est vivo, que 
aproveite o resto da vida que tem, porque da ningum o tira. Vamos embora.
        Juquinha ainda ficou parado alguns instantes, de nariz para o ar, vendo se havia um jeito. No havia. Suspirou.
        E l continuaram a subir a rua imensa. Havia ainda muitos passarinhos por ali - para eles aves gigantescas, verdadeiros pssaros Rocas. Embora j tivessem 
comido muitos "insetos descascados", aqueles passarinhos andavam  procura de mais. Nenhum deles, porm, deu ateno aos "algodezinhos moventes".
        -  Eu no disse? - observou Emlia.
        -  O algodo  a melhor defesa contra o frio e contra as aves e gatos.
        -  Mas h os beija-flores - tornou o menino. Se algum nos enxergar, leva-nos para o seu ninho.
        -  Antes ninho do que papo. Se eu for levada a um ninho de beija-flor, at gosto, porque dormirei uma noite regalada.
        Emlia deu a Juquinha uma lio sobre a vida nova.
        -  Muitos daqueles perigos de antigamente pouco valem agora - disse ela.
        -  Lees, tigres, crocodilos, jibias - nenhuma dessas feras, que tanto apavoravam os homens, constitui perigo hoje. O perigo para a humanidade de hoje, 
meu caro,  a galinha,  o pinto,  o pardal,  a passarinhada toda que gosta de insetos. E as aves tm uns olhos tremendos para enxergar. O pinto sura me percebeu 
longe. Outro perigo muito srio  o gato. Cachorro, no; mas gato - ah, malditos gatos, comedores de baratas e gafanhotos! E eles judiam da presa antes de mat-la.
        -  O Manchinha era assim - lembrou o menino. - No perdoava barata nenhuma. E judiava delas.
        -  Pois .  Hoje qualquer gato vagabundo come um rei, um general, um sbio, um prefeito, com a mesma facilidade com que antigamente o Manchinha comia baratas. 
Temos, pois, de nos defender.
        -  Mas como, assim pequeninos?
        -  Com a inteligncia ou a astcia, como fazem tantos insetos deste mundo. O Visconde j me explicou isso muito bem. Uma das melhores defesas, por exemplo, 
se chama mimetismo.
        -  Mime o qu?
        -  Tismo.   Mi-me-tis-mo.   Quer  dizer imitao. Uns imitam a cor dos lugares onde moram. Se moram em pedra, imitam a cor da pedra. Se moram na grama, como 
os gafanhotos, imitam a cor da grama. Por qu? Porque desse modo os inimigos os confundem com a grama. E h os que imitam a forma das folhas das rvores ou dos galhinhos 
secos.
        -  Eu j vi um desses - lembrou Juquinha. - O Tot apareceu l em casa com um galhinho seco na mo. "Que  isto?" me perguntou. Eu olhei e respondi: " um 
galhinho seco." Tot riu-se e largou o galhinho no cho - e sabe o que aconteceu? O galhinho comeou a andar! Era  um   bicho  pernudo,   cascudo,   que imitava 
galho seco.
        -  Pois . Estava "mimetando" um galho seco. Mimetismo  isso. No conhece aquelas borboletas carijs que se sentam nas rvores musguentas e ficam ali quietinhas, 
tal qual um desses musgos cinzentos? Musgos, no. Lquem. Lquem! O Visconde no quer que a gente confunda musgo com lquem. Decore.
        -  Sei. No nosso pomar vi muitas.
        -  Pois  isso. Esses fingimentos so as armas de tais insetos.  a defesa do fraco contra o forte - mas do fraco esperto! A borboleta carij, por exemplo, 
no  capaz de sentar-se com as asas erguidas, como mos postas de quem est rezando. S se senta de asas bem abertas e coladas  casca da rvore, para melhor se 
confundir com os liquens. Liquens. Repita.
        -  Liquens - repetiu Juquinha. - E quem ensina os insetos a fazer isso?
        -  Ah, isso  o problema que mais tem quebrado a cabea do Visconde. Mistrios deste mundo de mistrios, diz ele. O que sei  que os bichinhos vo aprendendo 
e passando a cincia aos filhos. E os que no fazem isso, vo para o belelu. Ns trs estamos usando um recurso do mimetismo. Estamos usando o processo do "chumacismo". 
Estamos fingindo ser o que no somos.
        -  E se der vento?
        -  At nisso o algodo  bom. Se der vento, o vento nos leva, como leva as painas - e vamos cair l adiante. Fica sendo um novo meio de viajar.
        Chegaram diante dum terreno em aberto e com mato. Pareceu-lhe uma imensa floresta. Emlia levou-os para baixo das "rvores" e mostrou-lhes muita coisa que 
j havia aprendido na touceira de hortncia e no "violetal". A Candoca rompeu em choro, no mais de fome ou frio, sim de medo. Os monstros que via por ali assustavam-na 
dum modo incrvel - grilos, caramujos, aranhas, lagartas. Por mais que Emlia a sossegasse dizendo no haver perigo porque os monstros no comiam chumaos, ela no 
fechava a torneira. Em certo momento ficou to apavorada com uma lesma do tamanho duma baleia que instintivamente escapou da mo de Emlia e atirou-se a um buraco 
redondo que viu perto.
        Ah, por que foi fazer aquilo! Uma "paquinha" veio l do fundo, furiosa, com uma carantona ferocssima. Juquinha conhecia esses grilos terrveis, que mordem, 
e arrancou a menina de l.
        -  O que valeu - disse Emlia, segurando-a de novo pela mo - foi que a paquinha estranhou o chumao. Nunca viu "bicho-algodo".   Veio  da  boca   arreganhada 
para morder, mas vacilou. Vi muito bem. Isso  bom para vocs aprenderem o perigo que h nos buracos redondos. Buraco redondo quer dizer buraco feito, e quase todo 
buraco feito tem sempre dono dentro ou perto. E esses donos se defendem. Muito mais seguro  um vo ou fresta, porque no so abrigos feitos  por  bichos.   So 
abrigos   "acontecidos". Um tijolo ou um pedao de telha ou pau cai de certo jeito e "acontece" ficar um vo.  o abrigo que devemos procurar. Mas buraco redondo, 
nunca!
        Candoca tremia de medo. Quis sair dali, voltar para a rua.
        - Espere, menina. J vamos. Estou dando uma lio de vida nova, porque a vida agora  esta. Acabou-se o tal negcio de casa e quarto com cama, e a Zulmira 
com a mamadeira, e a mame com o colo. Agora  ali na batata! Ou cuida de si mesma ou leva a breca. Aprenda.
        Juquinha compreendia depressa as exigncias da vida nova, mas s pensava numa coisa: encontrar um besouro para montar. No tinha medo nenhum de besouro - 
nunca tivera. Considerava-os perfeitamente inofensivos e bobos. Afinal saram da floresta e foram outra vez para o cimento da calada. E l, em vez de besouro, sabem 
o que apareceu? Um beija-flor. Estava zunindo em cima dum enorme p de malmequer amarelo. Ao ver aqueles chumaos, lembrou-se do ninho em construo. Desceu como 
uma flecha e zs! levou a Emlia pelos ares.
        Candoca rompeu num choro apavorado, enquanto Juquinha arregalava os olhos, sem saber o que fazer.
        
        
     XI
     
     No ninho do beija-flor
     
        O passeio de Emlia pelos ares foi curto, porque todas as distncias ficam curtas para a rapidez dos beija-flores. Aquele estava justamente acabando de construir 
o seu ninho num buraco da estrada,  beira da vila. Chegou l, soltou o algodo e ajeitou-o com o bico em certo ponto do ninho. Depois afastou-se. Ia com certeza 
buscar os outros chumaos.
        Emlia botou a cabecinha de fora e espiou. Um ninho enorme de dimetro igual a cinco vezes a sua altura. Ovo no havia nenhum. S paina de todos os lados. 
Emlia estava a pensar no que fazer quando ouviu um barulho. Era o imenso beija-flor que voltava com outro chumao no bico - o Juquinha. Na terceira viagem trouxe 
a Candoca. Emllia admirou-se de v-la calada, mas aquele silncio vinha dum aviso do Juquinha. "Se voc continua a chorar, estes monstros descobrem o nosso mimetismo 
e adeus, Candoca!" Ela compreendera e calara-se.
        O lindo colibri arrumou do melhor jeito os dois algodes e acomodou-se no ninho. Era tarde j, hora das aves se recolherem. Emlia ficou quietinha pensando. 
No lhe passou pela cabea falar com os companheiros. Muito distantes dela, alm de que o beija flor podia perceber. Tratou de acomodar-se como melhor pde e dormir. 
E dormiu a mais agradvel noite de sua vida. Que deliciosa quenturinha!
        Teve um sonho. Estava no stio, escondida com tia Nastcia no canudo de bambu. Nisto Dona Benta apareceu montada numa taturana. "Que  que procura, Dona 
Benta?" "O meu tamanho", foi a resposta. "Um ladro entrou aqui na casa e me roubou o tamanho" E o sonho ia por a alm.
        Quando Emlia abriu os olhos, j era madrugada. O primeiro canto de passarinho que ouviu foi o duma corrura. "Parece um colar de bolinhas borbulhalhas", 
pensou ela consigo. O segundo canto foi o dum casal de joo-de-barro, gritadssimo, como "briga de dois ecos". Depois, o dum sabi; "parecia um pingo d'gua sonora 
caindo dentro duma
        
        
        
        cuia". Depois, o dos canrios, tico-ticos, saras, pintassilgos, anus, bem-te-vis etc. - uma verdadeira orquestra sem maestro, em que cada msico toca o 
seu instrumento sem se importar com o vizinho.
        Por fim o sol comeou a iluminar o mundo; o beija-flor ergueu-se do ninho, abriu o bico num bocejo e voou. Ia cuidar do almoo.
        Emlia mexeu-se, em procura dos companheiros. Esbarrou logo adiante com um ovo que lhe dava pela cintura - o primeiro ovinho botado pelo beija-flor. Do outro 
lado do ovo deu com o Juquinha j de p. S a Candoca ainda dormia.
        -  Que tal a noite? - perguntou ao menino.
        -  tima!  dormi como nunca - e a Candoca tambm, porque no ouvi choro nenhum. E o beija-flor?
        -  Saiu com certeza para o almoo. 
        - E vamos ficar aqui toda a vida?
        -  No. Vamos almoar tambm e depois descer.
        -  Almoar aqui? No veja nada...
        -  E o ovo?
        -  Mas como poderemos quebrar tamanho ovo?
        Emlia no abandonava nunca a sua lana de espinho. Tirou, a de dentro do chumao e disse:
        -  Tenho  c  este  timo  abridor  de ovo.
        E a festa comeou. Os dois agarraram na lana e puseram-se a fazer movimentos de mo de pilo, batendo com a ponta sempre no mesmo lugar. Era dura a casca, 
mas cedeu. De repente a lana afundou, deixando que sasse uma gotinha de clara.
        -  Bom - disse Emlia. - Agora eu enfio a lana l no fundo para varar a gema - e depois lamberemos a gemada que vier.
        E assim fez. O primeiro mergulho da lana trouxe gemada suficiente para o estmago de duas Emlias. Juquinha no se contentou com uma fisgada. Exigiu trs. 
Comiam com a mo. Passavam a mo sobre a ponta da lana amarela de gema e levavam aquilo  boca.
        Depois acordaram a Candoca e deram-lhe uma fisgada. A menina lambuzou-se toda.
        - Est com cara de quem comeu manga  -  disse  Emlia  rindo-se,   enquanto limpava a lana e guardava-a dentro do chumao.
        Veio-lhe uma idia tima.
        -  E se molhssemos de clara as nossas botas de algodo?
        -  Para qu?
        -  Bobinho. A clara  al-bu-mi-na. Repita! Seca num instante e une as fibras. Ficaremos assim com verdadeiras botas, da forma exata dos nossos ps.
        E deu o exemplo. Ensopou de clara o algodo enrolado nos ps e espichou-os para um raio de sol a fim de que secassem. Juquinha gostou da idia e fez o mesmo 
- e depois,  fora, tambm "albuminou" os ps da Candoca.
        -  E agora? - disse ele depois que viu as botinhas secas e ainda melhores do que se fossem de couro.
        -  Agora, um vo de pra-quedas! Temos de nos jogar deste ninho abaixo. Assim, dentro do algodo, no h perigo de machucadura.
        Treparam  beirada do ninho e olharam. Aquilo ali era um imenso barranco de cinco metros, rasgado na terra vermelha. L embaixo ficava uma largussima faixa 
da mesma cor - a estrada. Emlia pensou e resolveu.
        - Vamos  primeiro jogar  a  Candoca. Depois nos atiraremos.
        Assim fizeram. A menina berrou como nunca, quando eles a agarraram e a empurraram para o abismo - e l se foi rolando. Infelizmente no chegou at  estrada. 
Ficou presa a um capim do barranco. Emlia e Juquinha tiveram mais sorte; caram sobre um "areai preto". Os enxurros da chuva costumam deixar  beira das estradas 
essas pequeninas praias de areia preta. Aquela ali teria uns dois palmos de extenso, mas para a Emlia pareceu bem grande. Experimentou andar com as botinhas albuminadas.
        -  timo! Agora j no tenho medo de cho nenhum. Nunca me hei de esquecer do que os meus ps padeceram no pedregulho daquele jardim - e deu uma corridinha 
sobre a Praia Preta.
        -  E a Candoca? - lembrou Juquinha. Olharam para o alto. L estava o chumao da Candoca, preso ao capim do barranco.
        -  O remdio  esperar que o vento sopre e ela caia - resolveu Emlia.
        -  E se subssemos at l?
        -  Poderamos subir mas no assim de 'roupa" - e se tirarmos a roupa voltaremos a correr perigo. H muitas aranhas nesses "buracos de razes".
        Naquele ponto da estrada ainda no batera o sol, de modo que havia orvalho. Emlia e Juquinha beberam os "diamantes lquidos" duma peluda folha de capim.
        -  E agora? - disse Emlia para si mesma. - Que fazer? No tenho servio nenhum. No tenho obrigaes. No tenho casa, nem esposo. Minha vida vai ser sempre 
esta. Ir andando pelo mundo, cautelosa na defesa e a cuidar do estmago. O problema da comida  fcil para quem se contenta com pouco. Ontem alimentei-me de mel. 
Hoje de gema. Por isso  que h tantos bichinhos no mundo - facilidade de alimentao. Qualquer isca lhes basta; o simples mel de duas ou trs flores enche o papo 
duma vespa. E nem tenho medo do vento. Que o vento venha e me leve! Tanto me faz estar aqui como ali. Esta nossa inveno do pra-quedas vai ser a salvao da nova 
humanidade pequenina. Mas... e se vier chuva?
        Emlia pensou em chuva porque o cu estava escurecendo. Um ronco de trovoada ecoou longe. Ps-se a refletir. "Se a chuva molha meu algodo, adeus pra-quedas 
e adeus defesa! Fico reduzida a um pinto pelado que caiu no melado. Logo, tenho de defender-me das chuvas. Como? Escondendo-me em lugares onde a chuva no caia. 
Que lugares so? Isso depende do ponto em que eu estiver. Nas cidades h as casas - mas em campo aberto, como aqui?..."
        Olhou em redor. A estrada corria pela encosta dum morro, com o barranco vermelho dum lado e uma grota do outro, no fundo da qual deslizava um ribeiro entre 
pedras. Emlia viu no barranco muitos buracos de razes, e pensou: "Foi bom que o Visconde me explicasse a origem desses buracos. Muita gente pensa que so buracos 
de cobra ou outros bichos, mas no so. So "buracos de razes". Quando os homens abrem as estradas, os enxades dos cavoucadores cortam muitas razes dentro da 
terra. Essas razes cortadas vo apodrecendo e afinal se desfazem em p de madeira podre, deixando na terra o molde vazio. Os buracos que estou vendo so, portanto, 
buracos de raiz, e no buracos de bichos. O perigo  o buraco de bicho, porque todos tm dono. Que donos? Os bichos que abriram esses buracos. Mas buraco de raiz 
no tem dono, porque a dona deles era a raiz e a raiz apodreceu e foi-se embora reduzida a p de pau podre. Logo, apesar de redondo  tambm um buraco "acontecido" 
como os vos de tijolo ou de cacos de telha.
        -  Juquinha - disse ela - a chuva vem mesmo. E quando a chuva vier, esta praia virar um Amazonas que nos levar na correnteza.
        -  Que bom! - exclamou o bobinho. - Podemos pescar pirarucu.
        Emlia teve d. Que falta de juzo! Pescar!... Um algodo pescando!... E disse que os pescados seriam eles.
        - As chuvas formam ribeires nas estradas, esses ribeires correm para os rios, os rios correm para o mar, o mar corre para   as nuvens - e as nuvens "correm 
de novo por aqui"
        Juquinha deu uma risada de ignorante.
        -  Rio correndo para o mar eu entendo, mas mar correndo para as nuvens nunca vi.
        -  So modos de falar, Juquinha. Se voc lesse o poeta Castro Alves, compreenderia. Realmente, o mar no corre para as nuvens; mas a gua do mar evapora-se 
e sobe ao cu, onde forma as nuvens, e depois essas nuvens viram chuva e a gua da chuva corre de novo pelas estradas. Entendeu?
        Nesse momento um trovo trovejou e logo em seguida sobreveio um forte p-de-vento. Emlia mal teve tempo de abraar-se axuma folha de capim; Juquinha lerdeou 
- e foi arrastado para longe. Emlia ergueu os olhos para o barranco. O algodo da Candoca tinha se soltado do gancho e l ia pelos ares, que nem paina! "Aposto 
que est chorando e chamando a mame..."
        Emlia examinou o barranco. A certa altura viu um buraco de raiz muito jeitoso. Era fcil subir at l, mesmo com o algodo. Esqueceu o Juquinha, esqueceu 
a Candoca e tratou de subir, porque o momento era dos tais do "salve-se quem puder".
        A chuva vinha vindo. O verde do morro l adiante embaciou-se como os vidros da janela que Pedrinho bafejava para depois escrever com o dedo. Vinha vindo 
chuva de verdade' Emlia subiu, agarrando-se no que pde. O buraco de raiz tinha quatro vezes a sua altura. Entrou.
        Que azar! Era um buraco j ocupado por algum: uma enormssima e peludssima aranha caranguejeira! O coraozinho de Emlia bateu. Ficou como o Garimpeiro 
do Rio das Garas quando se viu entre a Ona e o Jacar. Mas pensou depressa. "Entre a aranha e a chuva, antes a aranha. Chuva  mil vezes pior, porque chuva no 
tem remdio e com aranha muita coisa pode acontecer. Ela pode no desconfiar do meu algodo. Pode estar dormindo. Pode at ter d de mim. As aranhas so 'enganveis' 
- mas quem engana chuva? E Emlia ficou imvel de cabea enterrada no algodo, espiando por entre as fibras. Como fosse um buraco muito escuro, ela mal percebia 
o vulto da aranha. S depois que seus olhos se acostumaram as trevas  que pde distinguir o ferro vermelho.
        A aranha no fazia o menor movimento. Estava como a Cuca do Saci, parada - vivendo. Esses bichos gostam de viver, de ficar vivendo, s, sem mais nada. No 
era das de teia. Era aranha de toca.
        A chuva chegou - chu... Tudo escureceu. Emlia j no enxergava o vermelho do ferro. S via negrores. Sua cabea ficava a um tero da altura da aranha 
e num movimento que ela fez para ajeitar-se melhor, tocou num plo daquelas pernas. Emlia lembrou-se do caso de Dona Benta, quando se sentou no dedo do Pssaro 
Roca pensando que era raiz de rvore. O plo da aranha parecia um espinho de cacto.
        A chuva l fora era um chu sem fim.
        Aquele barulho de chuva, sempre o mesmo, comeou a dar-lhe sono. Seus olhinhos se fecharam - e Emlia viu-se outra vez no Stio do Picapau Amarelo. Estavam 
todos na varanda, do mesmo tamanho antigo, a comer pipocas. De repente, a cara do Manchinha apareceu na escada. "Parece o gato Flix, vov" - disse Narizinho - mas 
logo arregalou os olhos, como louca, porque o gato foi crescendo, crescendo, at ficar maior do que a casa. E da por diante o sono de Emlia virou pesadelo.
         
        Quando acordou, o aguaceiro j havia passado. Uma nesga de azul apareceu no cu e logo veio o sol. O ferro vermelho da aranha estava agora bem visvel. 
Vermelho de tomate. A aranha fez um movimento para sair. Emlia encolheu-se toda quietinha. A aranha moveu uma perna, depois outra, e foi saindo. Na entrada do buraco 
parou e esteve muito tempo quentando sol. "Ser que vai ficar ali toda a vida?" No, no ficou. Depois de aquecer-se ao sol, saiu, subiu pelo barranco. Ia caar 
no mato, l em cima.
              1
     XII
     
     O gigante de cartola
     
        Emlia foi para a entrada do buraco. A estrada vermelha parecia mover-se, de tantas guas que escorriam. Todos os galhos pingavam. O mundo parecia polvilhado 
de mica em p - de tantos brilhos.
        - Onde andaro o Juquinha e a Candoca? - pensou ela. - Mortssimos, com certeza, afogadssimos. Bobos como so, de que modo poderiam resistir a uma chuva 
destas?
        Foi descendo pela terra mida. Felizmente, nos barrancos a gua corre depressa, no empoa. Ao chegar perto da prainha preta no viu praia nenhuma. Estava 
coberta de gua vermelha.
        Emlia sentou-se, resignada. "Tenho de esperar pelo que der e vier, como diz tia Nastcia."
        Ficou vendo as ltimas guas vermelhas seguirem seus caminhos de descida. No comeo aquelas guas haviam sido verdadeiros Amazonas; depois foram se tornando 
rios comuns; depois viraram ribeires; e agora estavam reduzidos ,a aginhas. Acabaram-se as correntezas. S ficaram poas e lagos. A areia preta da praia comeou 
a aparecer. Emlia desceu o resto do barranco e pisou naquela areia to linda. Muito mida. Suas botinhas eram capazes de derreter. Emlia no se importou. "Querem 
derreter? Pois derretam. Depois tero o trabalho de secar de novo."
        Uma coisa surgiu l longe. Uma coisa mvel, que vinha andando. Emlia firmou a vista. Um enormssimo espeque de cartola.
        -  Ser o Benedito?
        Era sim. Era o Visconde de Sabugosa! Era o Visconde que vinha vindo - mas que Viscondo, meu Deus! O maior visconde do mundo! Um gigante gigantesco.
        Emlia abriu a boca, num assombro.
        -   isso mesmo! - murmurou consigo. Ele no diminuiu porque "vegetal falante" no  gente. Que bom! Grande assim, o Visconde vai ser a minha salvao.
        O Visconde media exatamente 44 centmetros de altura, contando com a cartola nova, que era de copa alta como a do Presidente Lincoln. Quarenta e quatro vezes 
maior que a Emlia - um verdadeiro arranha-cu de cartola.
        A alegria de Emlia foi imensa. Bateu palmas. Pulou. Danou. E quando se aproximou da Praia Preta deu um berro:
        - Visconde, sou eu! A Emlia!... Mas o Visconde continuou a andar,
        como se no tivesse ouvido. "Ser que ficou surdo ou a minha voz no chega at  imensa altura daquelas orelhas?"
        Devia ser isso e, na maior aflio, Emlia ficou sem saber o que fazer. No achava meio de atrair a ateno do Visconde. "Berrar no adianta. O remdio  
acompanh-lo, at ver." E ps-se a seguir o Visconde.
        Mas o Visconde dava passos de 10 centmetros de comprimento e os passos da Emlia eram de 3 milmetros, de modo que no havia maior asneira do que tentar 
segui-lo. Naquele desespero, porm, Emlia no fez caso da asneira e "fincou o p" na lama, atrs do Visconde. Quantas dificuldades, meu Deus! Havia as grandes lagoas 
que tinha de rodear - as porinhas de gua barrenta formadas nas impresses das ferraduras dos cavalos. E havia os morros e montanhas a trepar - as irregularidades 
do tijuco da estrada. E agora era um grande tronco de rvore ou uma grande pedra - os pedacinhos de pau ou os pedregulhos que h em todas as estradas. Esses tremendos 
obstculos retardavam-lhe horrivelmente a marcha, alm de que suas botinhas molhadas comearam a esfiapar. Diversas vezes parou para amarrar as pontas das fibras 
do algodo. E o Visconde cada vez mais longe, com aquelas passadas gigantescas! "Parece que calou as botas de sete-lguas do Pequeno Polegar!"
        Felizmente o Visconde era um sbio, e os sbios no sabem andar na toada firme e contnua dos ignorantes. O Visconde andava um pouco e parava para observar 
qualquer coisa. Aqui, um coleptero novo que ele via pela primeira vez - e ficava de ccoras examinando o bichinho e tomando notas em seu caderno. Depois, uma pedrinha 
qualquer - ou um "mineral", como ele dizia. Ou era um "efeito de tica" numa teia de aranha. E cada vez que parava, Emlia o alcanava. Mas assim que ela o alcanava, 
ele punha-se de novo a andar, at que nova "curiosidade da natureza" o detivesse. Parecia esses curiangos que ao anoitecer vo voando e pousando nas estradas  frente 
dos viajantes.
        Em certo ponto, uma biquinha nas pedras do barranco o deteve. O Visconde parou naquele ponto para examinar um reflexo na gua. Depois sentou-se. Depois com 
a cabea apoiada numa das mos e os olhos fixos no reflexo. " hora!" - disse Emlia, apressando o passo. "Naquela posio o seu ouvido esquerdo fica ao alcance 
da minha voz.
        Resta que eu chegue antes que ele se erga de novo."
        Emlia caminhou firme, aproveitando as prainhas de areia para correr - e afinal alcanou. Estava, porm, to cansada que nos primeiros momentos a voz no 
lhe saiu. Deteve-se diante do cotovelo do Visconde, a arquejar, sem flego.
        O enorme sbio no a percebeu. Estava distrado na contemplao do reflexo.
        Depois de bem descansada, Emlia encheu de ar os pulmes e berrou com a maior fora possvel:
        -  Visconde! Sou eu, a Emlia! Estou aqui embaixo, perto do seu cotovelo.
        O sbio acordou da contemplao cientfica. Pendeu a cabea. Tinha ouvido um som de fala; mas como o seu pensamento estivesse ocupado com outra coisa, no 
percebeu o que a fala tinha dito. Emlia berrou de novo, com mais fora ainda.
        -  Visconde!   Sou   eu   mesma   -   a Emlia!
        O gigante franziu as sobrancelhas.
        -  Emlia? Onde?...
        -  Aqui embaixo, perto do seu cotovelo.
        O Visconde desceu os olhos para o cotovelo, com o rosto iluminado pela curiosidade.
        -  Estou ouvindo uma voz mas no vejo nada. Perto do meu cotovelo s h um chumacinho de algodo.
        -  Pois esse algodo sou eu - estou dentro.  a minha defesa. Pegue-me e levante-me.
        O Visconde ergueu o algodo - e com algum esforo distinguiu no chumao uma cabecinha do tamanho duma cabea de sava e dois pezinhos embaixo, do tamanho 
de cabeas de alfinetes.
        
        
        
     XIII
     
     Revelaes
     
        O sol estava quente. Emlia, afogueada pelo exerccio no pde mais com o
        calor do algodo. Despiu-se e ficou nuazinha na palma da mo do Visconde, s de botas. Ele ergueu-a  altura do nariz e disse:
        -  Pode   falar.   Conte   tudo   o   que houve.
        Emlia contou tudo - a sua viagem  Casa das Chaves, a puxada para baixo da Chave do Tamanho e o "apequena-mento".
        O Visconde horrorizou-se.
        -  Ser possvel? Ento foi voc, Emlia,  a  causadora do  tremendo  desastre que vitimou a "humanidade clssica?"
        -  Fui eu, sim, mas no foi por querer. Eu queria apenas descobrir a Chave da Guerra, s isso.  Mas as chaves no tinham letreiro. Resolvi ento ir mexendo 
em todas at acertar. A primeira que peguei era a Chave do Tamanho - quem primeiro ficou sem tamanho fui eu.  E como  perdi o  tamanho,  no  pude  erguer de novo 
aquela chave - e pronto.
        O Visconde no voltava a si do assombro.
        -   espantoso o que voc fez, Emlia! Isso j no  reinao. Isso  catstrofe! Pelo que observei l no stio estou imaginando o que se deu no mundo inteiro 
- e agora eu ia indo  cidade para assuntar, para ver se o apequenamento alcanou todas as criaturas.
        -  J estive l e vi - volveu Emlia. - Alcanou sim.  O tamanho de todas as gentes levou a breca. Quem manda agora nas cidades so as galinhas, os passarinhos 
e os gatos - e contou a histria do pinto sura. Se no fosse aquele malvado, eu estava muito bem l no stio. Ele  que me atrapalhou.
        -  Pois o que voc fez passa de todas as contas, Emlia! Se os homens souberem, no perdoam. Agarram-na e assam-na viva na maior das fogueiras. Incrvel! 
Destruir o tamanho das criaturas!... Sabe que isso corresponde a destruir toda a civilizao humana? Desde que o mundo  mundo, os homens, com as maiores dificuldades, 
foram construindo essa civilizao feita de casas, mquinas, estradas, veculos, idias. Tudo estava em relao com o tamanho natural dos homens. Mas agora com a 
reduo do tamanho, nada mais serve e, portanto, o que voc fez, Emlia, foi destruir a civilizao! Des-tru-ir a ci-vi-li-za-o!... Do tamanhinho que os homens 
ficaram, eles tm de criar outra civilizao muito diferente - isso na hiptese de subsistirem. O Visconde gostava muito da palavra "subsistir".
        -  Pois podem subsistir muito bem - resolveu Emlia. - Eu estou subsistindo perfeitamente. J escapei de vrios perigos - duma "paquinha" feroz, do Manchinha, 
da aranha caranguejeira, do beija-flor, do vento, da tempestade - e posso ir escapando de mil outros. Juro que vou subsistir. Apliquei em meu corpo este mimetismo 
do algodo e pronto.
        -  Mas, Emlia, lembre-se que voc  voc e os outros so os outros. Quantos homens j no pereceram? S os que no puderam   sair   de   dentro   das   
roupas, quantos e quantos, Emlia!... E os milhes de soldados em guerra l na Rssia em pleno inverno, que ter acontecido com eles?
        -  Ah, esses viraram picol - juro!...
        -  E no se horroriza com' isso? Ainda caoa?
        -  Por que horrorizar-me? Eles no estavam se matando uns aos outros? Eu at lhes poupei o horrvel trabalho da matana a tiros de canho.
        -  E pelas cidades e roas do mundo inteiro! Quando imagino o que deve ter acontecido  nas  cidades  e  nos  campos, meus cabelos ficam de p.- E agora venho 
a saber que a causadora de tudo foi voc, a Emlia - a Emilinha l do stio de Dona  Benta!...   Evidentemente voc se excedeu, Emlia.
        O Visconde estava to tonto com os acontecimentos, e ficou to bravo com ela, que Emlia danou e sustentou o que havia feito.
        -  Pois acabei com o Tamanho e fiz muito bem! - disse ela. - Para que esse trambolho do Tamanho? No h tantos e tantos milhes de seres que vivem sem tamanho? 
Tamanho  atraso. Quer uma coisa mais atrasada que um brontossauro ou mastodonte? To atrasados que levaram a breca, no agentaram a "glaciao", como o Walt Disney 
mostrou na Fantasia. Compare a estupidez desses monstros tamanhudos com a leveza inteligente duma abelha ou formiga - e por isso os brontossauros e mastodontes s 
existem hoje nos museus, enquanto as abelhas e as formigas andam por toda parte aos bilhes. Eu acabei com o Tamanho entre os homens e fiz muito bem. Um dia a humanidade 
nova me h de agradecer o presente, depois que a raa nova dos "homitos" se adaptar. O Visconde suspirou.
        -  Adaptar-se! Voc usa das palavras da cincia mas no sabe. Repete-as como papagaio. Isso de adaptao  certo, mas  coisa de milhares de milhes de anos, 
Emlia. Pensa ento que do dia para a noite  essa  enorme populao  humana, que voc apequenou e est nos maiores apuros,   vai   ter   tempo   de   adaptar-se? 
Morre tudo antes disso, como peixe fora d'gua - e adeus Homo sapiens!
         -  Homo sapiens duma figa! Morrem muitos, bem sei. Morrem milhes, mas basta que fique um casal de Ado e Eva para que tudo recomece.  O mundo j andava 
muito cheio de gente. A verdadeira causa das guerras  estava nisso - gente demais, como Dona Benta vivia dizendo. O que eu fiz foi uma limpeza. Aliviei o mundo. 
A vida agora vai comear de novo - e muito mais  interessante. Acabaram-se os canhes, e tanques, e plvora, e bombas incendirias. Vamos ter coisas muito superiores 
- besouros para voar, tropas de formiga para o transporte de cargas, o problema da alimentao resolvido, porque com uma isca de qualquer  coisa um  estmago  se 
enche,   et coetera e tal.
        -  Mas...
        O Visconde, como bom sbio que era, engasgou e comeou a achar razozinha nas idias da Emlia.
        -  Pense bem, Visconde. A tal "civilizao clssica" estava chegando ao fim. Os homens no viam outra soluo alm da guerra - isto , matar, matar, matar, 
destruir todas as coisas criadas pela prpria civilizao - as cidades, as fbricas, os navios, tudo.  Pense bem, Visconde. Essa tal civilizao havia falhado. Havia 
enveredado por um beco sem sada - e a sada que achava qual era? Suicidar-se a tiros de canho. Ora bolas! Eu at me admiro de ver um sbio com um cartolo desse 
tamanho defender um mundo de ditadores, cada qual pior que o outro.
        O Visconde comeava a concordar.
        -  Alm disso - continuou Emlia - se os homens querem regressar  tal besteira do tamanho, nada mais fcil. Sua alma, sua palma.
        -  Como?
        -  Muito   simples.   Poderei   voltar    Casa das Chaves. Eu sei o jeito. Iremos juntos. Como no tenho fora para levantar a chave, o Visconde a levanta 
e pronto - tudo fica outra vez tamanhudo - e que se fomentem - que se matem  vontade - que se devorem. Eu me desinteresso. Quis o bem da humanidade. Acabei com 
a estupidez maior de todas, que era o Tamanho. Mas no querem? No esto contentes? Teimam em continuar na vida  de  mastodontes  bpedes?  Pois sua alma, seu palmito! 
Que volte o Tamanho. Mas depois no venham se queixar para mim...
        O Visconde estava pensando. Sim, Emlia tinha razo. Eles podiam fazer uma consulta aos homenzinhos. Se quisessem voltar ao tamanho antigo, muito que bem: 
Se no quisesse, melhor. L no fundo do corao o Visconde preferia que as coisas ficassem como estavam, porque ele passara a gigante, em vez de continuar um simples 
sabugo. E Emlia realmente tinha razo. Os insetos so os seres mais aperfeioados que existem e no tm tamanho. Ora, com a sua inteligncia os homens pequeninhos 
poderiam dominar os insetos, utilizar-se de milhares deles para mil coisas e construir uma nova civilizao muitssimo mais interessante que a velha. E resolveu:
        -  Pois bem, Emlia, faremos uma consulta aos povos do Picapau Amarelo. Se a maioria quiser a volta do Tamanho, iremos juntos at  tal Casa e recolocarei 
a chave na posio em que voc a encontrou. E se a maioria quiser esta Ordem Nova, ento que fique tudo como est.
        -  Pois ! - concordou Emlia. - O remdio agora  um 'bom "ch de plebiscito". Mas por causa das dvidas, Visconde, no conte a ningum que fui eu a bulidora 
da chave. Ningum precisa saber - nem Dona Benta, nem Narizinho. Jura que no conta?
        -  Est claro que juro. Se eu contasse, voc estaria perdida...
        Acertados aqueles pontos, Emlia desfiou a histria do Major Apolinrio, Dona Nonoca e tia Febrnia e de como ela se havia tornado a tutora dos dois rfos.
        -  O vento levou pelos ares a Candoca, e o Juquinha com certeza afogou-se no enxurro. Mas, para sossegar a nossa conscincia, podemos procur-los.
        Depois resolveram diversos pontos da vida nova.
        -  Eu viajarei muito bem dentro da sua cartola, Visconde. Basta que me abra ali uma janelinha.
        O Visconde aprovou a idia. Deps Emlia no cho, tirou da cabea  cartola e com o corte duma lasca de quartzo abriu no papelo da cartola uma janelinha 
de 3 por 3 milmetros.
        -  Maior, Visconde. Faa uma janelinha de 3 por 9.
        -  Por qu?
        -  Porque se encontrarmos o Juquinha e a Candoca, eles tero de seguir comigo aqui dentro - e tambm precisam de janela.
        O Visconde abriu um janelo de 3 por 10. - Antes maior do que menor. Assim ningum brigar em cima da minha cabea por falta de espao vital...
        
        
        
        
     
     XIV
     
     A caminho do Picapau Amarelo
     
        Emlia no se contentou com a janelinha aberta na cartola do Visconde. Exigiu mais.
        -  Quero uma porta da rua e uma escadinha que v da aba at essa porta. E tambm um    assoalho, porque no hei de ficar pisando na sua cabea.
        O Visconde suspirou. Emlia continuava a mandona de sempre. Queria e acabou-se. Olhando em redor, em procura de materiais de construo, o obediente Visconde 
viu uma casca de laranja. Apanhou-a e com a lasquinha de quartzo recortou uma rodela do tamanho dum nquel grande que ajustou dentro da cartola. Era o assoalho. 
Em seguida fez uma escadinha de sete degraus, que ia da aba da cartola at a porta da rua. Emlia ainda exigiu um corrimo na escada e uma cerca em redor da aba.
        O Visconde construiu uma cerca de dois fios, com moires de espinho.
        -  S? - perguntou ao concluir o trabalho.
        -  Ainda no - respondeu Emlia. - Quero uma escadinha de corda que desa da aba at  terra, como as usadas nos navios e tambm uma campainha.
        -  Campanhia, como?
        -  Basta um fio amarrado a uma das palhas da sua barba.  Quando  houver preciso dum chamado urgente, puxo o fio e pronto.
        -  No vejo necessidade de semelhante coisa, arrenegou o Visconde. Quando quiser falar comigo, basta chegar a janela e gritar. A janela  pertinho do meu 
ouvido.
        Emlia deu uma risada.
        -  O Visconde no se conhece. Os sbios so as criaturas mais distradas do mundo. Quando o Visconde est ruminando  uma  idia  qualquer,  no  ouve nem 
tiro de canho, quanto mais um chamadinho meu. Com o fio preso  barba, a coisa muda. Dou um puxo. A dor "acorda" o Visconde.
        Tudo foi feito como ela quis, e depois de instalada l dentro Emlia ainda reclamou uma chamin - por causa da ventilao. O Visconde teve de espetar em 
cima da cartola um canudinho de capim.
        Muito bem. Podiam continuar a viagem. Para onde? O Visconde sara do stio para "assuntar", isto , ver se todas as criaturas humanas estavam diminudas, 
ou se a reduo se dera apenas em casa de Dona Benta. Mas o encontro com Emlia tornava intil a ida  cidade. Todas as criaturas estavam reduzidas, sim, e a autora 
da grande transformao era a isca de gente que se acomodara em sua cartola!
        -  Creio que podemos voltar - disse ele. - Minha ida  cidade j no tem razo de ser.
        -  Sim - concordou Emlia - mas s depois de procurarmos os meus rfos. Acho impossvel que eles tenham escapado da chuva - mas quem sabe? Temos de procur-los.
        -  Onde foi que se perderam?
        -  A Candoca estava justamente  naquele capim quando o vento a levou - respondeu Emlia l da sua janela, indicando um lugar no barranco. E o Juquinha estava 
comigo na Praia Preta.
        -  Que Praia Preta  essa?
        Emlia explicou tudo, e o Visconde ps-se a andar em procura de coisinhas brancas, porque aparentemente os dois rfos no passavam de dois fiapos de algodo.
        Nada encontrou. Sobre a estrada vermelha no viu brancurinha de espcie alguma.
        Emlia ia pensando em toda as hipteses imaginveis. O certo era estarem mortos, reduzidos a lama ou afogados nas lagoas que a chuva formara no tijuco. Isso 
era o certo. Mas havia o incerto - e era no incerto que Emlia levantava as suas hipteses.
        -  Podem muito bem estar em outro ninho. Os beija-flores andam agora com a mania de ovo e a apanhar quanta paina ou algodo encontram. O Visconde ps-se 
 caminhar com os olhos no barranco em procura de ninhos de beija-flor. Deu com um; subiu e espiou dentro; nada de chumaos, s viu dois ovinhos - e por ordem da 
Emlia furtou um para o abastecimento da cartola.  Mais adiante encontrou outro - e nesse estavam os dois chumaos.
        -  Viva!  Viva!  - gritou Emlia,  batendo palmas. - Bem diz o ditado que quem procura acha.
        O Visconde tomou na ponta dos dedos os dois algodes e largou-os em cima da aba.
        -  Subam pela escadinha - disse Emlia da janela - e os dois rfos subiram e entraram.
        Emlia mostrou-lhes a casa nova e explicou quem era o "Colosso de Rodes" em cuja cabea iam morar. Juquinha ficou radiante. Foi para a janela e comeou a 
fazer planos. "Podemos pegar um besouro e amarr-lo a um dos moires da cerca. Enquanto eu no voar eu no sossego." A Candoca havia entrado com um bico de choro, 
mas no chorou. Por que chorar, se estava bem abrigada naquela casinha de porta, janela e ovo?
        Por ordem da Emlia, Juquinha abriu com a lana um furo na casca do ovo. "E deixe o espinho a. Quem tiver fome, que d uma fisgada na gema e regale-se."
        -  Bem, disse l fora a voz do Visconde - que soava para eles como voz vinda da rua. - Creio que posso voltar para o stio.
        Emlia correu a debruar-se  janela.
        -  Sim, podemos ir - e v contando como foi a tragdia l em casa.
        O Visconde ps-se em marcha, com aquelas suas gigantescas passadas de meio palmo cada uma, e foi contando.
        -  Eu estava no laboratrio, ocupado em fabricar mais superp, porque algum ladro havia furtado a minha reserva. De  repente   Pedrinho  entrou   e   disse: 
"Visconde, a Emlia desapareceu e vov est inquieta." Eu respondi que minha caixa  de  superp  tambm  havia  desaparecido.  Pedrinho iluminou a cara e exclamou: 
"Hum!  Estou entendendo!" Eu estava com os olhos fixos em Pedrinho quando, exatamente nesse instante, isto , no instante em que ele acabou de pronunciar a palavra 
"entendendo" a sua cabea desapareceu, e sua roupa caiu em monte no assoalho, como se no tivesse corpo dentro. Fiquei impressionadssima Era um fenmeno acima de 
qualquer compreenso. Olhei para o monte, com os olhos arregalados. Que seria aquilo? Que fim levaria o menino? Tudo mistrio. Sentei-me ento diante do monte de* 
roupa   e   fiquei   a   parafusar   hipteses. Mas por mais que parafusasse hipteses no achava nenhuma que servisse. Aquilo me pareceu o mistrio dos mistrios.
        Emlia,   l   da  janelinha,   regalava-se com a histria. O Visconde continuou:
        -  Eu positivamente no entendia nada. Cheguei a supor que fosse um sonho. Nisto dei com uma cabea, do tamanho duma pimenta-do-reino,  que  ia  saindo pela 
perna da cala cada no cho. Evidentemente uma cabecinha de inseto. Depois saiu um pescoo - e ombros, braos, tronco, pernas - e tive a impresso dum inseto descascado 
totalmente desconhecido da cincia. Corri em procura do meu vidro de aumento. Aquele inseto era o assombro dos assombros, porque todos os insetos tm seis pernas 
e nele eu s via duas - e alm disso ficava de p, como os bpedes, coisa que inseto no faz. O laboratrio estava meio no escuro. Fui abrir a janela. Assestei de 
novo o vidro de aumento e ento vi que era um menino em miniatura. E afinal o reconheci: Pedrinho em pessoa, mas sem tamanho!
        - De que tamanho ele ficou?
        -  Voc ver quando chegar. Mas meu espanto no teve limites. A cincia no explicava o prodigioso fenmeno. Notei que Pedrinho havia perdido a fala. S 
minutos depois conseguiu falar, murmurando numa vozinha de mosquito: "Que foi que aconteceu? Tudo est to diferente e grande..." Custou a convencer-se de que nada 
estava grande, ele  que diminura.
        -  Tal qual a gente do Major Apolinrio - disse Emlia. Imaginavam que as coisas  que haviam aumentado - e eu at fiquei atrapalhada para provar o contrrio.
        O Visconde continuou:
        -  Pedrinho estava completamente bobo, o que era natural, pois uma transformao   daquela   ordem   desorganiza   as idias duma criatura. No h quem resista.
        -  Eu resisti! - berrou Emlia.
        -  Sim, mas voc  voc - uma criatura sui-generis. - O Visconde gostava muito de aplicar esse latim ao acaso da Emlia.
        -  E depois?
        -  Depois levei Pedrinho na palma da mo para mostr-lo a Dona Benta. Chegando  sala de jantar, no vi ningum. S vi montes de roupa no cho - e reconheci 
essas roupas. Um dos montes era feito daquele vestido de fusto amarelo com pintas verdes que voc conhece - o vestido com que Dona Benta se levantara naquele dia. 
Perto desse monte vi outro, no qual reconheci a roupa de tia Nastcia. E num monte menor reconheci o vestido de listras brancas e pretas de Narizinho. Fui assaltado 
por uma idia. "Querem ver que tambm a eles aconteceu a mesma coisa?" E para verificar sacudi o vestido da menina. Sabe o que aconteceu? Pela manga rolou outro 
in-
        seto descascado, ela - Narizinho em pessoa, e to reduzida de tamanho quanto Pedrinho!... E eu ia sacudir os outros montes de roupa, quando dei com uma i 
preta: tia Nastcia! E depois, outro inseto branco: Dona Benta! Ambas haviam conseguido sair de dentro das roupas.
        -  Que graa!
        -  O que houve ento, nem queira saber! Ningum entendia nada. Tia Nastcia amontoava pelos-sinais um em cima de outro e era s "Credo!" e mais "Credo!" 
Dona Benta e Narizinho abraavam-se muito agarradas, como mes e filhas durante os naufrgios no mar. Que cena, meu Deus!
        -  E todos nus?
        -  Sim, todos nus - respondeu o Visconde.
        -  E no tinham vergonha?
        -  Parece que  no.   Nem  percebiam que estavam nus.
        -  Ento  exatamente como pensei. Isso de vergonha do corpo  questo de tamanho. E depois?
        -  Depois deitei-me no assoalho para melhor conversar com eles, e no teve fim o que dissemos. Cada qual admitia uma hiptese. Narizinho foi a primeira a 
achar possvel ter acontecido a mesma coisa a toda a humanidade. Essa idia me impressionou. "Preciso verificar esse ponto", disse eu - e da me veio a idia de 
chegar at a vila.
        -  Teve ento a coragem de deix-los l sozinhos? - perguntou Emlia indignada.
        -  Era preciso - mas tomei todas as precaues.
        -  Que precaues?
        -  Coloquei-os em cima da cmoda do quarto de Dona Benta, com umas comidinhas para irem se distraindo.
        -  Que comidinhas, Visconde?
        -  Acar e farelo de po. E gua.
        -  Em que vasilha botou a gua?
        -  Numa tampinha de garrafa de cerveja. E sa. Fui ao pasto, em procura do Conselheiro. "Olhe", disse-lhe eu, "passou-se l na casa uma coisa tremendamente 
misteriosa e absurda: todos ficaram pequenininhos como insetos." O Burro Falante arregalou uns olhos deste tamanho. Depois riu-se, pensando que fosse brincadeira 
minha. " verdade, sim, Conselheiro. Bem sabe que no brinco" - e como ele tambm no brinca, deu crdito s minhas palavras, e derrubou o beio. Contei-lhe ento 
que ia sair - que ia chegar at  cidade para ver se o fenmeno pegara todas as criaturas humanas. "E, portanto, faa-me o favor de ficar no terreiro, perto da varanda, 
e no deixe que nenhum gato ou ave se aproxime. Eles esto sobre a cmoda do quarto de Dona Benta." Fiz essa recomendao e finquei o, p na estrada.
        -  No avisou tambm ao Quindim?
        -  Ele andava longe. Pedi ao Conselheiro que o avisasse.
        Juquinha j lera nos livros a histria do rinoceronte do Picapau Amarelo, de modo que ao ouvir falar em Quindim assanhou-se. Seu sonho sempre fora dar um 
passeio montado no tremendo paquiderme. "Isso era bom antigamente", explicou Emlia, "quando ramos grandes. Agora, deste tamanhinho, um rinoceronte est para ns 
como o Himalaia est para o Coronel Teodorico. Andar montado nele j no nos dar sensao nenhuma - a gente nem percebe os seus movimentos." Juquinha no quis acreditar. 
", sim" - afirmou Emlia. - "Tal qual a Terra. Este nosso planeta rola no espao com uma velocidade incrvel sem que ns percebamos coisa nenhuma. Por qu? Porque 
somos pequeninos demais em relao  Terra." Juquinha suspirou.
       
       
        
     XV 
     
     O Coronel Teodorico
     
        Depois de caminhar por uma hora pela estrada deserta de passantes, o Visconde avistou a fazenda do Coronel Teodorico.
        
        
        Bois e burros andavam soltos pelas roas, comendo  farta. No havia ningum para espant-los.
        -  Quero portar uns minutos naquela casa, Visconde! - berrou Emlia l da sua janelinha.
        O Visconde, que estava remoendo uma idia, no ouviu. Emlia recorreu  "campainha". Com um forte puxo na corda, fez que a dor da barba acordasse o distrado 
gigante.
        -  Que h l em cima? - perguntou ele.
        Emlia repetiu a ordem de portar no imensssimo casaro branco que dali avistavam e Juquinha no queria crer que fosse uma simples casa velha de fazenda. 
Apesar de transformado no maior gigante do mundo, o Visconde, pela fora do hbito, obedecia  Emlia do mesmo modo que antigamente. E ela agora se tornara o seu 
verdadeiro crebro, a manobradora da sua vontade. Parecia incrvel que aquele piolinho de gente, l dentro da cartola, o conduzia para onde queria.
        Ao entrarem no terreiro da fazenda ouviram mugidos tristes de vaca faminta. O Visconde encaminhou-se para o est-bulo. A vaca de leite do Coronel, irm da 
Mocha de Dona Benta, estava presa na baia, sem capim nenhum no cocho. Perto, o seu bezerrinho chorava de fome.
        -  Pobre animal! - murmurou o Visconde. - Ficou preso e morrer de fome se eu o no acudir. Quantos viventes pelo mundo inteiro no se acham na mesma situao!
        Abriu a tranca da baia e escondeu-se, para no ser devorado de passagem pela irm da Mocha que l se foi muito lampeira. Ele era o maior gigante que jamais 
houve entre os homens, era a nica esperana de salvao da humanidade - mas tambm era sabugo e as vacas "adoram" os sabugos de milho. Depois soltou o bezerrinho.
        Emlia fez consideraes sobre a antiga maldade dos homens que prendiam os bezerrinhos para roubar o leite de suas mes vacas. "Quero ver se agora continuam 
a fazer tamanha judiao."
        A casa do Coronel estava com as portas escancaradas. Fora invadida por meia dzia de leites, que se regalavam na cozinha  na despensa. Por precauo o 
Visconde trepou a uma cadeira e desta subiu  mesa da sala de jantar ainda com os pratos do almoo da vspera. Olhou em torno.
        - No escuto cheiro de nada - disse ele. - Parece que os leites devoraram todos os moradores.
        Mas nesse instante uma vozinha lhe chamou a ateno.
        -  Estou aqui, estou aqui!
        -  Aqui onde?
        -  Aqui nesta horrvel caverna.
        Olhando na direo do som, o Visconde pde ver, numa frincha do carunchado rodap da sala, uma espcie de caroo de ervilha. Era a cabea do Coronel Teodorico, 
dono da Fazenda do Barro Branco.
        -  Estou escondido aqui - continuou a vozinha - por causa dos hipoptamos que invadiram a casa depois que tudo ficou enorme. Eles j devoraram a Quinota 
e a tia Ambrosia. Escapei porque me escondi a tempo nesta caverna que at ontem nunca existiu. Pela cartola e as barbas de palha de milho estou reconhecendo o viscondinho 
l do stio de Dona Benta, mas enormemente grande, como tudo mais. No entendo coisa nenhuma. O mundo cresceu dum modo incrvel. Ser que estou sonhando?
        O Visconde examinou a situao. Para salvar o Coronel, teria de descer da mesa, coisa perigosa numa casa invadida de leites. Que fazer? O Visconde no era 
criatura de grandes expedientes. Atrapalhava-se com pouco. Felizmente tinha Emlia na cabea.
        -  Visconde - gritou ela - estou vendo uma corda sobre a mesa. Lance-a ao Coronel.
        O Visconde olhou e viu sobre a mesa um comprido barbante. Para jog-lo at  "caverna", teria de atar um peso na ponta. Que peso?
        -  Essa colherona a - lembrou Emlia.
        Era uma colherzinha de caf das menores. O Visconde atou-a  ponta do barbante e jogou-a.
        -  Agarre-se nisso, Coronel!
        O Coronel, com muito medo e a olhar para todos os lados, saiu da caverna e agarrou-se  colherinha. O Visconde foi puxando o barbante.
        -  Uf... exclamou o Coronel ao ver-se em cima da mesa e livre dos leites. O Visconde colocou-o sentadinho na palma da mo.
        -  Como tenho padecido! - suspirou o pobre inseto descascado. - Durante todo o tempo, l naquela horrvel caverna, um monstro com forma de barata esteve 
me cutucando com as pontas de duas varas de bambus - e fui obrigado a suportar tudo, de medo de ser comido pelos hipoptamos.
        Uma risadinha soou na cartola do Visconde. O Coronel ergueu os olhos, espantado.
        -  No eram varas de bambu, bobo! - gritou Emlia da janela. - Eram antenas. E o monstro no tinha "forma de barata", porque era uma barata em pessoa.
        -  Quem est falando? - perguntou o Coronel. - Essa voz no me  desconhecida.
        -  Claro que no  - respondeu Emlia, saindo da cartola e vindo debruar-se na cerca da aba. - Sou a Emlia l do stio de sua comadre Dona Benta.
        O Coronel ficou assombrado.
        -  Estou a reconhec-la, sim. E a comadre como vai? As coisas por l tambm cresceram?
        -  Tudo est no mesmo; as pessoas  que diminuram.
        Para facilitar a conversa, o Visconde tirou a cartola e depositou-a na mesa, onde tambm largou o Coronel.
        -  Moro aqui agora - explicou Emlia. - Este  o meu stio. No o fao entrar  porque  um  homenzarro  como  o senhor no passa pela nossa porta.
        -  Quem so esses meninos a na janela?
        Emlia mandou que os meninos se recolhessem. No podiam ouvir a conversa.
        -  So dois rfos que estou criando, filhos do falecido Major Apolinrio - explicou em seguida, baixando a voz.
        -  Falecido? Pois ento o Apolinrio morreu? - murmurou o Coronel, empalidecendo.
        -  Era to amigo dele assim?
        O Coronel engasgou na resposta. Depois disse.
        -  Amigo, propriamente, no, porque o Apolinrio era perrepista e eu sempre fui democrtico. Mas aquele homem devia 15 contos  minha sogra. Se morreu e 
s deixou esses rfos, quem paga essa dvida?
        -  No h mais dvidas, Coronel. Nem h mais dinheiro, nem nada do mundo grande. Agora  tudo ali no pequenino; a vida dos homens vai ser a mesma dos insetos.
        -  Pequinino?  -  repetiu  o  Coronel sem entender. - Acho que se deu justamente o contrrio:  tudo ficou enorme. Esta mesa onde tantas vezes me sentei e 
mal dava para oito pessoas, parece agora mesa de batalho. Tudo se tornou monstruosamente grande.
        -  Estou vendo o contrrio, Coronel. Tudo est do mesmo tamanho de sempre. Ns, criaturas humanas,  que diminumos. Isso que o senhor supe ser um bando 
de hipoptamos, no passa de leites da sua fazenda. A caverna em que o senhor estava escondido  uma simples fresta do rodap podre da sua sala. Os 15  contos  
de sua sogra  foram-se.   No pense mais neles. Na vida nova no existe dinheiro.
        O Coronel vivia de dar dinheiro a juros, e aquele 15 contos da sogra no eram da sogra, sim dele mesmo; por isso empalidecera tanto ao saber da morte do 
devedor. Mesmo pequenininho como estava, a sua maior preocupao era o dinheiro.
        -  Mas como poderemos viver sem dinheiro? - disse ele. - Enquanto houver homens no mundo, haver dinheiro.
        Emlia teve d daquela burrice. Mostrou que o dinheiro era uma das muitas conseqncias do tamanho, como tudo o mais que os homens chamavam civilizao. 
Desaparecendo o tamanho, desaparecia o dinheiro e toda a velha civilizao. Alegou que mesmo no mundo antigo muita gente j vivia sem dinheiro, como, por exemplo, 
o Visconde de Sabugosa, que nunca possuiu um tosto furado. Tambm os insetos viviam perfeitamente sem dinheiro.
        -  Mas ns no somos insetos - protestou o Coronel ainda cheio de orgulho do tempo  em  que  tinha um  metro  e oitenta de altura.
        -  Somos menos que isso, Coronel. Os insetos possuem trs pares de pernas e ns, s um par. E muitos tm asas com que voam e ns em matria de asas s temos 
as asas do nariz, que no voam. E ainda possuem antenas, que so rgos do tacto, algumas delas dotadas de ouvidos - para apalpar e ouvir ao mesmo tempo, coisa aperfeioadssima. 
Aquelas "varas de bambu" com que o monstro, l na "caverna", o cutucava, eram as antenas dum inseto. Ns hoje no passamos de insetos descascados, s con um par 
de pernas, e sem garrinhas nos ps como as formigas.  com essas garrinhas que elas se agarram ao cho e suportam o vento - e sobem pelas paredes.
         Visconde ia aprovando com a cabea, e o Coronel, ignorantssimo como era, admirou-se de que um gigante daquele tamanho aprovasse as "tolices" da Emlia. 
A idia de que ele estivesse diminudo, em vez de todas as coisas terem aumentado, no lhe entrava na cabea.
        -  Se todas as criaturas diminuram - disse ele - como o Visconde ficou to grande?
        -  O Visconde no mudou porque  milho.
        -  Mas ele fala, pensa,  uma perfeita gente...
        -  Sim, e isso  um dos mistrios do mundo.   O  Visconde pensa,  fala e me obedece.   Comporta-se   em   tudo   como gente - mas no come. Logo, no  gente. 
J viu gente que no coma, Coronel?
        -  E voc, Emlia? Se tambm diminuiu, ento  que  gente - mas toda a vida ouvi dizer que era boneca. Como explica o mistrio?
        -  Muito simples. Eu de fato j fui boneca de pano. Mas evolu e virei gente.
        O Coronel no sabia o que era evoluir. Emlia explicou.
        -  Evoluir  passar duma coisa para outra muito diferente. Um gro de milho comea gro de milho; vai evoluindo e vira p de milho, broa de fub ou Visconde 
de Sabugosa. Assim, eu. De simples bruxa de pano, fui evoluindo, virei gentinha e hoje sou o crebro e a vontade do Visconde; moro em sua cabea e dirijo-o do mesmo 
modo que o Tot dirigia o automvel do Major Apolinrio.
        -  Ah, quem me dera ser tambm crebro dum gigante e morar numa casa de cartola! - suspirou o pobre fazendeiro. - Estou sem saber o que pensar. Se tenho, 
como voc diz, de ficar assim pequenino,   sem   dinheiro,  perdido  num mundo de coisas e animais to grandes, mil vezes ser devorado por estes hipoptamos. Isto 
no  vida. E, ainda por cima, nu que nem um ndio. No sei que fim levou a minha roupa. Houve um "desabamento de panos" em cima de mim, e quando   me  livrei   
daquilo,   estava   em plo. Haver coisa mais sem propsito? Se  aparece  uma senhora por aqui, como ?
        -  Pois eu acho o contrrio - tornou Emlia. - Isto  que  vida - a questo  a gente adaptar-se. At j inventei um sistema de camuflagem que deu resultados 
timos. Virei chumao de algodo, de modo que pude andar por toda a parte sem o menor medo de gatos ou passarinhos. Porque hoje. Coronel, um pinto  um milho de 
vezes mais perigoso que um tigre. Os pintos nos tomam por is ou baratas descascadas - e l vem bico e papo. Aqui na sua casa convenci-me de que os leites tambm 
so perigosos. Dos gatos eu j sabia, os tais gatos comedores de baratas, porque com meus prprios olhos vi o Manchinha comer Dona Nonoca, o Major e a tia Febrnia. 
Pois apesar desses perigos novos, estou encantada com a vida pequenina. Para a alimentao, que beleza! Qualquer isca nos enche o estmago. E no  preciso trabalhar 
para ganhar a vida. A vida est sempre ganha. Mas temos de copiar os insetos; temos de aprender com eles mil coisas, como o sistema de morar em buraquinhos e vos. 
Os buracos feitos j vi que so perigosos. Os bons so os "acontecidos". Buraco-de-raiz  timo - nem que tenha carangueijeira dentro -- mais isso s quando estamos 
no chumao. Aranha no liga a algodes.
        O Coronel no entendeu nada daquilo, e no seu desconsolo nem procurava entender. Para qu? O melhor era lanar-se no meio dos hipoptamos e acabar com uma 
vidinha to insignificante. Mesmo assim lembrou-se de que estava com fome.
        -  Parece incrvel - disse ele - que ainda numa situao destas o estmago da gente fale! Tenho vergonha de dizer que estou com fome.
        -  Pois  regalar-se, Coronel - volveu Emlia. - H ovo de beija-flor ali na cartola - mas nem  preciso. O senhor est sobre a maior mesa do mundo. Estas 
comidas do para alimentar um exrcito inteiro. Olhe s para a terrina de feijo.
        O Visconde havia deposto a cartola sobre a mesa e largado o Coronel perto da terrina de feijo. Que enorme terrina! Media trs vezes a altura do Coronel. 
J o prato de arroz era mais acessvel. Erguendo a munheca, o Coronel pescou l em cima dois gros; comeu um e ofereceu outro a Emlia.
        -  Juquinha, quando acabar o seu passeio leve este presente l para o meu stio -  disse   ela  entregando-lhe  o  gro  de arroz.
        O menino e a irm haviam sado da cartola e passeavam por entre os colossais pratos de comida. Diante dum queijo de Minas, Juquinha parou, perguntando que 
roda de carro era aquela. O Visconde explicou e deu-lhe um pedacinho de queijo.
        -  Tambm   quero   queijo   no   meu stio! - gritou Emlia.
        O Visconde cortou um bloco de meio centmetro cbico - grande demais para as foras do Juquinha. Foi necessrio dividi-lo em trs partes para que ele pudesse 
levar tanto queijo para dentro da cartola.
        -  Haver gua por aqui? - indagou o Coronel.
        A moringa estava na mesa, mas nem o Visconde podia, apesar de ser o maior gigante do mundo, com o peso da moringa. Emlia foi  cartola e trouxe um pedao 
de algodo.
        -  Amarre isto na ponta do barbante e pesque gua.
        O Visconde assim fez. Mergulhou o barbante na moringa e puxou-o. O algodo subiu, pesado de gua. Todos beberam com delcia. Juquinha quis levar um pingo 
para o stio, mas no encontrou no que.
        -  E agora? - perguntou o Coronel. - Que vai fazer de mim?
        -  Vou lev-lo  casa de sua comadre Dona Benta. No convm que fique aqui sozinho, no meio destes leites canibalescos.
        -  E como irei?
        -  Na aba do meu stio - lembrou Emlia.
        O Coronel Teodorico acomodou-se na aba da cartola do Visconde, com as pernas de fora e debruado na cerca.
        -  Toca o bonde, Visconde! - gritou Emlia.
        Cuidadosamente, o Visconde botou a cartola na cabea. Espiou se havia algum leito por ali. No vendo nenhum, desceu da mesa e, p ante p, encaminhou-se 
para a porta da rua. De passagem Emlia entreviu o movimento dos leites l na cozinha e ficou apreensiva.
        -  Rabic! Parece que vi Rabic l no bando. E se  realmente ele, juro que foi o comedor de tia Ambrosia e da Quinota...
        
        
     XVI
     
     "O Terror do Lago"
        
        O Visconde, com o "Stio da Emlia" na cabea, marchava muito esticadinho na direo do Picapau Amarelo. Postada  sua janela, entre os dois rfos, a dona 
da propriedade ia contando ao Coronel os seus projetos.
        -  Vou introduzir vrios melhoramentos.  Metade  da  aba  quero  coberta  de musgo, daquele que nasce nos barrancos midos e d umas hastes com uma urnazinha 
na ponta. Na outra metade quero uma horta.
        O Coronel achou que as hortalias eram muito grandes para caberem ali.
        -  Planto fungos, como fazem as savas dentro de seus formigueiros.
        Apesar de eterna vtima das savas em sua fazenda, o Coronel ignorava que as formigas fossem cultivadoras dos fungos com que se alimentam. Quanto aos musgos, 
lembrou que eram plantinhas de sombra.
        -  Pois planto um chapu-de-sapo que lhes d sombra - resolveu Emlia. - E uma orelha-de-pau para sombrear esta janela. Bate muito sol. E outro chapu-de-sapo 
em cima da cartola para que em dias de chuva no pingue gua aqui dentro pelo canudo da ventilao.
        Os projetos do Juquinha eram diferentes. Queria amarrar ali na cerca dois besouros de sela, um para ele, outro para a Candoca, e tambm um gafanhoto verde, 
para o esporte do pulo. A Candoca, que j estava se desembaraando, declarou querer um besouro verde - preto no.
        Quando a loucura da Emlia desembestava no havia lembrana que no lhe acudisse. Falou at duma gaiola de passarinho pendurada  janela.
        -  E onde acha passarinho que caiba nessa gaiola? - perguntou o Coronel.
        H os pernilongos que cantam a msica do fiun. E quero moblia. Trs caminhas, mesa, um cabide para pendurar o nosso algodo. De cadeiras no preciso. Estes 
pedacinhos de queijo servem de bancos. J estou me utilizando de um para sentar-me  janela.
        O Visconde teve de parar no caminho, descobrir musgos e chapu-de-sapo, e besourinhos, e fungos, e deixar a cartola como a dona queria. S ficou faltando 
a gaiola de pernilongo. E foi com aquele "jardim botnico" na cabea que ele chegou ao Picapau Amarelo.
        L estava o fiel Conselheiro montando guarda junto  varanda. A vaca Mocha, com a cabea por cima da cerca, suspirava pela sua habitual rao de milho. Quindim 
ressonava debaixo da figueira. E Rabic? Nada de Rabic por ali.
        -  Eu bem sei por onde anda aquele canibal! - disse Emlia.
        O Visconde entrou. Encaminhou-se para o quarto. Tudo em ordem em cima da cmoda. Dona Benta, sentada numa caixa de fsforos to grande que seus ps no tocavam 
no cho. Perto dela, tia Nastcia escarrapachada. Pedrinho e Narizinho lidavam na amarrao duma rede de retrs entre a cestinha de costura e a caixa de fsforos.
        Emlia estranhou v-los vestidos.  que a cestinha de costura ficava em cima da cmoda, a famosa cestinha de costura de Dona Benta onde no havia o que no 
houvesse - botes, colchetes, alfinetes, agulhas, linhas de vrios nmeros, fios de l de bordar, retroses de seda, um ovo artificial de cerzir meia, a lmina Gillette 
com que Narizinho cortava um clebre calo de Dona Benta, grampos e mais uma dzia de miudezinhas. Aquilo lhes foi da maior vantagem depois da "reduo", quando o 
Visconde os colocou em cima da cmoda. Por um buraco da palha os dois meninos conseguiram entrar na cesta, e l fizeram prodgios. No fio da lmina cortaram os pedaos 
de l de bordar cora que Dona Benta e tia Nastcia se tinham vestido  moda dos casulos - "enleadamente". As duas velhas haviam passado a noite no quente. Os meninos, 
como no fossem friorentos, contentaram-se com tangas de seda - uma franjinha de fios de retrs atada  cintura. Viraram uns perfeitos "ndios de luxo". Depois tiveram 
a idia de tecer uma rede de fios de linha e arm-la entre a cesta e a caixa de fsforos. Estavam nisso quando o Visconde apareceu.
        Ao v-lo surgir no quarto, enorme, com o seu cartolo  Presidente Lincoln transformado em stio, os netos de Dona Benta romperam num berro de selvagens: 
Ale gu, gu, gu! Abati pocanga!
         A gritaria fez que os dois besouros voassem. Que pena!
        O Visconde foi trepando pela escadaria de livros com que antes de sair de l ele havia preparado o acesso  cmoda. No ltimo degrau parou. Suas palhas de 
milho ficavam ao nvel do "assoalho".
        -  Tenho uma grande novidade a contar - disse ele.
        -  J sei, a Emlia apareceu! - gritou Narizinho - e desse modo estragou metade da "surpresa".
        Surpresa, sim. Emlia tinha planejado uma surpresa e para isso escondera-se com os dois rfos dentro da cartola e fizera o Visconde guardar no bolso o Coronel 
Teodorico.
        -  Onde est ela? - gritou Pedrinho. A resposta do Visconde foi tirar da cabea a cartola imensa e deposit-la em cima da cmoda. Os meninos aproximaram-se 
cheios de curiosidade. Aquela janelinha, aquela porta, os sete degraus de casca de laranja, as plantaes, a escada de corda, o fio da campainha que o Visconde teve 
o cuidado de desamarrar da sua barba de palha, os chapus-de-sapo, o canudo l no alto - tudo era o que podia haver de mais imprevisto. E numa ptala de malmequer 
pregada na cartola estava o letreiro: "Stio da Emlia."
        -  Que histria  esta? - exclamou Pedrinho,    intrigado.    Nesse   momento Emlia apareceu  janela e fez Hu!
        Foi um acontecimento. At Dona Benta ergueu-se da sua caixa de fsforos e aproximou-se para ver.
        -  Pois ! - comeou Emlia. - Encontrei o Visconde na estrada e instalei-me em sua cartola. Isto aqui dentro est virando um verdadeiro quarto de badulaques. 
Temos chumaos de algodo, bancos de queijo, um gro de arroz, uma lana - e vamos ter muitas coisas mais.
        -  E essa escadinha de corda?
        -   para descer at ao cho sem incomodar o Visconde. O assoalho  de casca de laranja. Mandei cercar a aba e fiz uma plantao de musgos e fungos alimentcios, 
como os da sava. Os chapus-de-sapo da aba do sombra ao musgo e o do alto impede que a chuva pingue pela chamin.
        Pedrinho e Narizinho pularam a cerca e foram espiar pela janela.
        -   verdade, sim, vov! - gritou Na rizinho. - Tudo como ela diz. E essas crianas? - exclamou, muito admirada, ao ver a Candoca e o irmo, sentadinhos.
        -  Ah, so os meus rfos - e Emlia contou a tragdia do Major Apolinrio e Dona Nonoca, comidos pelo Manchinha. Dona Benta sentiu muito, porque se dava 
com aquela gente. Dias antes havia ido  cidade e tomado caf em casa de Dona Nonoca.
        -  Ento por l foi a mesma coisa que aqui?
         -  A mesmssima, Dona Benta. Todo mundo perdeu o tamanho. Galinhas e passarinhos percorrem as ruas no maior assanhamento,  como nos  dias  em  que caem 
is.
        -  Que horror!
        -  S se salvam os espertos - e Emlia foi desfiando as suas prprias espertezas, o disfarce do algodo, a noite passada no ninho do beija-flor, a histria 
da carangueijeira e do vo da mutuca.
        Nesse ponto Pedrinho assanhou. Tambm queria voar. Queria que o Visconde fosse ao terreiro descobrir mais besouros
        -  e aquela igualdade de amor pela aviao fez que ele e o Juquinha nunca mais se largassem.
        Dona Benta chamou Candoca e sentou-a no colo, contando que havia assistido ao batizado daquela criana.
        -  E tia Nastcia? - perguntou Emlia. - Que est fazendo l, escarrapachada e muda?
        Dona Benta explicou que a negra no se conformava com a Ordem Nova e perdera o interesse em tudo. Vivia assim, escarrapachada no cho, de mo no queixo, 
pensando naquele misterioso transtorno do mundo. To abatida que nem dava resposta ao que lhe perguntavam.
        Pedrinho gostou muito da escadinha de corda e quis descer, porm viu que era muito curta. Tinha a altura do Visconde
        - dois palmos. S chegava at  segunda gaveta da cmoda, a qual estava entreaberta. "Bom, se no posso descer at ao cho, poderei entrar naquela gaveta", 
e desceu com o Juquinha.  Era a gaveta em que Dona Benta guardava as roupas de cama, lenis, colchas e fronhas.
        -  Isto aqui d uma morada tima - gritou ele l de dentro. - S brancuras. Parece um campo de neve.
        Emlia foi sentar-se na caixa de fsforos de Dona Benta, rodeada de todos os mais, e comeou a contar tudo o que se passara com ela. A histria da ingratido 
do Manchinha horrorizou tia Nastcia, que, afinal, por efeito da animao da Emlia, foi saindo do seu marasmo.
        -  Comer os donos dele! J se viu um gato mais malvado? - disse ela.
        -  Manchinha no sabia, nem podia saber - defendeu Emlia. - Enxergou no degrau da escada aqueles trs insetos descascados e est claro que os comeu. Se 
voc fosse gata, faria o mesmo.
        -  Trs insetos? No foi s o Major e Dona Nonoca?
        -  O Manchinha tambm comeu a tia Febrnia,  aquela cozinheira que esteve aqui naquele dia.
        -  Cruz, credo, canhoto! - berrou a pobre tia Nastcia, persignando-se.
        Enquanto conversavam, o Visconde foi ao terreiro trocar impresses com o Burro Falante.
        -  Pois  verdade - disse ele. - Todas as criaturas do mundo perderam o tamanho. A vila acabou. No h mais ningum nas ruas - s automveis escangalhados, 
animais soltos e a passarinhada. Pelo caminho, os casebres de palha da gente da roa esto desertos. A galinhada comeu todos os moradores. Paramos na casa do Coronel 
Teodorico - por sinal que ele est aqui, disse tirando o Coronel do bolso e sentando-o na palma da mo.
        O Burro Falante havia pertencido ao Coronel, em cuja fazenda nascera. Ao ver o seu antigo patro reduzido s propores dum gafanhoto, sacudiu a cabea filosoficamente. 
Aquele homenzarro de outrora, que o cavalgara tantas vezes e lhe metera as esporas e o chicote, estava reduzido a uma coisinha sobre a palma da mo dum milho!
        -  E como vai ser a vida dos homens daqui por diante? - perguntou o burro.
        -  Ainda no sei. Isso depende da Emlia. H duas hipteses: ficar tudo como est, ou voltar tudo ao que era. Emlia acha que com a minha ajuda a Chave do 
Tamanho pode ser de novo levantada.
        O Conselheiro no entendeu aquela histria de Chave do Tamanho, mas no insistiu. Sua extrema delicadeza de sentimentos impedia-o de ser indiscreto.
        -  Bom - disse o Visconde. - Continue a tomar conta do terreiro. E Rabic?
        -  Ainda  no   apareceu   esta  manh. Com certeza anda correndo mundo atrs de minhocas.
        -  Eu sei quais so as minhocas  de agora! - disse o Visconde guardando o Coronel no bolso e voltando para dentro.
        Encontrou Emlia a contar a histria das suas aventuras na sala de jantar do fazendeiro.
        -  E ele ento foi puxado pela corda, dizia ela, e veio para cima da mesa e contou que l na "caverna" um "monstro" estivera todo o tempo a cutuc-lo com 
duas  varas  de  "bambu"   (explicou  que no eram varas e sim as antenas duma enormssima barata.)
        -  Figa, rabudo! - exclamou tia Nastcia persignando-se.
        E onde ficou o compadre? - quis saber Dona Benta.
        O ltimo nmero da surpresa da Emlia ia ser aquele. A diabinha olhou para o Visconde e disse com a maior naturalidade:
        -  Onde andar o Coronel Teodorico, Senhor Visconde? Talvez esteja em seu bolso. Veja.
        O Visconde enfiou a mo no bolso e tirou l de dentro um inseto descascado, que deps sobre a cmoda. Mas todos ali estavam vestidos, de modo que a nudez 
do compadre de Dona Benta provocou verdadeiro escndalo.
        Tia Nastcia protestou,
        -  T'esconjuro! Onde se viu um pai de famlia aparecer nesses trajes de Ado na presena de uma senhora de respeito?
        Na sua aflio de esprito o Coronel esquecera-se de que estava nu, de modo que a advertncia da negra o fez encolher-se todo, desapontadssimo.
        -  Arranje uma tanga, homem! - continuou a negra. - Faa como ns fizemos. Tire essa indecncia daqui, Visconde!
        O Visconde levou o Coronel para o jardim. Que tanga arranjaria para ele? Olhou, olhou. Decidiu-se finalmente por uma flor de anglica, depois de cort-la 
de certo jeito. Deu uma tanga tima, mas que deixava o fazendeiro que nem uma danarina de saiote.
        -  Aquela negra  cheia de histrias, Coronel, mas tem bom corao. Ela mesma  quem vai lhe arranjar uma roupa melhor, feita de seda, como a dos meninos.
        Ao voltar para a cmoda, vestido daquela maneira, o Coronel foi recebido com palmas.
        -  Agora, sim - disse tia Nastcia. - Est mais apresentvel - e s falta danar...
        O Visconde j havia deixado ali acar e outras provises de boca. Mas como a populao da cmoda aumentasse, foi  despensa em busca de novo sortimento 
- um pedacinho de marmelada, mais miolo de po, um dedo de manteiga. Trouxe tambm uma xcara dgua.
        
         
         -  Temos   piscina!   -   gritou   Emlia quando o Visconde despejou a gua no pires - e correu para l arrastando pela mo a Candoca. Ia dar um banho na 
pequena.   Candoca,   pobrezinha,   fez   feio. Diante daquele enorme lago de gua fria, ps-se a berrar. Mesmo assim foi esfregada com uma esponjinha de algodo.
        -  No se afastem da beira dgua! - gritou Dona Benta. - Basta de desgraas. No quero nenhum afogamento aqui.
        Nesse momento Pedrinho e Juquinha apareceram no alto da escada de corda, vindos da segunda gaveta onde haviam matado uma traa. Dando com a piscina, correram 
para ela - e banharam-se e nadaram regaladamente.
        Emlia quis uma barquinha no lago.
        -  Na caixa de fsforos de Dona Benta h paus excelentes. Faa uma jangada, Visconde.
        O Visconde tirou da caixa um pau de fsforo e partiu-o em trs pedaos, unindo-os com um fio de linha. Deu uma jangada excelente. Emlia ps-se a "sulcar 
os mares". Quis depois uma vela e um letreiro: "O Terror do Lago" - e como no houvesse vento, o pobre Visconde teve de ficar ali assoprando.
        Pedrinho e Juquinha, sentados na beira do pires, com grande inveja acompanhavam aquela navegao; por fim resolveram fazer uma jangada muito maior e mais 
bonita.
        E desse modo a Ordem Nova da Humanidade Sem Tamanho foi tendo os seus comeos em cima da cmoda de Dona Benta.
        
        
     XVII
     
     Rabic, o canibal
        
        Enquanto a crianada construa a Ordem Nova, Dona Benta conversava com o Visconde a respeito da situao.
        -  Tudo mudou - dizia ele. - Hoje nada vale o que valia antigamente. Acabou-se o dinheiro. Acabaram-se os veculos. Acabou-se a civilizao. Mas, pelo que 
j vi, o homem pode perfeitamente subsistir dentro das propores mnimas a que est reduzido.
        -  Acha sinceramente, Visconde, que podemos subsistir e criar uma nova civilizao?
        -  Acho sim. Acho at que o homem pode criar uma civilizao muito mais interessante e feliz do que a "civilizao tamanhuda", como diz a Emlia. Ali naquele 
lago a senhora est vendo um maravilhoso exemplo das novas possibilidades.  Nunca um pires dgua deu tanto prazer a tantas criaturas. Os insetos, por exemplo, vivem 
perfeitamente adaptados ao planeta - e eles no possuem a inteligncia das criaturas humanas. A gerao adulta de hoje vai sofrer, est claro, porque anda muito 
presa s idias tamanhudas; as crianas j sofrero menos, porque aceitam melhor as novidades.  Repare como os seus netos, e o Juquinha e a Candoca, esto rapidamente 
se adaptando, ao passo que tia Nastcia e o Coronel resistem.
        -  Mas acha que as nossas velhas idias tornar-se-o inteis neste mundo novo?
        -  Inteis propriamente no. Mas tm de ser revistas e reformadas. So idias filhas da experincia tamanhuda. Com a nova experincia pequenina, est claro 
que as idias velhas tm que sofrer adaptao.
        Filosofaram longamente. O Coronel vinha de vez em quando com um aparte que s servia para mostrar como ele estava emperrado nas idias antigas - sobretudo 
na de dinheiro.
        Sbito, um "fecha" se formou l no pires.
        -  No  quero  que  entre  na  minha nau! - gritara Emlia, quando Juquinha tentou invadir aqueles trs pedacinhos de pau de fsforo   amarrados com o fio. 
- Isto  meu s!
        -  L vai a propriedade se formando, filosofou o Visconde. Emlia j est toda cheia de minhas e meus. Minha nau, meu queijo, meu stio...
        -  E como o Senhor Visconde explica este extraordinrio fenmeno da reduo do tamanho das criaturas?
        O Visconde sabia muito bem que tudo no passava duma reinao da Emlia, mas como jurara nada contar a ningum, fingiu ignorncia.
        -  No sei, Dona Benta. No posso explicar o mistrio - gaguejou ele.
        Depois de fartar-se de navegao no pires, Emlia "alugou" a sua jangada ao Juquinha e foi pedir ao Visconde .que a levasse ao terreiro. Queria conversar 
com o Burro Falante e o Quindim.
        Para falar com o burro, a voz de mosquito da Emlia no dava, de modo que ela fazia as perguntas e o Visconde as repetia como um alto-falante.
        -  Quero   saber   de   Rabic,   Senhor Conselheiro.
        O burro contou, que desde a vspera Rabic no dava sinal de si. Da ltima vez que o vira, ia indo para os lados da fazenda do Coronel.
        -  Ah, ento era ele mesmo que estava l na cozinha devastando o que havia
        -  e juro que foi o comedor da Quinota e da tia Ambrosia! A fome de Rabic  uma dessas  coisas  que  no  tm  explicao.
        Nisto, um ron, ron, ron soou perto da porteira. L vinha Rabic muito afobado, de focinho sujo de terra, gordo como um porco. Emlia fez que o Visconde o 
chamasse e passou-lhe uma reprimenda.
        -  H tantas coisas gostosas no pomar
        -  disse ela atravs do alto-falante - h tantas  mangas,  laranjas,  cajus,  goiabas, figos, marinhos tenros, e o senhor sempre com o focinho sujo de terra 
de tanto fossar as minhocas! Mas - diga-me uma coisa: sabe o que aconteceu no mundo?
        -  Se sei o que aconteceu? Ora se sei! Aconteceu  que  de  um  momento  para outro deu de aparecer por toda parte uma nova raa de minhocas em p, umas cor-de-rosa, 
outras cor de rapadura, outras pretas - e gostosssimas. Na casa do tio Barnab comi uma dzia - das pretas. L na venda do Elias comi mais de vinte de todas as 
cores. E at na casa do Coronel Teodorico - que est deserta, no sei para onde aquela gente se afundou - comi duas, uma cor de rapadura e outra preta. Muito melhores 
que as minhocas que no andam de p.
        Emitia ficou horrorizada. O Marqus de Rabic, seu antigo esposo, estava transformado em canibal, comedor de gente! E teria feito com & pessoal do stio 
de Dona Benta o mesmo que o Manchinha fizera com a famlia do Major Apolinrio, se no fosse a providencial idia do Visconde de p-los todos em cima da cmoda.
        - Ah, Rabic!  - disse ela em tom trgico. - O que voc anda fazendo  o maior dos horrores, porque essas tais "minhocas em p" no so minhocas e sim gente 
humana de propores reduzidas. A humanidade inteira perdeu o tamanho. Dona Benta e os meninos esto l dentro transformados em iscas de gente. Pelo amor de Deus, 
pare com essas comi-lanas,   porque   constituem  verdadeiros crimes.   Sabe  quem  eram  as  minhocas pretas que voc comeu na casa do tio Barnab? Eram o pobre 
negro velho e toda a famlia dele. E sabe quem eram as duas que voc comeu na casa do Coronel Teodorico? Eram a Quinota e a tia Ambrosia, aquela negra to boa, que 
sempre nos recebia com caf e bolinhos.
        Rabic ficou desapontadssimo. Mas como  que poderia ter adivinhado? Sempre fora um grande comedor de minhocas e de quanto verme encontrava. Apareceram 
aquelas minhocas novas, carnudinhas. Nada mais natural que as comesse tambm.
        -  Eu sei disso. Voc no tem culpa. Mas est avisado. E se encontrar mais alguma perdida por a, traga-a para c, em vez de com-la.
        Rabic, muito impressionado com a sua antropofagia, prometeu que sim. Em seguida o Visconde foi em procura do rinoceronte, l embaixo da figueira grande. 
Contou-lhe toda a tragdia humana. Quindim, porm, no fez caso nenhum. J estava muito velho para dar importncia a coisas to insignificantes como o desaparecimento 
da humanidade. Enquanto houvesse vegetais, rvores de boas folhas gostosas, capins macios e brotos, tudo iria bem. Quindim, com a idade, fora ficando cnico; Emlia 
passou-lhe urna descompostura e voltou para casa.
        -  Muito bem, Visconde - disse ela.
        -  Trate de concluir a fabricao do superp.   Quero   dar  um  grande  passeio pelo mundo - a Europa, a sia, a Amrica do Norte, para ver como correm 
as coisas por l. Depois resolveremos sobre a ida  Casa das Chaves.
        O Visconde foi ao laboratorinho e continuou na fabricao do maravilhoso p, interrompido pelo desastre do apequena-mento. Emlia quis saber qual era o segredo 
da droga. O velho sbio riu-se; declarou que o superp era uma "sublimao das vitaminas do pulo dos grilos"
        -  o que deixou Emlia na mesma. Depois de lidar no laboratrio algum tempo, o Visconde foi ver como ia a gente da cmoda.
        Encontrou os meninos brincando de construir uma casinha com as "vigas" tiradas da caixa de fsforos de Dona Benta. O Coronel Teodorico olhava para a obra 
com olhos de peixe morto.
        -  Que  que h, Coronel? - perguntou o Visconde.
        -  H  que  no  posso  conformar-me com o acontecido - respondeu o pobre homem, sem sequer erguer a cabea. - Eu era gente no mundo. Alto, forte, rico, 
dono duma bela fazenda - e agora me vejo sem nada de nada, reduzido a um simples inseto em cima desta cmoda. Ora, estou muito velho para acostumar-me a semelhante 
brincadeira. Se vou ficar assim toda a vida, ento antes acabar com tudo de uma vez - e peo que me
        leve e largue diante do bico do pinto sura.
        -  No seja to exagerado, Coronel - disse o Visconde. - Estou preparando uma dose de superp e com esse ingrediente  possvel que a Emlia e eu... Ai!
        Um forte puxo no fio da campainha advertira-o de que estava falando demais. O Visconde engoliu o fim da frase. Narizinho, porm, que estivera ouvindo a 
prosa, desconfiou e disse ao ouvido de Dona Benta:
        -  Estou quase acreditando, vov, que tudo quanto aconteceu no passa dalguma reinao da Emlia. O Visconde sabe, mas no pode dizer. Desta vez distraiu-se 
e ia contando; sbito, "Ai!" deu um gritinho e nem rematou a frase. Por qu? Porque Emlia, l de dentro da cartola, pregou-lhe um puxo na barba. Emlia  o que 
h de esperta, vov. Inventou a tal   "campainha"  justamente  para  isso: para brecar o Visconde sempre que ele for se tornando indiscreto.
        -  Tudo  possvel neste mundo de maravilhas - suspirou  Dona  Benta - mas   temos   de   ficar  muito   caladinhas, porque hoje quem realmente manda  a 
Emlia, j que mora na cabea do mais poderoso gigante do mundo. Estamos nas mos dos dois - ns e toda a humanidade.- A perda do tamanho nos tornou to fracos e 
inteis como pulges de broto de roseira.
        -  Pois eu continuarei atenta - disse Narizinho - e hei de pescar toda a verdade.
        O Visconde perguntou ao pessoal da cmoda se no desejavam alguma coisa. Juquinha pediu besouros e Pedrinho quis um livro. Andava interessado em saber se 
ainda era possvel a leitura de livros.
        O Visconde tomou um ao acaso, ali da sua escadaria de livros, e largou-o sobre a cmoda. Pedrinho trepou na pgina aberta a fim de experimentar a leitura. 
Difcil, sim. Tinha de ir andando, como caranguejo, por baixo de cada linha, lendo as letras uma por uma. Leu assim duas ou trs frases e cansou-se. Depois quis 
voltar a pgina. Viu que exigia o esforo de duas pessoas, uma para levantar a folha do livro a pulso, como o carpinteiro que levanta uma tbua; e outra que a empurrasse 
para cima por meio duma comprida vara. A folha do livro ficava assim em vertical. Para faz-la deitar-se do outro lado, era preciso mais uma srie de manobras.
        Dona   Benta,   que   estava   assistindo quela brincadeira, disse filosoficamente:
        -  Estou  vendo  que   toda   a  cultura humana, guardada nas bibliotecas, est perdida. Tirar os livros das estantes j vai ser quase impossvel. Abri-los 
 um trabalho e l-los, letra por letra, caminhando de p por baixo das linhas,  esforo lento e fatigante. Ser uma verdadeira   faanha   de   Hrcules    ler 
um livro todo.
        
        
        Enquanto isso o Visconde e Emlia cochichavam em voz baixa a pouca distncia dali. O superp j estava pronto. Podiam correr mundo. O melhor era irem duma 
vez  Casa das Chaves, levantarem a Chave do Tamanho e pronto. Tudo ficaria como dantes. Emlia, porm, estava indecisa. Queria e no queria, e mais no queria do 
que queria. Por fim veio com a idia do plebiscito.
        -  Acho, Visconde, que no podemos decidir por ns mesmos num ponto de tanta importncia. No somos ditadores dos tais do quero, posso e mando. Temos de 
consultar a opinio das gentes e s fazer o que a maioria quiser. Temos de dar uma volta pelo mundo, ver pelo menos a Europa e os Estados Unidos. Como decidirmos 
qualquer coisa sem conhecermos o estado real da humanidade?
        Assentado aquele ponto,  o Visconde foi avisar o Conselheiro.
        -  Ns   vamos   partir   novamente   - disse ele - e o senhor fica de sentinela. No deixe entrar na casa ave nenhuma, nem o Rabic.  Ele prometeu comportar-se, 
mas duvido que veja um inseto descascado e resista  tentao de com-lo.
        O burro prometeu cumprir fielmente as instrues.
        
        
        
     XVIII
     
     O filsofo chins
        
        L na cmoda Dona Benta e os meninos estudavam a situao.
        -  Para mim, vov, tudo no passa de arte da Emlia - dizia a menina. - Cada vez me conveno mais. Lembre-se que na manh do dia do desastre ela desapareceu 
daqui, e logo em seguida o Visconde veio dizer que lhe haviam roubado a caixinha de superp. Juro que foi ela!  Tomou uma pitada e afundou pelos infinitos, e l 
mexeu em alguma coisa. Estou certssima disso. No v como ela est segura de si e emproada, cheia de "vous" e "faos?" Todos no mundo esto assim como ns, tontos, 
sem saber nem o que pensar - menos Emlia. Garanto que tudo  uma arte dela.
        -  Pois se  arte dela, minha filha, s ela poder consertar o torto. Esperemos. No  a primeira vez que nos encontramos em situao esquisitssima. Quanta 
coisa se tem passado nesta casa! At pelo cu vocs j andaram, brincando de escorregar nos anis de Saturno. E eu j estive sentada no dedo do Pssaro Roca, pensando 
que era uma raiz de rvore. Mas no fim tudo acabou bem.
        -  Agora  diferente, vov. Naquelas aventuras as coisas aconteciam s para ns; o que agora aconteceu alcanou a humanidade  inteira. Qual  sua idia, 
tia Nastcia?
        A boa negra, entretida em emendar fibras de algodo, respondeu como se j no fosse uma criatura desse mundo.
        -  Ah, eu penso que o mundo acabou - o mundo antigo. Ns morremos todos, sem saber, e estamos no cu. Somos almas do outro mundo e o outro mundo  este - 
esta cmoda, o Coronel, to pequenino, ali de tanga de flor, Emlia l na cartola do Visconde. Ou ento  sonho. Se  sonho, quando acordarmos tudo se acaba e a 
vida de dantes comea outra vez. E se  morte,  morte e pronto. Pois ento vou acreditar que estou virada em i de tanga? No sou boba. Ou j morri e estou num 
cu, ou tudo isto  sonho.
        Narizinho ficou impressionada com a idia da negra.
        -  Ser assim, vov?
        -  Como posso saber, menina? Nosso modo de vida nesta casa sempre me deixou tonta e incerta sobre a realidade das coisas. At me faz lembrar aquele caso 
do filsofo chins.
        -  Qual deles?
        -  Aquele filsofo ou poeta chins, j no me lembro, que passou a noite sonhando que era borboleta, e durante todo o sonho viveu a vida das borboletas, 
com  ideiazinhas de borboleta,  comidinhas de borboleta,  tudo de borboleta, com a maior clareza e perfeio. Quando acordou e se viu outra vez homem, caiu na  dvida. 
"Serei  uma borboleta  que est sonhando que  homem ou sou um homem que sonhou que era borboleta?" E por mais que pensasse nisso, nunca pde saber com certeza se 
era realmente uma borboleta que sonhava ser homem ou um homem que havia sonhado ser borboleta.
        -  Que graa! exclamou a menina.
        -  Pois estou que nem esse poeta chins - concluiu Dona Benta. - No sei se sou gente grande que est sonhando que  gentinha, ou se sempre fui gentinha 
que por muito tempo sonhou que era gente grande.
        -  E qual a sua opinio, Coronel? - perguntou o menino.
        O Coronel Teodorico estava com o crebro mais oco do que um porungo. No tinha nimo de pensar e at chegava a ter medo das idias que lhe acudiam. Pedrinho 
teve de insistir muito para que ele dissesse:
        -  Eu estou com tia Nastcia. Isto  pesadelo.   No  pode  ser  verdade.   Pois onde se viu um homem que nunca teve medo de nada, e vivia na fartura, acabar 
escondido numa fresta de rodap, perto duma barata enorme, tremendo de medo dos seus prprios leites soltos pela sala? Pois ento isso  coisa possvel? O que me 
parece  que estou louco - ou que todos esto loucos. J li a histria dum louco que ficava parado num canto, com uma caneca na cabea - e assim levou anos, sabem 
por qu?
        -  Por qu?
        -  Porque estava convencido de que era um pote dgua. No falava, porque os potes no falam. No tirava a caneca da cabea porque os potes no tiram a caneca 
da tampa. Por mais que os mdicos do hospcio lhe explicassem que ele no era pote e sim um homem como os outros, o coitado no acreditava.  Convencera-se de que 
era pote e acabou-se. Quem sabe se ns enlouquecemos e estamos tal qual o homem do pote? Quem sabe se no h nada disto, e tudo  iluso nossa?
        Nesse momento o Visconde apareceu, com a Emlia debruada na janelinha. Contou que o novo superp estava pronto e eles iam correr mundo para verificar a 
situao real da humanidade.
        Dona Benta arrenegou - mas que remdio? Se Emlia queria a tal viagem  Europa, estava querido. A dona do mundo era ela. Pois que fossem, Em seguida ps 
o Visconde a par da discusso ali na cmoda.
        -  O Coronel acha que o que estamos  loucos - e repetiu a histria do pote.
        -  Isso no! - gritou Emlia da janela. - Esse louco do pote era um s, e neste nosso caso de agora todos se sentem pequenininhos. Uma loucura assim de toda 
gente no pode ser loucura - loucura  coisa s de uns.
        -  E tia Nastcia acha que  sonho - continuou Dona Benta.
         -  Sonho o nariz dela! - berrou Emlia. - Parece incrvel que no percebam o que houve. O mundo  uma mquina de mil peas. Com certeza alguma pea saiu 
do lugar -  isso.
        Narizinho, sempre atenta s palavras de Emlia, aproximou-se.
        -  Pea que saiu do lugar? - repetiu. - Se alguma pea saiu do lugar, no saiu sozinha - algum deve ter bulido nela.
        -  Isso no! - protestou Emlia vivamente. - Por que  que o automvel do Jos Batata parou, naquela vez em que fomos  cidade? Porque o arame do acelerador 
se partiu - e quem estava mexendo l dentro para que o arame se partisse? Partiu-se por si mesmo. So coisas que acontecem.
        Mas o calor com que negou a idia de haver algum mexido na pea ainda mais aumentou as desconfianas da menina, a qual disse ao ouvido de Dona Benta:
        -  Juro, vov,  que quem mexeu na pea foi ela!
        E depois, em voz alta para "ca-la":
        -  Emilinha, voc ainda no nos contou o que foi fazer naquela manh, depois de furtar o superp do Visconde.
        -  O que fui fazer? Ora esta. Fui dar um passeio pelas estrelas - para verificar se o p era mesmo o que o Visconde dizia.
        -  E andou pulando de estrela em estrela, no ?
        O modo irnico de Narizinho falar fez que Emlia se abrisse. J andava amolada com aquele segredo.
        -  E se fosse eu? Se mexi na Chave do Tamanho,   no  o  fiz  por querer. No havendo inteno, no h culpa, como disse Dona Benta outro dia. E por isso 
estou de cabea levantada, pronta para aparecer diante de todos os tribunais do mundo. Quero vez quem me condena.- E se comeam a me amolar, sabem o que fao? No 
fao nada! Largo mo de tudo e a humanidade que se fomente. Pipocas!
        -  Cama, calma, Emlia! - disse Dona Benta. - No  caso para se queimar. Ningum aqui imagina que voc queira destruir a humanidade, e se por acaso fez 
algum mal, foi sem querer - e vai consertar a malfeitoria e deixar tudo como dantes.
        -  Isto   tambm   no!    -   protestou Emlia. - Quer ento a senhora que eu deixe o mundo como estava, dividido em duas partes, uma matando a outra, bombardeando 
as cidades, escangalhando tudo? Ah, isso  que no. Ou acabo com a guerra e, com esses dios que estragam a vida, ou acabo com a espcie humana. Comigo  ali na 
batata!
        A arrogncia daquelas palavras era uma coisa incrvel. Dona Benta tremeu pelos destinos do mundo e fez sinal a Narizinho para que ficasse quieta. Era preciso 
no irritar a pequena criaturinha da qual a sorte da Espcie Humana dependia.
        
        
        
     XIX
     
     Viagem pelo mundo
        
        Tudo estava pronto para a viagem. No ltimo momento o Visconde achou melhor desistirem do plebiscito e, em vez do passeio pelo mundo, tocarem diretamente 
para a Casa das Chaves. Alegou que cada minuto de demora eram mais milhes de seres humanos que pereciam em todos os continentes.
        -  E no se perde grande coisa - respondeu Emlia. - O infinito  um colosso, Visconde. H l pelos cus milhes e  milhes  de  astros  muitssimas  vezes 
maiores que esta pulguinha da Terra. E nesta pulguinha da Terra a humanidade  uma poeirinha malvada. Para o Universo tanto faz que essa poeirinha exista como no 
exista.
        Aquele pouco caso da Emlia pela humanidade no impressionou o Visconde. Ele viu que no fundo no era pouco caso, e sim muito caso. Emlia revoltava-se com 
as guerras e as outras formas de crueldade dos seres humanos. O apequena-mento causado pela sua reinao evidentemente no fora de propsito. Quando Emlia virou 
a chave, sua inteno no fora fazer mal a ningum, e sim bem: acabar com as guerras. Havia de haver uma chave da guerra, e o seu pensamento foi ir experimentando 
todas as chaves at acertar. Mas assim que virou a primeira, aconteceu o tal apequenamento, e ela nem sequer pde suspender outra vez a chave, quanto mais experimentar 
as outras. "Emlia  filsofa", pensou o Visconde, "e quando se pe a filosofar parece que tem corao duro mas no tem. Emlia  filosoficamente boa."
        Depois de tudo bem combinado, e de tomadas l na cmoda todas as providncias, partiram. O fiun foi formidvel, porque quanto mais novo  o super-p, mais 
forte. Emlia, coitadinha, perdeu completamente os sentidos, e o Visconde ficou mais tonto que das outras vezes.
        Por fim chegaram. O Visconde levou minutos sentado, de pernas estiradas, olhando sem ver, ouvindo sem ouvir. Quando se ps de p, quase caiu, de to tonto.
        -  Emlia!  - chamou ele, e repetiu trs vezes o chamado.
        Como no obtivesse resposta, tirou a cartola e espiou pela janela. A coitadinha estava desacordada. O Visconde despejou-a na palma da mo, cuidadosamente, 
e soprou-a de leve. Nada. Soprou mais forte. Nada.
        -  Parece incrvel - murmurou ele - que essa grande coisa chamada humanidade   dependa   desta   formiguinha   sem sentidos que eu tenho na palma da mo! 
Se Emlia voltar a si, tudo poder ser salvo;  mas se morrer,   bem  provvel que   estes   insetos   descascados   tambm morram todos, e s fiquemos no mundo 
eu, o Conselheiro e o Quindim - os nicos seres falantes e escreventes - e que adiantar a "Histria do Grande Desastre" que eu possa escrever em minhas memrias? 
No existir ningum para l-la. E o curioso  que o mundo continuar a rodar como se no tivesse havido nada. O burro, Quindim e todos os mais rinocerontes e hipoptamos 
e lees e tigres e a bicharada inteira desde os pintos suras at os micrbios, continuaro a existir como at hoje - e at ficaro muito contentes com o sumio do 
Momo sapiens. Porque o Horno sapiens era o que mais atrapalhava a vida natural dos bichos. At Rabic, aquele patife, continuar a fossar os brejos em busca de minhocas 
- e j sem medo nenhum do bodoque de Pedrinho ou das ameaas da Emlia.
        Estava nesse ponto da conversa consigo mesmo, quando a "formiguinha desmaiada" fez um leve movimento e logo em seguida outro. O Visconde respirou aliviado.
        -  Ora graas que est acordando. Emlia despertou e sentou-se. Passou a mo pelos olhos ainda turvos.
        -  Onde estou?
        -  Aqui comigo, na palma da minha mo, em qualquer parte da Europa - disse o Visconde.
        Emlia sorriu e ps-se de p, ainda tontinha; firmou-se logo, porm, e pediu a cartola.
        -  Erga-me para a cartola, Visconde. Sua mo est muito quente e suada.
        Assim foi feito.
        -  Onde ser que estamos? - perguntou, logo que reapareceu em sua janelinha. - Isto aqui parece um campo de trigo sem trigo, mas de que pas?
        Os campos de trigo sem trigo so todos semelhantes, de modo que por meio deles ningum consegue identificar um pas. Para isso, s as cidades.
        -  Vamos tomar por aquele caminho, Visconde - disse ela referindo-se  estrada que se via dali. - Todo caminho d em cidade.
        O Visconde dirigiu-se para a estrada e ps-se a caminhar. Uma larga estrada deserta, com sinais de trfego nas curvas e pontos perigosos. Esses sinais tambm 
no permitiram a identificao do pas, porque so os mesmos em toda parte. S quando chegaram a um cruzamento puderam ler a tabuleta indicadora da direo. Havia 
de cada lado uma flecha com um nome embaixo. O Visconde viu imediatamente que o superp os havia largado na Alemanha.
        -  Muito   bem.   Este  nome  de  Furstenwalde mostra que estamos perto de Berlim. O melhor  irmos diretamente para l.
        -  timo - concordou Emlia. - Com a cheirada de alguns gros de superp, estaremos em Berlim em meio segundo.
        -  Mas no v perder os sentidos outra vez - disse o Visconde, dando-lhe apenas meio grozinho de superp e aspirando um inteiro.
        O passeio do Visconde e da Emlia pela cidade de Berlim dava assunto para todo um livro. Quanta coisa observaram! A capital da Alemanha pareceu-lhes perfeitamente 
morta. A enorme quantidade de montinhos de roupa em toda as ruas revelava a sua grande populao. Na maioria eram montinhos de farda, com um capacete ou quepe em 
cima. Inmeros automveis despedaados, quase todos militares. O apequenamento havia acontecido s 4 horas, que  a hora de Berlim correspondente s 10 da manh 
l no stio. A populao estava em plena atividade nas ruas, quando subitamente desapareceu. O que de fato havia acontecido  humanidade inteira fora isso - um desaparecimento. 
No mesmo instante, em todos os continentes, em todas as cidades, em todas as casas e ruas, em todos os navios e trens, os seres humanos derreteram-se como sorvete, 
dentro das roupas, mas de modo instantneo, e as roupas ficaram no lugar, em "montinhos largados", quase sempre com um chapu em cima. E em substituio de cada 
criatura apareceu dentro de cada montinho de roupa um inseto bpede de vrias cores - uns cor-de-rosa, outros amarelos, outros cor de cobre, outros pretos como carvo.
        Foi isso o que se deu: completa extino da Humanidade, porque os insetos de dois ps que a substituram j no eram propriamente a Humanidade - eram a Bichidade, 
como Emlia os classificou. E, portanto, ela, a Emlia, a Emilinha do stio de Dona Benta, havia realizado um prodgio sem nome: suprimido a Humanidade! O que os 
gelos dos perodos glaciais no conseguiram e o que no conseguiram as erupes vulcnicas, e os terremotos, e as inundaes, e as pestes, e as grandes guerras, 
a marquesinha de Rabic havia conseguido da maneira mais simples - com uma virada de chave! Aquilo era positivamente o Himalaia dos assombros.
        Todas as casas de Berlim estavam abertas e desertas. Ningum, de ningum, de ningum. S cachorros e gatos. Esses novos antropfagos andavam livremente por 
toda parte; os ces tinham aprendido a revolver os montinhos de roupa e os gatos pescavam com a mo os insetos mal escondidos nas frestas. Muitos passarinhos dos 
campos tambm vieram caar em Berlim. Emlia recordou o tempo da sada de is l no stio em outubro, coisa que tanto assanhava os passarinhos e as aves domsticas.
        - Veja! - exclamou o Visconde filosoficamente. - Esta gente, que era a mais terrvel e belicosa do mundo e estava empenhada numa guerra para a conquista 
do planeta, ainda  mentalmente a mesma - quero dizer, ainda sente e pensa da mesma maneira. E ainda sabe tudo quanto aprendeu. Os qumicos sabem fazer prodgios 
com a combinao dos tomos. Os fsicos e mecnicos sabem todos os segredos da matria. Os militares sabem todos os segredos da arte de matar. Mas como perderam 
o tamanho, j no podem coisa nenhuma. Sabem, mas no podem. Que coisa terrvel para eles!
        -  Estou  vendo  que  a  grande  fora dos homens estava no tamanho - disse Emlia. - O tamanho era como o cabelo de Sanso. Quando Dalila cortou o cabelo 
de Sanso, o coitado perdeu toda a fora.
        -  Exatamente   -   concordou   o   Visconde. - O tamanho era tudo, isto , todo o aparelhamento mecnico da humanidade fora feito para os homens daquele 
tamanho.   Assim   que   aquele   tamanho mudou, adeus viola! Tudo ficou absolutamente intil. At as invenes dependem do tamanho. Agora compreendo por que as 
formigas no inventam nada. No podem, por falta de tamanho. Que coisa tremenda o tamanho! Est a uma idia que nunca me passou pela cabea.
        E realmente era assim. Aquela grande cidade, com todas as suas mquinas e veculos e organizaes, valia menos, para os novos insetos louros, do que um buraquinho 
na terra (dos sem dono dentro) ou uma fresta de rodap.
        O Visconde parou diante do palcio do governo e ficou a balanar a cabea filosoficamente.
        -  Aqui morava o ditador que levou o mundo inteiro  maior das guerras, e destrua cidades e mais cidades com os seus avies, e afundava os navios com os 
seus submarinos, e matava milhares e milhares de homens com os seus canhes e as suas metralhadoras - o homem mais poderoso que jamais existiu. Tudo isso por qu? 
Porque  tinha oito  palmos  e meio de altura. Assim que foi reduzido a quatro centmetros, todo o seu poder evaporou-se. Ele, se  que ainda no foi para o papo 
de algum pinto sura, permanece o mesmo, com a mesma energia mental, a mesma disposio destruidora e a mesma vontade de ao - mas no pode mais nada.
        -  Ah, se consegussemos encontr-lo! - suspirou Emlia.
        -  Quem sabe?  possvel que ainda esteja dentro deste palcio.
        O Visconde subiu as escadarias e entrou. Enormes sales desertos, com o cho coalhado de montinhos de farda. Aqui e ali, um gato ou cachorro vagabundo. O 
silncio era impressionante. O Visconde lembrou-se de sacudir um dos montinhos de farda e viu cair pela manga um inseto louro, nu, mortssimo. O pano amontoara-se 
de mau jeito em cima dele; o inseto, que no pudera sair, morrera abafado. Examinando os bolsos da blusa, o Visconde encontrou a carteira de identificao do falecido. 
Era um grande general, famoso pelas destruies feitas na Polnia. Emlia ficou a olhar para aquela tripinha que o Visconde erguia no ar por um p.
        -  Extraordinrio! - disse ela. - Esta simples tripinha foi um dos terrores do mundo, s porque era dotado de tamanho. Estou vendo, Visconde, que o tamanho 
dos homens era realmente a pior coisa que havia - e fiz muito bem de acabar com ele. O melhor ser irmos  Casa das Chaves e tambm suprimirmos o tamanho de todos 
os outros animais. Para que tamanho? Um micrbio vive perfeitamente - e  pequenininho a ponto de ser invisvel.
        Outros montes de farda foram sacudidos sem que nada casse de dentro.
        -  Os insetos destas roupas puderam safar-se, disse Emlia - mas onde andam?
        No tardaram a descobri-los. Embaixo dos mveis, nos cantinhos mais escuros, nas frestas, por toda parte onde houvesse minsculos abrigos naturais, o Visconde 
descobriu medrosos ajuntamentos de insetos louros. Inmeros j estavam no papo da gataria invasora e dos ces. Co no come inseto, mas inseto feito de carne humana 
 petisco diferente e raro. Alm disso, os gatos e ces da Alemanha andavam com raes muito curtas de modo que se aproveitavam daquela imprevista oportunidade.
        O Visconde foi andando de sala em sala. Uma delas parecia a do Grande Ditador.
        Era aqui - disse Emlia - que ELE mandava e desmandava. Agora, com certeza, anda escondido nalgum buraquinho.
        -  Mas como poderemos reconhec-lo?
        -  Pelo bigode. Nada mais fcil.
        Com um pauzinho o Visconde comeou a tirar os arianos escondidos nas fres-tas ou debaixo dos mveis.
        De sob a secretria do Grande Ditador saram vrios, evidentemente generais e homens de governo. Um deles tinha bigodinho. A entrevista de Emlia com o Grande 
Ditador dava um livro de mil pginas, mas temos de resumir. A pedido dela o Visconde ergueu-o at a altura da janelinha para que pudesse ouvir o seu discurso.
        -  Meu senhor - disse ela - tenho a honra de apresentar a Vossa Excelncia o Visconde de Sabugosa, o milho falante l do stio de Dona Benta. E tambm me 
apresento a mim mesma - frau Emlia, Marquesa von Rabic. Viemos dar uma vista dolhos pelas Europas e o acaso nos largou nesta Alemanha de Vossa Excelncia. Mas 
estou admirada do que vejo. Esperei encontrar o grande arsenal das ditaduras dando tiros de canho e espirrando fogo, e o que no prprio palcio do Grande Ditador 
eu vejo so montinhos de farda vazia e arianos insetiformes, tmidos, nus, escondidos pelos cantos e vos e frestas. Que foi que aconteceu, Excelncia?
        Para uma criaturinha de quatro centmetros, um "milho" como o Visconde, de dois palmos de altura, equivalia a um formidvel gigante. Nada mais natural, pois, 
que o Grande Ditador se encolhesse todo, sem nimo de soltar uma s palavra. Mas Emlia o sossegou.
        -  No se assuste, Excelncia. O Visconde  o maior gigante do mundo, mas tambm  milho - um vegetal extremamente pacato. Alm disso  um grande sbio - 
hoje o maior sbio do mundo. E no  judeu, no, Excelncia. No tenha  medo.   O  Visconde    arianssimo.
        Quando esteve no milharal que foi o seu bero, o vento dava na sua linda cabeleira louro-platina. Hoje est velho e careca e anda sempre com o meu stio 
na cabea. No entende? Meu stio  esta cartola. Pois bem, Excelncia. Cheguei at c para dizer uma coisa s - que o Tamanho morreu. E quem acabou com o Tamanho 
eu sei quem foi, e sei tambm que essa pessoa  a nica que pode novamente restituir aos homens o antigo e querido tamanho - aquele tamanho malvado, porque se no 
fosse ele os homens no teriam sido maus como foram, fazedores de guerras, incendiadores de cidades, afundadores de navios, judiadores de judeus. Mas esse misterioso 
algum s restaurar o tamanho perdido se tiver a certeza de que Vossa Excelncia vai fazer a paz, e botar fora todas as horrendas armas que andou amontoando, e 
desse momento em diante viver na mesma paz e harmonia com o mundo em que vivem as formigas e abelhas. Se o Tamanho voltar e tudo ficar como estava, quero vida nova, 
sem guerras, sem dios, sem matanas, sem armas, est entendendo? E se por acaso algum dos futuros poderosos romper o trato, o castigo ser terrvel. Sabe qual ser 
o castigo? O tal "algum" desce a chave duma vez, e o Tamanho fica reduzido a zero. Em vez de 4 centmetros, como Vossa Excelncia tem hoje, passara a ter 4 milmetros, 
ou menos, e ser devorado at pelas moscas e pulgas. Est entendendo?
        Claro que ele estava entendendo. Quem no entenderia uma linguagem to po po queijo queijo como aquela?
        O Grande Ditador animou-se e quis falar. Emlia o deteve com um gesto.
        - No diga nada, meu senhor. J houve falao demais. Quem fala agora sou eu. Quero todos muito direitinhos e humildes. Esta semana de "reduo" no passa 
duma advertncia que o tal "algum" faz ao mundo. Compreende?
        Assim terminou Emlia o seu sermo ao chefe do Eixo. Depois ordenou ao Visconde:
        - Enfie-o no buraquinho onde estava e vamos ver o outro.
        O Visconde enfiou o Grande Ditador na fresta do rodap, de onde o seu Estado-Maior espiava com os olhos arregalados.
        Um dos mais interessantes aspectos do mundo novo era o da enorme quantidade de avies despedaados. Todos os aparelhos que haviam erguido vo no dia do apequenamento 
ficaram sem governo e foram caindo aqui e ali. O mesmo sucedeu aos trens e navios. Os trens em movimento descarrilaram todos, depois que seus maquinistas viraram 
insetos. O mesmo desastre nos oceanos. Os navios transformaram-se em "navios fantasmas", isto , que andam soltos pelo mar ao sabor dos ventos sem tripulao que 
os dirija. A cada passinho as ondas arremessavam um deles  praia.
        Foi o que o Visconde observou em sua viagem  Alemanha - e na Alemanha tomou nova pitada de p e foi parar no Japo.
        O aspecto das cidades japonesas era o mesmo das europias. Montinhos de roupa por toda parte, fardas, e tambm quimonos. Automveis escangalhados, trens 
arrebentados, avies despedaados.
        Foi fcil em Tquio darem com o palcio do Imperador, e por mero acaso descobriram o soberano amarelo. O Visconde vira numa das salas um gato brincando de 
dar tapinhas numa tampa de caneta-tinteiro cada no cho. Era o Gato Imperial - o gato de estimao de Sua Majestade. Evidentemente havia dentro da tampa qualquer 
coisa que o interessava. No conseguindo fazer que essa qualquer coisa sasse l de dentro, o gato ficou de banda, imvel, como fazem os gatos do mundo inteiro quando 
encontram um buraquinho de camundongo.
        O Visconde espantou o Gato Imperial e tomando a tampa de caneta virou-a de boca para baixo, sacudindo-a. Caiu de dentro uma tripinha cor de cuia. Era o Imperador 
do Japo, o Filho do Sol...
        A viagem  Rssia foi a mais trgica de todas. O Visconde parou na zona da guerra e assombrou-se. O frio era horrvel, muitos graus abaixo de zero, e aqueles 
milhes de homens que os Ditadores tinham remetido para os gelos estavam todos mortos. Ao lado dos tanques e canhes viam-se montinhos de fardas em quantidade incrvel, 
em muitos pontos j totalmente recobertos pela neve. Nenhum inseto beligerante pde salvar-se depois do apequenamento. Nem procuraram sair de dentro das roupas desabadas, 
porque ento morreriam ainda mais depressa no entanguimento do frio exterior. Ficaram dentro das roupas e capotes, aproveitando o ltimo calorzinho. Em minutos, 
porm, os exrcitos alemes e soviticos viraram picols.
        Parece incrvel, mas no se salvou ningum, nem mesmo os que estavam dentro das casas ainda de p, porque logo que os fogos acesos se apagaram o congelamento 
foi geral.
        O palcio do governo era o clebre Kremlin, onde haviam residido tantos czares da Rssia antiga.
        O nmero de insetos existentes naquele ponto devia ser grande, no s por causa da imensido do palcio como pelos bons abrigos que os inmeros montes de 
peles proporcionavam aos insetos russos. Os russos sempre se defenderam do frio por meio de roupas e capotes de peles - e dos plos que deixavam crescer na cara 
- as formidveis barbas e os bigodes.
        
        
        
        Cada monte de pele em que o Visconde mexia, levantando uma aba ou manga de capote, punha  mostra vrios insetos apavorados, que corriam a esconder-se.
        Emlia lembrou-se dos "tatuzinhos" ou bichos-de-conta que vivem debaixo dos vos de pedra ou tijolo: assim que a gente ergue o tijolo, eles correm a esconder-se 
no escurinho mais prximo.
        O que Emlia viu na Rssia no deixou de assust-la. Percebeu que o apequenamento havia causado ali mais mortes que em qualquer outro pas, em virtude da 
intensidade do frio daquele inverno. E como comeasse a ficar entanguida, deu ordem ao Visconde de ir para um bom clima, dos quentinhos.
        -  frica? - perguntou o milho.
        -  No. Califrnia - respondeu Emlia com o pensamento em Hollywood.
        O Visconde tomou o canudinho de pirlimpimpim, calculou cuidadosamente a pitada e levou-a ao nariz - fiunn!...
         
        
        
     XX
     
     A Cidade do Balde
     
        
        Acordaram num jardim. O Visconde correu os olhos em torno. Jardim velho e maltratado, com matinhos crescendo nas ruas e grama tal qual cabelo de homem da 
roa quando passa trs meses sem ir ao barbeiro.
        -  Estou vendo um enorme balde de cabea para baixo - disse Emlia j na sua janelinha.
        Sim, era um balde velho na beira da calada. Percebendo em redor dele agitao de insetos humanos, o Visconde aproximou-se p ante p. Ficou espiando de 
trs duma moita de esporinhas.
        Que espetculo maravilhoso! Um verdadeiro ncleo de civilizao nova que se ia formando - um comeo de tribo. Aqueles insetos acomodaram-se debaixo do balde 
e estavam construindo coisas.
        Na asa do balde, cada sobre o cimento da calada, viram um varal com umas tripinhas penduradas. Roupas? No. Minhocas secando ao sol.
        -  Ser possvel que comam minhocas?
        - exclamou Emlia.
        -  E por que no? - disse o Visconde.
        -   uma carne como outra qualquer, e fcil de obter, porque a abundncia das minhocas no seio da terra  uma coisa incrvel.   Para   a   carne,   antigamente, 
os homens tinham de promover a criao de bois, carneiros, porcos e aves, indstria que exigia  grandes  pastagens,  alm  da plantao   de   muitas   roas   de 
milho, aveia, mandioca, alfafa etc. E havia a trabalheira de prender aqueles animais, engord-los,  lev-los  aos  matadouros,  mat-los, tirar-lhes o couro, esquartej-los, 
salgar a carne,  coz-la,  enlat-la - mil coisas. Agora no. A carne j sai por si mesma do seio da terra, sem couro e sem osso e na maior abundncia.  Como h 
minhocas no mundo! L no stio, quando amos pescar, cada enxadada de Pedrinho punha  mostra meia dzia. E so timas para charque. Num instante o sol seca uma 
minhoca.
        -  Mas  porcaria comer minhoca! - disse Emlia com carinha de nojo.
        -  Por qu? Se a carne  sadia, no vejo nenhuma objeo razovel. Rigorosamente falando, porcaria era comer porco-e voc mesma vivia elogiando o lombo de 
porco de tia Nastcia, com farofa e rodelas de limo.
        -  E era mesmo um suco.
        -  Logo, tudo  questo de hbito. Os chineses sempre comeram coisas que os ocidentais  consideravam porcarias - e no me consta que essas comidas tenham 
prejudicado a China.
        O movimento em redor do balde era grande. Uns entravam, outros saam, carregando coisas. Passou um homenzinho com uma casca de caramujo vazia s costas - 
ia levando-a para dentro do balde, com certeza para quebr-la e fazer pratinhos.   Logo   em   seguida   apareceram mais dois, com uma vara ao ombro e pendurada 
nela vinha uma minhoca se mexendo. Subiram por um talude e se foram na direo dos varais da charqueada. O talude era um belo trabalho de engenharia. Eles foram 
acumulando terra junto ao fio da calada e assim construram um plano inclinado que ia se alargando  medida que descia. Em cima da calada havia uma escadinha, 
dando para um pequeno rombo do velho balde. Era a porta de entrada.
        -  Olhe, Visconde!  - gritou  Emlia apontando. - Eles tiveram a mesma idia que eu.
        O Visconde olhou e viu dois homenzinhos tocando um besouro - um puxava-o pelo cabresto, outro empurrava-o.
        -  Aquilo talvez seja o primeiro passo para a domesticao dos insetos - observou o Visconde. - Eles vo fazer a experincia com um coleptero.  O sistema 
das asas dobrveis e guardveis dentro dos litros j lhes atraiu a ateno. Acho naturalssimo   que   comecem   pelos   besouros.
         beira da calada um homenzinho de tanga, com ar de chefe, dirigia os servios. Seu guarda-sol era uma folhinha de trevo.
        -  L no stio Dona Benta vivia arrenegando esse trevo de jardim que ns chamamos   "azedinhas".   Dizia   que   era uma praga.   Hoje so preciosos ps 
de guarda-sis. Vamos conversar com aquele homem. Est me dando idia de Robinson em sua ilha.
        O Visconde saiu de trs da moita e aproximou-se do balde. Foi um pnico. Todos largaram do servio e correram a esconder-se. O besouro no cabresto abriu 
as asas e fugiu. A minhoca, livre do varal, l se foi pelo cho, muito depressa, que nem uma cobrinha. O chefe jogou fora o guarda-sol e tambm correu.
        O Visconde agarrou-o antes que chegasse ao talude e botou-o na aba da cartola, diante da janelinha da Emlia.
        -  No tenha medo, disse esta. - Somos de paz.
        O apavorado Robinson ficou algum tempo sem fala, tamanho havia sido o seu susto. As palavras de Emlia, porm, o foram sossegando, e ele por fim perguntou 
a meia voz quem era aquele gigante.
        Emlia riu-se e respondeu:
        -  A melhor e maior criatura do mundo, meu caro senhor inseto.  Dele no vem mal a ningum.  milho. E eu? Ah, ah, ah! Eu sou a "me da criana".
        O homenzinho ficou na mesma. Emlia queria dizer que era ela a autora da prodigiosa transformao da humanidade.
        Depois de alguma prosa, Emlia pediu ao Visconde que depusesse a cartola na calada, pois queria conhecer de perto a vidinha dos habitantes do balde.
        O Visconde assim fez. Deps a cartola na calada. Emlia saiu pela porta e, dando a mo ao chefe, encaminhou-se para o talude.
        -  E o senhor quem ? - perguntou pelo caminho.
        -  Eu era o Doutor Barnes, professor de   antropologia   na   Universidade   de Princeton;   hoje  sou  o  dirigente  deste grupo humano. Elegeram-me chefe, 
porque acham que tenho muito boa cabea.
        -  E tem?
        O Doutor Barnes riu-se.
        -  Sei que tenho minha cabea no lugar, e vou conduzindo como posso este curioso trabalho de adaptao dum grupo de pessoas altamente civilizadas. Perdemos 
o tamanho e...
        -  Perderam o tamanho? timo! - exclamou Emlia com entusiasmo. - Estou encantada de ouvir um sbio como o senhor falar assim, porque os ignorantes pensam 
de modo contrrio. Acham que se conservam tamanhudos como sempre e que as coisas em redor  que aumentaram.
        -  Absurdo!  - exclamou o sbio de Princeton, depois de rir-se do "tamanhudo". - Um aumento de todas as coisas  uma idia que a cincia no pode aceitar, 
mas  a  cincia pode perfeitamente aceitar a idia da reduo do tamanho duma espcie de animais.
        -  Eu sei que  assim - declarou Emlia - mas quando quis provar isso quela tia Febrnia do Major Apolinrio, confesso que engasguei.
        -   que voc no  bem cientfica, minha menina. Qualquer sbio sabe que as espcies animais tm variado de tamanho no curso da evoluo. Os cavalos j 
foram do tamanho de ces e cresceram. Os tatus j foram enormes e hoje esto pequenininhos.
        -  Eu vi no museu uma casca de tatu fssil dentro da qual todos l do stio podamos nos esconder da chuva.
        -  Perfeitamente. Ora, isso quer dizer que a reduo do tamanho duma espcie no  fenmeno desconhecido -  at bem vulgar. A novidade, porm,  que, nos 
casos de reduo de tamanho que a cincia verificou, o fenmeno foi acontecendo aos poucos, no decorrer de milhares de anos; e neste caso da humanidade o fenmeno 
ocorreu de um momento para outro. Todas as teorias da evoluo que eu conheo no previram esta hiptese da reduo instantnea.
        -  Nem eu, quanto mais as teorias! Quando abaixei a chave, pensei em tudo, menos nisso.
        O Doutor no entendeu aquela histria de chave.
        Chegados ao rombo do balde, entraram.
        Tudo muito bem arranjadinho l dentro. O Doutor Barnes era de fato um chefe digno do cargo. Tinha dirigido a construo do talude e tambm dirigira a obra 
do calafetamento da fresta entre a beirada do balde e a calada. Emlia observou o trabalho.
        -  Que massa  esta?
        -  Massa de papel - respondeu o Doutor Barnes. - Encontramos no jardim um jornal velho.  um dos melhores materiais de construo de que dispomos. Note que 
tudo aqui  de papel ou massa de papel.
        Emlia viu qu o cimento do cho estava atapetado de papel de jornal, e que havia bancos feitos de quadradinhos de papel superpostos e colados. A grande 
mesa de centro era feita do mesmo modo, e tambm as camas e muitas coisas mais.
        -  E como junta as folhas de papel?
        -  Nada mais simples. Depois de cortadas  do mesmo  tamanho   (cortamo-las com um caquinho de vidro), pomos umas em cima das outras coladas com o nosso cola-tudo, 
que  a resina de uma rvore a do jardim.
        -  E  a  massa  com  que  calafetou  as fendas?
        -  Massa de papel. Deixamos pedaos de papel dentro dgua at que fiquem quase desfeitos. Depois amassamos aquilo com a resina, como se amassa o trigo para 
o po. Obtemos uma substncia tima para mil coisas - uma excelente matria plstica.  mais ou menos o que usam as vespas  na construo de seus ninhos.
        A luz descia por um rombo do balde.
        -  Aquilo ali - disse o Doutor Barnes apontando - est sendo uma das minhas maiores preocupaes. Foi excelente que houvesse  tal  rombo,  pois do contrrio 
no teramos luz aqui dentro. Mas quando chover?
        -  Ainda no choveu por aqui desde o dia do apequenamento? L na estrada do stio j houve um dilvio.
        -  Ainda no - mas dum momento para   outro  chove   e   como  vamos   nos arranjar? Se pudssemos colocar naquele rombo um vidro, seria a maravilha das 
maravilhas. Vidro, vidro!  Quem somos ns hoje para lidar com vidros?
        -  Alm de que h a altura - lembrou Emlia.
        -  A altura no  o pior. No viu do lado de fora uma comprida escada de pau? Mandei faz-la justamente para que eu em pessoa pudesse examinar a situao 
do rombo.
        Emlia teve uma idia.
         -  Plante uma orelha-de-pau em cima do rombo, como fiz sobre minha janela na cartola do Visconde.
        O Doutor Barnes riu-se.
        -  Impossvel, menininha. O balde  de metal. Os cogumelos no nascem nos metais.
        -  No precisa que nasam. Basta que pregue um  com o seu colatudo. Vou mandar o Visconde resolver esse problema. Sossegue.
        O Doutor Barnes apresentou Emlia aos habitantes de Pail City, ou a Cidade do Balde. Havia l umas vinte pessoas, entre homens, mulheres e crianas, todos 
de tanguinhas - umas de papel, outras de musgo.
        -  Estou fazendo uma srie de experincias para verificar a melhor substncia para tangas - disse o Doutor. - Todas as que esto em uso so provisrias e 
experimentais. Um dos meus companheiros, que  qumico, anda pensando numa tanga sinttica.
        -  Isso  bobagem - disse Emlia. - O algodo resolveu tudo - e contou as suas aventuras no tempo do chumao. E ainda conservo as botinhas de algodo endurecido 
com clara de ovo de beija--flor, concluiu espichando um p.
        O Doutor Barnes abaixou-se para ver e chamou o qumico.
        -  Excelente! - disse este. - Mas a maada  que no temos por aqui clara de ovo de beija-flor, nem algodo.
        -  Eu tenho - berrou Emlia. - No meu quarto de badulaques na cartola do Visconde tenho algodo e um ovo pelo meio. Como s fao caso da gema, o senhor pode 
ir l e retirar toda a clara - mas s metade do algodo.
        O qumico foi - e Pail City enriqueceu-se de mais dois materiais de grande nmero de empregos.
        -  E a alimentao? - perguntou Emlia.
        -   o que menos me preocupa - respondeu o Doutor Barnes. - No comeo pensei no mel das flores; depois desisti da idia. H a dificuldade de chegar at s 
flores, sempre to altas, e o perigo de nos expormos ao ataque das aves e vespas. E h ainda as estaes sem flores. Depois de muito refletir, fixei-me nas minhocas 
como o alimento bsico da humanidade reduzida. A caa  fcil, porque em certas pocas as minhocas saem espontaneamente da terra; e como secam muito bem ao sol, 
j organizei um servio de caa e charqueamento de minhocas, para uso nos tempos de escassez. Tenho ali - e apontou para um depsito - uma reserva de vinte minhocas 
charqueadas, o suficiente para nossa alimentao durante um ms. Mesmo assim no paramos de ca-las. Ainda hoje apanhamos uma, que fugiu.
        -  Eu vi. Mas que gosto tem carne-seca de minhoca?
        -  Isso de gosto  questo de hbito. No comeo houve por aqui muito focinho torcido. Agora j comemos minhoca seca sem a menor repugnncia - e eu at acho 
uma delcia. Tem um gostinho muito especial.
        -  De qu?
        
        
        -  De minhoca. Quimicamente  uma carne como outra qualquer. E como as minhocas possuem dez coraes e cem rins, tambm organizei um servio de tirada de 
coraes e rins de minhoca. J  um   alimento  mais   especializado,   bom sobretudo para as crianas.
        -  E comem-nas cruas?
        -  Sim. Felizmente estamos livres daquela peste chamada fogo, que foi a verdadeira perdio da humanidade.
        -  Por que, Doutor?
        Nesse momento foram interrompidos por um mensageiro.
        -  Dona Emlia, o Visconde est chamando a senhora - disse ele.
        
        
     XXI
     
     A ordem nova
     
        
        Saram do balde. O Visconde queria conversar com o Doutor sobre certos pontos que o preocupavam. Para isso deitou-se na calada, com o rosto na mo e o cotovelo 
no cimento.
        -  Estou gostando da sua  "atividade adaptativa",   Doutor.   Fazer  tanta  coisa em to pouco tempo at me parece milagre. Acha que o homem pode subsistir, 
assim reduzido de tamanho?
        -  Perfeitamente. No s subsistir, como at criar uma nova civilizao muito mais agradvel que a velha - sem os horrores da desigualdade social da fome, 
das blitzkriegs e das inteis complicaes criadas pelos inventos mecnicos.
        -   como eu penso - berrou Emlia.
        -  As minhas concluses - continuou o sbio - resumo-as em poucas palavras. Aquele tipo de civilizao que havamos realizado era uma simples conseqncia 
do fogo. Enquanto o homem no descobriu o fogo, viveu muito bem dentro da lei biolgica,  a civilizar-se lentamente. Veio o fogo e tudo mudou - comeou o galope 
sem fim. Que eram aqueles monstruosos arranha-cus deste pas, que era a blitzkrieg dos alemes, que era a nossa pressa de transporte e comunicao por meio de trens, 
avies, navios, telgrafos, telefone e rdio, seno uma conseqncia do fogo? Apague-se o fogo e tudo desaparece.
        -  Isso no - protestou Emlia. - O rdio no dependia do fogo.
        -  Erro seu, minha filha. O rdio dependia da eletricidade, e para produzir eletricidade tnhamos de usar turbinas e dnamos, coisas feitas de ferro - e 
quem  o pai do ferro? O fogo.
        Emlia embatucou.
        -   Tudo  naquela civilizao era um produto do ferro, continuou o sbio, e o ferro era filho do fogo. Felizmente estamos livres do fogo, como eu ia dizendo 
quando o mensageiro nos interrompeu. Estamos livres do fogo e do seu filho o ferro e das mil reinaes que os dois faziam no mundo, como as grandes guerras em que 
tudo era ferro e fogo. Estamos livres at da tremenda multiplicao dos homens sobre o planeta.
        -  Como?
        -  Foi o fogo que  permitiu aos homens viverem em todos os climas e no apenas nos que lhes convinham naturalmente. Sem o fogo o homem s viveria nas zonas 
temperadas, as boas, e nunca nas zonas frias. E portanto haveria menos gente na terra - outra enorme vantagem tanto para o prprio homem como para os animais. E 
h ainda outro aspecto muito importante do fogo: os seus efeitos na alimentao humana. Graas ao fogo o homem pde tornar comestveis muitas coisas que no eram, 
e isso ainda aumentou a populao humana no planeta, porque aumentou enormemente as possibilidades de alimentao. De modo que do fogo veio o calamitoso aumento 
da populao humana, no s permitindo a invaso das regies frias, como tambm transformando em comestveis coisas que no eram naturalmente comestveis. Quanto 
mais espao vital e mais comida, mais gente. E veio o tal ferro que ia levando a humanidade ao mais desastroso fim. Que foi a ltima guerra seno o desabamento em 
cima do homem de toda a civilizao baseada no ferro, sob forma de tanques, canhes, fuzis, metralhadoras, bombas areas etc? Sempre o ferro e o seu maldito pai 
fogo! Ora um, ora outro, quase sempre os dois juntos, no faziam outra coisa seno torturar os homens. Numa bomba area que os avies derrubavam sobre Londres, o 
fogo vinha dormindo dentro do ferro. Quando o ferro da bomba chegava ao cho, o pai dele l dentro acordava e, Bum! explodia e arrebentava tudo - e eram mortes e 
mais mortes, criancinhas despedaadas, um horror! Nos incndios o fogo trabalhava sozinho, danava a sua horrvel dana de chamas sobre casas e mais casas, sobre 
ruas inteiras, s vezes sobre cidades inteiras.
        -  E nas baionetas, espadas, punhais, facas, chuos, lanas, esporas, espetos, era o ferro sozinho que judiava dos homens, dos cavalos  e dos  frangos,  
acrescentou Emlia.
        -  Pois  - continuou o sbio. - Estou convenciono de que a desgraa da velha civilizao veio das conseqncias sociais do fogo. Sempre pensei assim, porque 
sempre vivi na terra mais atormentada pelas reinaes do fogo e do ferro: essa infinidade   de   mquinas   que   aqui   na Amrica nos fazia tropicar num galope 
sem fim - para que, meu Deus, para chegar ao qu? Imaginem, pois, o meu gosto quando sobreveio este sbito fenmeno da reduo do tamanho - o maravilhoso-remdio 
para o caminho errado em que o Homo sapiens se havia metido desde a descoberta do fogo.
        Emlia rebolou-se de contentamento, radiante de ter sido ela a descobridora do "maravilhoso remdio".
        -  Sim - concordou o Visconde. - Todas as outras espcies animais vivem muito bem neste mundo sem recorrer ao fogo. O Homo sapiens foi o nico a entrar por 
esse caminho.
        -  Um caminho errado - insistiu o Doutor. Livres do fogo, ns vamos agora construir uma civilizao muito mais natural e vantajosa para ns mesmos - sem 
guerras, sem mquinas, sem aquele desvario das invenes que nos iam levando para o belelu.
        -  Iam  levando  no  senhor -  disse Emlia. - Que levou! Aquela civilizao est por a em cacos - cacos de automveis, cacos de avies, cacos de trens, 
cacos de navio e cacos de idias - como a velha idia de leo  ou  a  idia de pinto.   E  as mquinas de todas as fbricas logo estaro  enferrujadas.  E  as  cidades 
viraro runas cobertas de mato. Mas ns poderemos continuar a viver perfeitamente, comendo minhocas em vez de bois, mel de flores em vez de cocadas, e a voar a 
cavalo em besouros em vez de correr em automveis.
        -  Isso mesmo - concordou o Doutor. - Ser regressarmos ao perodo da evoluo humana anterior  descoberta do fogo, mas com toda a nossa bela cincia na 
cabea - e podemos ser muito mais felizes que os nossos avs daquele tempo. Olhe, disse ele apontando para os homenzinhos que construam um cercado para besouro 
rente  calada. Um segura o espinho-moiro, outro bate com  um malho. Que  aquele malho? Um velho instrumento do homem do perodo da pedra lascada - um pedregulho 
aqui do jardim que eles amarraram num cabo.
        -  Mas a cincia vai levar a breca, porque a cincia est nos livros e os livros j no  podem  ser usados  - observou Emlia. - Pedrinho fez a experincia 
l na cmoda. Leu dois ou trs perodos dum livro e cansou.
        -  Para tudo haver jeitos. Antes de existirem os livros j existia cultura. Temos as nossas cabeas, e dentro delas a memria. Iremos transmitindo a cincia 
de uma cabea para outra. E muita coisa poderemos escrever em palhinhas ou ptalas secas.
        -  Papirinhos!
         -  Sim - e mandou buscar l dentro o seu livro de notas. - Aqui tem, disse ele mostrando um caderno de dez folhas de ptalas de rosa. Cortei as ptalas 
em retngulos e deixei-as ao sol prensadas entre  dois  pedacinhos   de  vidro  a  do cho. Secaram sem enrugar.
        -  E para escrever?
        -  Usei um finssimo espinho de figo da Berbria. A tinta foi o caldo duma frutinha   preta   muito   abundante   por aqui.
        Emlia admirou aquele livro de ptalas de rosa, que talvez fosse o livro nmero um da nova humanidade.
        -  E  que  acha  da  domesticao  dos besouros? - quis saber.
        -  Acho uma idia excelente e j mandei apanhar um para comeo de estudo. A variedade de insetos  enorme. Estou convencido de que encontraremos inmeros 
aproveitveis e preciosssimos, no s para o vo, como para o transporte de cargas.
        
         
        -  Para o transporte de cargas nem h necessidade de estudo - disse Emlia. - As   formigas   nasceram  carregadoras.   E que fora elas temi L no stio 
vi savas carregando gros de milho inteiros, uma coisa muito mais pesada que elas. E Pedrinho atrelava besouros em caixas de fsforos com muita coisa dentro - e 
eles puxavam. A fora dos besouros  incrvel. E para as grandes velocidades teremos as libelinhas.
        -  No vamos ter preciso de velocidade nem de pressa - volveu o Doutor Barnes. - Graas a Deus j estamos livres desses dois  horrores.  Para  que  pressa? 
Para que velocidade? Toda aquela imensa velocidade alcanada pelos homens tamanhudos, como voc diz, s serviu para precipit-los no abismo da matana em massa. 
As nossas possibilidades de domesticao dos insetos parecem-me infinitas.
        Emlia desembestou:
        -  Isso   mesmo!    Domesticaremos   os serra-paus, para serrar paus. E as brocas das laranjeiras para servirem de verrumas. E os mede-palmos para as medies. 
E os pernilongos para a a msica do fiun. E os gafanhotos para substiturem as pontes - pularemos riozinhos montados neles! E os caranguejos para abrirem tneis. 
E as taturanas para tecerem fios de casulo. E as mamangavas para buldogues das nossas casinhas. Com uma boa mamangava amarrada no quintal, quero ver quem entra! 
E os pulges para termos leite de vaca.
        -  Sim - concordou o sbio. - As formigas esto nos indicando esse caminho. Elas tratam os pulges exatamente como os homens tratavam as vacas. Os pulges 
chupam a seiva adocicada de certas plantas e parece que se enchem demais. Ficam estufadinhos - e at gostam quando uma formiga chega e lhes tira aquele mel, como 
os leiteiros tiravam o leite de vacas. No inverno elas recolhem os pulges aos formigueiros, como os homens recolhiam as vacas aos estbulos. L ficam eles bem defendidos 
do frio. Se faz um belo dia de sol, as formigas os levam para fora, para junto das tais plantinhas de seiva doce - e eles se enchem daquele leite com que as formigas 
se regalam.
        -  Podemos utilizar esses pulges como mamadeiras para as nossas crianas - lembrou Emlia.
        O Doutor Barnes concordou. Aquele sbio era uma verdadeira Emlia masculina. Sua imaginao tambm disparava de freio nos dentes. Depois se referiu aos cupins.
        -  Com as trmites, que so as formigas brancas - disse ele - temos muita coisa   a   aprender.   Esses   insetos   constroem maravilhosas cidades de barro 
- os cupins - onde vivem aos milheiros. Amassam o  barro dum  tal  modo que essas cidades resistem a todas as chuvas durante anos e anos. Dentro constroem galerias 
com uma substncia preta, que  a celulose das plantas mascada e misturada com qualquer lquido colante que no sei. O que sei  que aquilo equivale a um maravilhoso 
material de construo, resistente, elstico, mau condutor do calor, higinico. Tambm revelam uma alta cincia na construo das galerias e ninhos e salas e tudo 
mais. O asseio e a higiene dos cupins era uma das maravilhas que mais assombravam os entomologistas.
        -  Eu sei o que  entomologista! - berrou Emlia. -  o sbio que estuda inseto.
        O Doutor Barnes riu-se.
        -  E tambm podemos cultivar aqueles fungos de que as formigas se alimentam. Meu Deus! Que  que no poderemos fazer com a nossa inteligncia, mergulhados 
na infinita abundncia de materiais que daqui por diante vamos ter  nossa disposio?
        -  Isso mesmo - concluiu o Visconde. - O Tamanho era o mal. Produzia escassez.  no destamanho que est a abundncia.
        Aquela histria de andar com a Emlia em cima da cabea estava "emiliando" o Visconde. - Destamanho!  boa.
        
        
        
                   2
     
     
     XXII
     
     Na Casa Branca
        
        A vida em Pail City era um encanto. Ningum tinha pressa de nada. Iam construindo coisas por prazer e no por necessidade, como no tempo tamanhudo, em que 
os homens que no morriam no trabalho morriam de fome e misria. Aquele jardim imenso dava-lhes de graa tudo quanto era necessrio  vida - ar, gua, alimento e 
materiais de construo.
        Alm do cercado para os besouros haviam construdo um parque de recreio onde gozavam a vida nas horas de temperatura agradvel. Emlia encantou-se com o 
parque de Pail City, um verdadeiro mimo de plantinhas graciosas. Havia vrios cogumelos com assentos embaixo, nos quais as damas de tanga foram sentar-se para emendar 
e torcer as fibras de algodo que ela lhes dera. Entre um chapu-de-sapo e outro, Emlia viu uma rede com uma estrela de cinema dentro, a balanar-se com uma estrelinha 
ao colo. Pail City ficava perto de Los Angeles.
        Junto ao jardim havia um pomar de laranjeiras. Eles tinham conseguido rolar para ali uma laranja encontrada no cho. Abriram-na. Desfizeram um gomo e levaram 
para o bar do parque as "garrafinhas" de caldo. L estavam elas sobre um balco de pedregulho. Quem tinha sede, tomava um daqueles pequenos odres transparentes, 
cortava o bico e bebia  moda dos espanhis, despejando-o na garganta.
        Emlia levou vrias garrafinhas de laranja para o seu quarto de badulaques na cartola do Visconde.
        O Doutor. Barnes aproveitou o bom gigante para vrias coisas da maior emergncia, como a colocao do vidro no rombo do balde. Houve embarao na escolha 
da cola. Com que cola colar o vidro?
        Quem resolveu o problema foi a Emlia.
        - D um passeio pelas ruas da cidade e procure "mascadinhos" de chiclete debaixo dos montes de roupa. Juro que encontrar muitos. Melhor cola no h.
        O Visconde assim fez. Saiu do jardim e percorreu a rua prxima, levantando os montes de roupa sem gente dentro - e voltou com um punhado de "mascadinhos" 
de chiclete.
        Os habitantes de Pail City juntaram-se na calada para assistir ao glorioso acontecimento da colocao do vidro pelo providencial gigante - e o Doutor Barnes 
inscreveu em seu caderno de ptalas o nome do Visconde de Sabugosa como o grande benfeitor da cidade.
        Nada mais tendo a fazer ali, despediram-se. O Doutor Barnes declarou que aquela visita iria permanecer gravada em tados os coraes. Emlia sentiu um n 
na garganta. Por sua vontade ficaria morando ali para sempre. Uma das conseqncias do conhecimento de Pail City foi a resoluo que ela tomou de "sabotar o Tamanho" 
no dia do plebiscito, porque entre outras desgraas o Tamanho viria estragar aquele lindo comeo de cidade.
        Por fim, depois de muitos abraos e beijos, e troca de presentinhos, o Visconde cheirou um gro de superp e - fiunnn!... Washington.
        Foram parar exatamente na rua do palcio onde sempre residiram os presidentes americanos. Tudo deserto, como em toda parte. Montinhos e mais montinhos de 
roupas, com chapus em cima, guarda-chuvas, culos e dentaduras.
        Ao entrar no jardim da Casa Branca, o Visconde lembrou-se do Presidente Lincoln, do qual ele havia herdado a cartola. Dona Benta era a maior admiradora desse 
homem. Dizia sempre: "Depois de Jesus Cristo, o ente que eu mais venero  Abrao Lincoln."
        Com os olhos nas janelas do palcio o Visconde murmurou, como que falando para si mesmo;
        - Ali   estiveram   assentados   os   dois enormes ps do velho Abe...
        -  Que histria  essa? - gritou Emlia da janelinha.
        -   um caso histrico que vem nos livros. Um sacerdote tinha vindo em procura do Presidente. Ao entrar neste jardim, viu numa dessas janelas dois pares 
de ps com as solas para fora. "Que  aquilo?"   perguntou   ao  jardineiro   que podava as plantas.  " uma reunio do Ministrio", respondeu o homem.  "Os dois 
ps grandes so os do velho Abe." Abe  era  o  apelido  popular  do  nome Abrao.
        Emlia comoveu-se com a histria.
        Entraram. Todas as portas abertas. Aqui e ali, os eternos montes de roupas que eles estavam cansados de ver por toda parte. Foram andando pelos corredores 
e salas. Numa, que devia ser a das reunies do governo, o Visconde parou e espiou, escondido atrs do reposteiro. Sobre o tapete, por entre as roupas em monte, um 
pequeno grupo de insetos descascados discutia a situao. Era o governo americano. Um dos ministros tinha a palavra.
        -  O governo j no existe - dizia ele - pela simples razo de que j no existe o que governar. O extraordinrio fenmeno que destruiu o tamanho dos homens 
desta  grande   nao  veio  alterar completamente as antigas condies de vida - e impossibilitar a existncia do governo. O governo americano, que era o mais poderoso 
do mundo, est hoje nu, com frio, sem sequer uma tanga para os rins, sem sombra de povo, sem fora, sem a menor idia na cabea. Quais so hoje os   problemas   
do   governo   americano? pergunto eu, e olhou para o Presidente.
        -  Ele  bom orador, cochichou Emlia. Aquilo  discurso.
        -  Sim - continuou o ministro. - Eu pergunto ao Senhor Presidente quais so os   problemas   do   governo   americano? Qual  o problema nmero um, que devemos 
abordar antes de todos os outros?
        O Presidente respondeu que j haviam decidido aquele ponto. O problema nmero um do governo americano, o problema que tinha vindo substituir o da luta contra 
o Japo e a Alemanha, era fechar a janela da sala e manter o fogo da lareira.
        -  Por enquanto o palcio ainda est aquecido - disse ele - mas logo que as fornalhas do aquecimento l nos pores se apagarem e as brasas da lareira se 
extinguirem,   estaremos    inexoravelmente condenados ao congelamento. Os problemas so esses.
        Outro ministro pediu a palavra.
        -  Meus senhores, acho que no podemos prever coisa nenhuma. A situao  das mais absurdas e ilgicas. Sinto-me completamente incapaz de raciocnio. As 
observaes do Senhor Presidente sobre as   brasas,   entretanto,   parecem-me   das mais sensatas. Estamos no inverno. Se as brasas da lareira se apagarem, o governo 
americano estar perdido. H tambm o caso da janela. Como poderemos resistir ao frio, se as brasas se extinguirem e a maldita janela continuar escancarada?
        Foi neste momento que o Visconde saiu detrs do reposteiro e adiantou-se para o tapete.
        A inesperada apario daquele formidvel gigante deixou os ministros sem fala. Todos os olhos se arregalaram e todas as bocas se abriram.
        Emlia pediu ao Visconde que a arrias-se. O Visconde deps a cartola-stio no tapete, perto do governo americano. Emlia saiu pela portinha, adiantou-se, 
apertou a mo do Presidente e disse:
        -  No se assuste, pois somos de paz e velhos conhecidos. Tanto eu como Senhor Visconde de Sabugosa j estivemos aqui neste palcio h uns cinco anos, em 
companhia de Dona Benta e seus netos.
        No se recorda, Senhor Presidente 3. O Presidente franziu a testa. Comeou a lembrar-se.
        -  Sim, lembro-me da visita de Dona Benta e seus netos. Veio tambm uma bonequinha falante e um milho de cartola. Mas aquele Visconde era um sabugo de pernas 
e no esse tremendo gigante que agora surge diante de ns.
        -  Pois fique sabendo que  o mesmo. O Visconde que  um vegetal, no diminuiu como ns, que somos gente - e por isso parece agora um verdadeiro gigante. 
E eu sou a "evoluo genial"  daquela bonequinha pernstica.
        -  Como?
        -  Artes do mistrio. Fui virando gentinha e gente sou; belisco-me e sinto a dor da carne. E tambm como. J o Visconde  permaneceu  milho.   Fala,  pensa, 
raciocina muito bem, sabe todas as coisas, mas no come nem sente dor de belisco.
             
        
     XXIII
     
     Ainda l
     
        O governo americano no voltava a si do assombro. Aquilo era um milagre ainda maior que o sbito apequena-mento. Emlia contou o que tinha visto na Europa 
e na sia, o seu encontro com o Grande Ditador e com o Filho do Sol na tampa de caneta; falou da destruio pelo frio dos exrcitos em luta na Rssia e depois desfiou 
toda a histria do Doutor Barnes, fundador de Pail City.
        O prprio ministro dos Correios ignorava o nome daquela cidade. Emlia explicou.
        -  Ah,  uma galanteza de cidade nova que est se formando em volta dum balde velho - sem pressa, sem galopes, sem ferro, sem fogo. Como as cidades imensas 
da civilizao tamanhuda esto condenadas a desaparecer, invadidas pelo mato, a civilizao nova j comeou a criar cidades dum tipo novo - e entre as muitas que 
j devem estar .em formao duvido  que   haja   uma   melhor  que   Pail City. At rvores de guarda-sis vi l. Quem precisa de um, no vai a nenhuma loja compr-lo. 
Chega  rvore, escolhe um do tamanho desejado e colhe-o.
        Os ministros entreolharam-se. Se a cidade de Washington estava destinada a desaparecer invadida pelo mato, nada mais razovel do que irem admitindo a hiptese 
da mudana do governo para Pail City, o maravilhoso centro em formao onde at havia ps de guarda-sis.
        O ministro das Obras Pblicas teve uma idia.
        -  Senhor   Presidente!   A   inesperada visita deste formidvel e pacfico gigante vem permitir a soluo dos dois grandes problemas  do governo  americano, 
por que no tenho dvidas de que ele poder fechar a janela e tambm obter lenha para a lareira. Tomo a liberdade de sugerir ao Senhor Presidente uma consulta ao 
nobre visitante sobre esses dois pontos.
        -  Nada   mais   simples   -  respondeu Emlia. - X) Visconde vai fechar a janela e trazer lenha para a lareira - e ainda far muitssimas outras coisas 
preciosas para o governo americano. Duma loja da esquina poder trazer uma infinidade de materiais utilssimos,  como,  por exemplo, algodo para tangas. Acho da 
mais alta inconvenincia que o governo americano ainda no tenha nem tanga - coisa que j est em moda em Pail City e l na cmoda de Dona Benta. Alm de servir 
para tanga, o algodo, sob forma de chumao, constitui uma excelente defesa contra o frio - e contou as suas aventuras no tempo do chumao. E para a alimentao 
o governo poder organizar um servio de minhocas secas.
        -  Minhocas? - exclamou o Presidente, refranzindo a testa.
        Emlia repetiu as palavras do Doutor Barnes sobre o valor das minhocas como substituto dos velhos bois produtores de carne de vaca.
        -  Mas isso  para mais tarde - explicou ela - para quando se acabarem os alimentos comuns ainda existentes nos emprios das esquinas - acar, queijo, po 
etc. Esses alimentos ainda duraro alguns   dias;   depois   que   desaparecerem, estragados pelo bolor ou devorados pela cachorrada e a gataria solta, os senhores 
podero pensar nas minhocas. O Doutor Barnes demonstra que vai ser esse o alimento bsico da humanidade reduzida.
        A conferncia de Emlia com o governo americano prolongou-se por uma hora. O ar de desespero dos ministros foi mudando. Mostraram-se mais contentes e felizes. 
As possibilidades da civilizao nova eram realmente encantadoras.
        Enquanto ela falava, o Visconde saiu para buscar o algodo e mais coisas. Apareceu minutos depois com uma cesta de preciosidades - alfinetes, botes, grampos, 
um carretel de linha, uma lmina Gillette, uma, lanterninha eltrica, carrinhos e outros brinquedos midos, um rolo de esparadrapo etc. etc. E dum emprio de comestveis 
trouxe um pacotinho de acar, uma fatia de queijo, um pedacinho de po e uma garrafa de coca-cola.
        Aquele formidvel abastecimento deixou o governo americano em situao de agentar um ms sem recorrer s minhocas. Em seguida ela mandou o Visconde buscar 
algumas cestas de povo.
        -  Sim, porque no posso compreender um governo do povo, pelo povo e para povo, sem povo nenhum - disse ela. - Vou dar povo ao governo americano.
        O Visconde saiu e com um pauzinho andou catando gente de todas as frestas e buracos que encontrou. Conseguiu assim dotar o governo americano com um lote 
de povo de 120 cabeas - 60 homens e 60 mulheres.
        Emlia aproveitou a ocasio para revelar os seus conhecimentos da histria americana.
        -  O navio Mayflower - disse ela - despejou neste pas um carregamento de 120 peregrinos ingleses, dos quais saiu esta grande repblica. O Mayflower de agora 
 a cesta do Visconde. Fao votos para que o governo americano consiga realizar com os 120 peregrinos do Visconde os mesmos milagres realizados com os peregrinos 
do Mayflower.
        Os ministros estavam encantados com as geniais solues da Emlia e do gigante. Cochicharam entre si; um adiantou-se e disse:
        -  Estou autorizado pelo Presidente a propor ao Senhor Visconde de Sabugosa um grande negcio: ficar aqui a servio do governo americano. No discutimos 
preo. O Senhor Sabugosa ganhar quantos dlares quiser.
        Esse ministro ainda no se acostumara com a Ordem Nova. Ainda estava com as idias velhas na cabea. Dlares! Tinha graa.
        Emlia riu-se.
        -  De que valem dlares, senhor ministro? Tudo est mudado. Aquele ouro que antigamente era de tanto valor, vale agora menos que um chumacinho de algodo. 
O Visconde ficaria aqui com o maior prazer, se no fosse to necessrio na cmoda de Dona Benta. Mas podemos fazer um arranjo. Todas as semanas ele vir, por uma 
hora ou duas fazer os servios do governo americano. E se houver trabalhos que exijam grande fora fsica poderei mandar tambm o Conselheiro e o Quindim.
        Ningum sabia que personagens eram aqueles. Emlia explicou.
        -  O Conselheiro  o nosso burro falante, criatura excelente, o mais discreto pensador que temos daquelas bandas. E Quindim    um  verdadeiro  tanque  de 
carne.
        -  Tanque de carne? - repetiu o Presidente.
        -  Sim.    Trata-se    dum    rinoceronte mansssimo e fortssimo,  que mora no Picapau Amarelo. Para fazer fora bruta, no   h   segundo.   Com   uma 
chifrada arromba at a porta do Tesouro.
        Aquela histria do Quindim e do burro falante atrapalhou o governo.
        -  Sim - continuou Emlia - lendo na cara de todos a atrapalhao. Quindim  um assombro no transporte. Poder sem o menor esforo conduzir no lombo vinte 
mil insetos descascados. Se o governo americano pilhar esse veculo, estar servido pelo resto da vida. Quem no obedecer a um governo dotado de um rinoceronte?
        A hiptese entusiasmou o ministro da Guerra. Um tanque de carne! Que maravilha!
        -  Bom - disse Emlia por fim. - Tenho de voltar para a cmoda a fim de realizar o plebiscito. Agradeo ao governo americano a boa acolhida com que nos recebeu. 
Tomo a liberdade de oferecer ao Senhor Presidente uma pitadinha de superp. Quando quiser repousar das   canseiras   do   governo,   aspire   trs gros e aparea 
no Picapau Amarelo.
        -   ento como o tapete mgico das "Mil e Uma Noites"? - perguntou o Presidente.
         
         
        
        
        -  Ah, muito melhor! Aquele tapete  um carro de boi perto disto. Agora, por exemplo, para voltarmos ao Picapau, bastam-nos trs gros apenas. Para irmos 
 Casa das Chaves so precisos seis gros - mas tambm aquilo l deve ser o fim do mundo.
        -  Que histria de Casa das Chaves  essa?
        Emlia suspirou.
        -  Um segredo que no posso revelar, Senhor Presidente.
        -  Por qu?
        -  Porque eu correria o risco de ser linchada.
        No momento das despedidas o governo americano at perdeu a fala de tanta emoo. De que modo agradecer os servios que Emlia e o Visconde haviam prestado?
        -  No fale, Senhor Presidente! - disse Emlia entrando na cartola e plantando-se na janelinha. - As grandes gratides so mudas. Seja feliz e goze do apequenamento, 
porque se o plebiscito decidir que d o Elefante, eu sentirei muito, mas farei que saia o Elefante.
        A cara de todos era um verdadeiro ponto de interrogao. Aqueles homens de Estado cada vez entendiam menos.
        -  Dar o Elefante, Senhor Presidente, quer dizer dar o Tamanho. Mas quem vai decidir esse ponto  l o Plebiscito em cima da cmoda. Sou democrtica. No 
resolvo nada sem a contagem dos narizes. Good bye! Good bye!       
        Todos ficaram na mesma. O Visconde tirou do bolso a caixinha do superp, deu meio gro a Emlia e reservou trs para si. Ambos aspiraram o p ao mesmo tempo, 
enquanto diziam mentalmente: "Stio."
        
        
        
     
     
     
     
     
     XXIV
     
     O plebiscito
        
         Fiunnn...n...n...n...n... Plaft! O Visconde caiu sentado na varanda do Pica-pau Amarelo. O Conselheiro rinchou de alegria e veio num trote muito delicado.
        -  No houve nada de mais por aqui? - perguntou Emlia pela boca do seu alto-falante.
        -  O pinto sura andou querendo entrar, mas toquei-o - respondeu o burro.
        -  E Rabic?
        -  Esse no apareceu.
        O Visconde encaminhou-se para o quarto da cmoda. Ao verem-no surgir, soou l em cima o Ale gu da crianada de tanga. Todos correram a rodear a cartola 
que o Visconde deps sobre a cmoda. Emlia apareceu na portinha, de mos  cintura. Cada qual tinha uma coisa a dizer. Juquinha veio com a histria da mosca que 
ele e Pedrinho quase agarraram pelas pernas. "Era das rajadas."
        Emlia dirigiu-se para a caixa de fsforos de Dona Benta, seguida dos meninos. Estava ansiosa por contar as faanhas da viagem pelo mundo.
        -  Ah, eu queria que a senhora visse  a cara do Presidente quando o Visconde saiu de trs do reposteiro e entrou! No havia meio de crer que o viscondo 
de agora era o mesmo viscondinho de antigamente.
        A histria de Pail City encantou Pedrinho, o qual insistiu em descer da cmoda para imediatamente fundar no jardim uma cidade como aquela - a Cidade do Regador. 
Tia Nastcia indignou-se com a carne seca de minhoca.
        -  Credo! Viver tantos anos para acabar assim, comendo minhoca seca e ainda mais sem sal!
        -  E o Coronel? - perguntou Emlia.
        -  Est escondido por a, vestindo a tanga de algodo que eu fiz - respondeu a negra.  - Aquela roupa de anglica tinha um cheiro to forte que at dava 
dor de cabea no coitado.
        O Coronel apareceu l de trs da cestinha de costura, ainda amarrando a sua tanga nova. Foi recebido com as palmas da crianada.
        -  E quando vai ser o plebiscito, Emlia? - perguntou Narizinho.
        -  Agora.  Apressei minha" viagem de regresso justamente por causa do plebiscito. Sou democrtica. Quero que as coisas sejam feitas   segundo a vontade da 
maioria. Se a maioria quiser a volta do Tamanho, eu sentirei muito, mas farei voltar o Tamanho. Levo o Visconde  Casa das Chaves e ele pe a Chave do Tamanho na 
posio em que estava.
        -  Pois ento comece.
        Emlia fez o Visconde coloc-la no alto da cartola e de l, debaixo do chapu-de-sapo, gritou:
        -  Plebiscito! Plebiscito! Aproximem-se todos para votar.
        Todos rodearam a cartola.
        -  Quem quiser a volta do Tamanho, levante a mo.
        -  Os adultos ali presentes levantaram a mo. Eram conservadores, com idias emperradas na cabea e preferiam que tudo voltasse a ser como antigamente. Emlia 
contou os votos. Dona Benta, tia Nastcia, o Coronel.  Trs votos tamanhudos.
        -  E  agora  -  continuou   Emlia   - quem no quiser o Tamanho, levante o p!
        A crianada inteira levantou o p. Eram radicais. No tinham idias emperradas na cabea. Gostavam de mudanas. Emlia contou os votos. Narizinho, Pedrinho 
e Juquinha. Trs votos destamanhudos.
        -  Empatou! Empatou! Viva! Viva!...
        -  Falta o voto da Candoca - disse Narizinho; mas Emlia, que tinha medo do voto da Candoca, porque as saudades da mame podiam faz-la votar a favor do 
Tamanho, declarou logo:
        -  A Candoca ainda no tem  idade para votar. Empatou!  E agora, com os "meus" votos, o Tamanho perde.
        
        
        
        
        Os "meus" eram o dela e do Visconde. Mas Dona Benta reclamou:
        -  Falta a votao do terreiro.
        Era verdade. Faltavam os votos do Burro Falante, do Quindim, da Mcha e do Rabic. Emlia mandou que o Visconde pusesse a cartola e l foi para o terreiro. 
Depois de contar a histria do plebiscito ao Burro Falante, pediu-lhe o voto.
        -  Eu voto pelo Tamanho - respondeu com firmeza o burro, sem piscar as orelhas.
        Emlia danou.
        -  Por qu?
        O Conselheiro explicou que no podia conformar-se com a idia duma senhora to distinta como Dona Benta ficar toda a vida naquela situaozinha de inseto 
descascado. A gratido mandava-o votar pela volta do Tamanho.
        -  Bom. Se  por gratido, passa. Vamos  agora ver  aquele dorminhoco  do Quindim.
        O rinoceronte, l embaixo da figueira, votou em branco e no deu satisfaes. Quindim andava muito antiptico e neurastnico.
        A vaca Mocha tambm votou pelo Tamanho, o que era natural, pois sem uma tia Nastcia grande ela no teria mais as suas raes de espigas de milho do costume.
        -  E Rabic? - perguntou Emlia.
        -  Est ausente - respondeu o burro.
        -  No faz mal. Conheo Rabic, sei que ele  contra o Tamanho - e Emlia apossou-se do voto de Rabic.  Mesmo assim   o   Tamanho   estava   ganhando. Havia 
5 votos a favor do Tamanho e s 4 contra. Mas com os dois votos finais, o dela e o do Visconde, o Tamanho seria derrotado por um.
        Emlia voltou para a cmoda muito contente. Em seu rostinho brilhava o sorriso da vitria.
        -  Os votos do terreiro - disse ela - aumentaram a contagem a favor do Tamanho, mas h ainda os nossos, o meu voto e o do Visconde, e ns votamos contra 
o Tamanho. Temos assim  6 votos contra e 5 a favor. O Tamanho perdeu. Viva, viva a crianada!
        Dona Benta interveio.
        -  Como o Visconde se acha presente - disse ela - no vejo razo para que outra pessoa vote por ele. Qual  o seu voto, Visconde?
        Emlia estava mais que certa de que o voto do Visconde iria ser igual ao seu, no s porque o Visconde era uma propriedade sua, um verdadeiro escravo, como 
porque, depois do apequenamento, ele se tornara um gigante gigantesco e, pois, muito mais importante que o pobre sabugo de pernas que sempre fora. Mas enganou-se. 
O Visconde andava com medo das suas tremendas responsabilidades novas, e cansado de ser dirigido daqui para ali pela Emlia, e sujeito at a ser emprestado a governos 
como se fosse um guarda-chuva. Ah, muito melhor a sua pacata vida de antigamente, em que era pequeno entre os grandes. Muito melhor a vida calma de modesto sabugo 
de perninhas do que a vida agitada de maior gigante d mundo. Alm disso, aquela "fazenda" em sua cartola j lhe andava dando dores de cabea. Comeara uma simples 
janelinha na cartola. Depois vieram a porta, as sacadas, a plantao de musgos e chapus-de-sapo, e os rfos, e os besouros do Juquinha, e aquilo fora virando quarto 
de badulaques e museu. Emlia levava para l quanta coisa curiosa descobria pelo caminho - moscas secas, caquinhos de loua, ovos de borboletas e at coraes e 
rins secos de minhocas, l da charqueada de Pail City. Era demais. E o Visconde no tinha dvida nenhuma quanto aos "melhoramentos" que ela acabaria introduzindo 
em sua cartola - at uma lareira como aquela da Casa Branca, com grande perigo de incndio em sua cabea. O melhor era dar um golpe de morte na Nova Ordem. E foi 
assim que, quando Dona Benta lhe perguntou qual era o seu voto, o Visconde respondeu intrepidamente:
        -  Voto pelo Tamanho!
        -  Miservel! - berrou Emlia, e em seu desespero caiu do alto da cartola, machucando o nariz. A crianada tambm protestou:
        -  O voto dele no vale! Ele  milho! Milho no vota!
        Dona Benta, porm, manteve o voto decisivo do Visconde.
        Vendo que no havia remdio seno conformar-se com a opinio do maior nmero, Emlia fungou, fungou e, com a mais nobre humildade - grande exemplo para todos 
os ditadores do mundo - disse para o Visconde:
        -  Pois vamos para a Casa das Chaves, macaco!
        
        
        
     XXV
     
     A volta do Tamanho
        
        Foram. L na Casa das Chaves o Visconde com facilidade colocou a Chave do Tamanho na posio antiga, e o fenmeno que s operou foi o reverso do apequenamento 
- foi um instantneo engrandecimento. Todos os minsculos insetos descascados, em todos os pases, subitamente voltaram ao velho tamanho anterior - e o que aconteceu 
daria assunto para um livro ainda maior que este.
        Os insetos que estavam em buraquinhos ou frestas sofreram horrores, porque o "entalamento" no os deixava sair. Supe-se que milhares de criaturas morreram 
assim. Aos que foram restitudos ao tamanho anterior a primeira coisa que lhes doeu foi a vergonha. Vexadssimos de se verem nus, lanaram-se aos montinhos de roupas 
mais prximos e foram se vestindo precipitadamente. Ficou uma humanidade o que havia de cmica, dada a inevitvel troca de roupas - homens vestidos de mulher, mulheres 
vestidas de homem, este com calas muito curtas e aquele com mangas sobrando - um verdadeiro carnaval. A fria com que a vergonha havia voltado deu razo a Emlia 
- vergonha  uma simples questo de tamanho.
        L na cmoda houve um grande tombo. Aquele imenso retngulo de madeira envernizada onde caberiam folgadas centenas de criaturinhas reduzidas no comportou 
o volume das sete pessoas subitamente agrandadas - e caiu gente de todos os lados. E como as tanguinhas e mais vesturios de algodo em rama arrebentassem, todos 
se sentiram terrivelmente nus - e veio o mesmo corre-corre para as roupas. Tia Nastcia nem se lembrou de xingar o Coronel Teodorico, de to atrapalhada em enfiar 
suas saias l na saleta. Em segundos estavam todos vestidos como sempre - exceto o Juquinha, a Candoca e o Coronel, cujas roupas haviam ficado em suas respectivas 
residncias. Pedrinho levou o novo amigo para o seu quarto, onde lhe deu um terno velho; Narizinho cuidou de Candoca. Mas quem iria cuidar do Coronel?
        Quando Emlia e o Visconde reapareceram, de volta da Casa das Chaves, j igualados em tamanho, porque os dois mediam 40 centmetros, a situao era aquela: 
todos restaurados no tamanho natural, todos vestidos e todos presentes, menos um - o Coronel.
        -  Que  do Coronel?
        -  Ningum sabia.
        Procura que procura, foram encontr-lo escondido no guarda-roupa de Dona Benta.
        -  Estou descomposto - disse ele l de dentro. - Mandem buscar minhas roupas l em casa.            
        -  Credo!  - exclamou  tia  Nastcia, persignando-se. Imaginem em que estado vai ficar a roupa de Sinh com esse cavalo em pelo pisando em tudo l dentro...
?(?
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     Biografia de
    MONTEIRO LOBATO
        
        
         A 18 de abril de 1882 em Taubat, Estado de So Paulo, nasce o filho de Jos Bento Marcondes Lobato e Olmpia Augusta Monteiro Lobato. Recebe o nome de 
Jos Renato Monteiro Lobato, que por deciso prpria modifica mais tarde para Jos Bento Monteiro Lobato desejando usar uma bengala do pai gravada com as iniciais 
J.B.M.L.
         Juc - assim era chamado -brincava com suas irms menores Ester e Judite.
         Naquele tempo no havia tantos brinquedos; eram toscos, feitos de sabugos de milho, chuchus, mamo verde, etc...
         Adorava os livros de seu av materno, o Visconde de Trememb.
         Sua me o alfabetizou, teve depois um professor particular e aos 7 anos entrou num Colgio.
         Leu tudo o que havia para crianas em lngua portuguesa. Em dezembro de 1896 presta exames em So Paulo das matrias estudadas em Taubat.
         Aos 15 anos perde seu pai, vtima de congesto pulmonar e aos 16 anos sua me.
         No colgio funda vrios jornais, escrevendo sob pseudnimo.
         Aos 18 anos entra para a Faculdade de Direito por imposio do av, pois preferia a Escola de Belas-Artes.
          anticonvencional por excelncia, diz sempre o que pensa, agrade ou no. Defende a sua verdade com unhas e dentes, contra tudo e todos, quaisquer que sejam 
as conseqncias.
         Em 1904 diploma-se Bacharel em Direito, em maio de 1907  nomeado promotor em Areias, casando-se no ano seguinte com Maria Pureza da Natividade (Purezinha), 
com quem teve os filhos Edgar, Guilherme, Marta e Rute.
         Vive no Interior, nas cidades pequenas sempre escrevendo para jornais e revistas, Tribuna de Santos, Gazeta de Notcias do Rio e Fon-Fon para onde tambm 
manda caricaturas e desenhos.
         Em 1911 morre seu av, o Visconde de Trememb, e dele herda a fazenda de Buquira, passando de promotor a fazendeiro.
         A geada, as dificuldades, levam-no a vender a fazenda em 1917 e a transferir-se para So Paulo.
         Mas na fazenda escreveu o JECA TATU, smbolo nacional.
         Compra a Revista do Brasil e comea a editar seus livros para adultos. Urups inicia a fila em 1918.
         Surge a primeira editora nacional "Monteiro Lobato & Cia.", que se liquidou transformando-se depois em Companhia Editora Nacional sem sua participao.
         Antes de Lobato os livros do Brasil eram impressos em Portugal; com ele inicia-se o movimento editorial brasileiro.
         Em 1931 volta dos Estados Unidos da Amrica do Norte, pregando a redeno do Brasil pela explorao do ferro e do petrleo.
         Comea a luta que o deixar pobre, doente e desgostoso. Havia interesse oficial em se dizer que no Brasil no havia petrleo. Foi perseguido, preso e criticado 
porque teimava em dizer que no Brasil havia petrleo e que era preciso explor-lo para dar ao seu povo um padro de vida  altura de suas necessidades. J em 1921 
dedicou-se  literatura infantil. Retorna a ela, desgostoso dos adultos que o perseguem injustamente. Em 1945 passou a ser editado pela Brasiliense onde publica 
suas obras completas, reformulando inclusive diversos livros infantis. Com Narizinho Arrebitado lana o STIO DO PICAPAU AMARELO e seus clebres personagens. Atravs 
de Emlia diz tudo o que pensa; na figura do Visconde de Sabugosa critica o sbio que s acredita nos livros j escritos. Dona Benta  o personagem adulto que aceita 
a imaginao criadora das crianas, admitindo as novidades que vo modificando o mundo, Tia Nastcia  o adulto sem cultura, que v no que  desconhecido o mal, 
o pecado. Narizinho e Pedrinho so as crianas de ontem, hoje e amanh, abertas a tudo, querendo ser felizes, confrontando suas experincias com o que os mais velhos 
dizem mas sempre acreditando no futuro.
         E assim o P de Pirlimpimpim continuar a transportar crianas do mundo inteiro ao STIO DO PICAPAU AMARELO, onde no h horizontes limitados por muros 
de concreto e de idias tacanhas.
         Em 4 de julho de 1948 perde-se esse grande homem, vtima de colapso, na Capital de So Paulo.
         Mas o que tinha de essencial, seu esprito jovem, sua coragem, est vivo no corao de cada criana. Viver sempre, enquanto estiver presente a palavra 
inconfundvel de "Emlia".
        
         
        
        



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1 Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a inteno de facilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar e 
tambm proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.
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3 Geografia de Dona Benta.
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